segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

.uma lembrança.



Calei-me, enfim.

Queria eu que ela só me levasse pela mão, que esquecesse meus impropérios, minhas lamúrias desmedidas. Eu só desejava naquele momento que o caminho fosse outro, que ela aceitasse meus lânguidos pedidos de desculpas – mas ainda sim com um descompassado sentimento de sinceridade, de real necessidade de afeto. Eu só almejava aquele olhar de outrora, aquela tortura velada e carinhosa, um afago em estado bruto. Eu pedia demais, choramingava demais e perdia o tempo de nossas canções preferidas. Eu estupidamente errei ao solfejar prazeres de outras épocas – e em galáxias tão distantes que nem as retinas opacas conseguiam mais ver em meu álbum P&B de memórias tristes. Falei por ser idiota, só para incomodar quem só queria um pouco mais. Eu mesmo só queria um pouco mais.

Joguei mágoas em seu vestido. Manchei com rancor a nossa curta história, e deixei em todo e qualquer sentimento recíproco um câncer. Um soluço, um riso amarelo, e a certeza de um iminente caminho solitário e vagabundo. Abençoei drogas, joguei pinga para Deus e o Diabo, disse a ela que exorcizava demônios. Nem isso nem aquilo.

Calei-me, enfim. E deixei que ela sumisse no horizonte que não era mais meu.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

.o cordial.


Ligo o sorriso automático e ando a passear pela cidade. Cumprimento as pessoas conhecidas e as que não conheço trato com providencial cordialidade. Sou puro afeto, compreensão e amabilidade. Aos mendigos dou as moedas do bolso, compro pães e troco meia dúzia de palavras. Demonstro querer saber do cotidiano sem graça deles e olho nos olhos de cada um quando vou falar alguma frase feita dos muitos livros de auto-ajuda que li na vida.

Meu riso, confesso, já não é o mesmo de antigamente. Não consigo um feed back tão lhano como outrora. Quando eu o James Dean mulato da minha família, as cousas eram diferentes, até mais fáceis. O meu romantismo diluído era exíguo para as minhas aspirações grandiosas, para o meu futuro tão promissor. Eu era um pouco mais triste, mas pouco cordial. Talvez por isso a impressão que eu passava era a de sujeira, de um mendigo culto.

As cousas mudaram. Perdi sonhos, ganhei cicatrizes e algumas tatuagens na memória doentia que Jesus fazia questão de vigiar. Asfixiei meus gatos, minha mãe e meu pai regresso do deserto – o mesmo deserto no qual senti sede sob as admoestações divinas. Asfixiei minhas esperanças e tive medo dos acordes menores que a melodia da vida me escrevia. Talvez porque eu não sabia ler aquelas partituras eruditas. Talvez porque eu me interessasse mesmo era por música popular, dessas que exalam o perfume do abraço lascivo das pessoas ordinárias.

Aprendi a fazer isso e aquilo, mas sempre mantendo a minha ingenuidade burra, a minha inocência passiva e idiotizada. E compreendi o poder do riso. Abandonei as ruas e meu terno de padre, minha mala e adotei novos gatos. Casei-me com uma enfermeira com problemas familiares e crente – malgrado eu explicar a necessidade de apagar da nossa mente o sentido de Deus. Habituei-me a sorrir assim, facilmente e com a sinceridade manufaturada a canções sacras e novas sensações.

Sou mais cordial, mais sincero. Humano demais. Nutro indiferenças por amores passados, e satisfaço meu complexo de Édipo com sonhos impertinentes. Aos poucos me concluo, rabisco-me por inteiro e deixo a cabeça explodir. Meu riso – só o meu riso – encanta os coadjuvantes desse meu sonho lúcido.

O suporte técnico já foi chamado, assim como já foi solicitada a presença do doutor Mierzwiak. Decidi apagar apenas algumas partes. A minha Clementine de imanes mãos vai ser a primeira. Só o meu ruço riso me interessa.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

.um malandro desterritorializado.


Eu contrabandeava sambas do morro. Eu era amigo de uns sambistas das antigas lá do morro. Malandros de cartola na cabeça, bigodinho safado, camisa listrada com as cores da mangueira e aquele riso fácil e esbranquiçado que contrastava com a pele morena. Sempre um verso na palma das mãos eles tinham, ou nos bolsos ou no maço de cigarro – bem enroladinho que é para não soar estranho diante dos roques tantos com os quais eles tinham de lidar.

Eu conhecia um malandro em especial, o Severino-boca-podre. Ah, esse era o legítimo malandro. Claro, não convém aqui desmistificar a imagem de santo da favela, de milagreiro do morro que ele tinha. Mulato de beiços fartos, cantava-conversava aos perdigotos, e sempre exalando um fétido hálito. Os olhos crispavam quando percebia que parávamos de respirar para ouvi-lo recitar este ou aquele samba. E era cada melodia! Era cada harmonia! Como muitos, Severino não sabia o que era um sol no violão ou lá no cavaquinho, mas solfejava – aspasSofrer já? É comigo mesmoaspas, dizia ele todo malandro – como o comovido diabo do poeta ao luar.

Severino-boca-podre foi quem me sujou a imagem lá no morro. Eu escondia bem os sambas, sabia que os irmãos não gostavam daquele tipo de atividade, que odiavam ter de dar explicações públicas sobre a origem dos sambas ou ter de reivindicar direitos autorais. Eu fazia cara de sonso e apoiava cada descida ao asfalto dos líderes das escolas. Vestia eu minha camisa listrada, o uniforme do malandro-do-morro, e entoava junto a eles os versos roubados. Mas ninguém, no fundo, sabia dos meus atos ilícito-musicais.

A cousa começou a desandar de uns tempos para cá. Para ser mais exato, foi num domingo ensolarado – um daqueles dias em que é inevitável ter algumas manchas de suor em sua camisa de linho –, num churrasco na casa do Severino-boca-podre em comemoração a mais um samba feito – mais um! Tudo era motivo de festa, de samba e de cerveja gelada em meio a lingüiças, carnes e farofa. Aquele mundaréu de mulatas rebolando sob um sol doído, um bando de malandro batucando e cantando em coro os sambas mais pedidos pela comunidade. Era um quadro que nem Miró nem Picasso aceitariam o desafio de retratar. Só mesmo Goya ou Caravaggio poderiam retratar aquela crueza, todo aquele instinto animal que exalava feromônio e lascívia. Música concupiscente feita para corpos lambuzados de pecado e malícia. E eu ali com minha malemolência preguiçosa. aspasNão, não, depois eu danço. Estou bebericando aqui, me preparando. Já já eu rodo o pandeiro para tiaspas, ameaçava eu quando alguma mulata sensual me perguntava o porquê de eu estar sentado se não estava tocando.

Lá pelas tantas horas de samba e cerveja e sol na moleira, tive de ir ao banheiro. Apenas acenei com a mão a Severino-boca-podre, e ele fez que sim, soltando um sonoro e cheio de baba e farofa aspasPode ir lá. A Bertoleza te fala onde éaspas. Bertoleza. Coincidência dos diabos, poeta! Se bem que não podia ser diferente, uma vez que estávamos mesmo num cortiço, numa lage-mansão dos sambistas mais malandros do morro. Éramos a elite da periferia. Um paradoxo músico-sociológico que estudioso algum teorizou.

Eu não conhecia Bertoleza. Só de nome e de um mistério que todos desconversavam. Alguns apontavam o dedo na nossa cara quando o nome dela entrava na roda de conversa. Mas no fundo eu não me importava com essas mesquinharias, com essas fofocas de fundo de quintal.

Entrei na modesta casa de Severino e não vi Bertoleza. Saí a procurar pelo banheiro assim mesmo, pois a situação não me permitia gentilezas e boas maneiras – ainda mais na casa de um malandro como Severino-boca-podre. Suspeitei que atrás de uma porta bege e manchada estaria o meu desiderato. Abri a porta num movimento rápido e logo vi uma mulata de cabelo sarará e de corpo de modelo. Esbelta, com olhos cheios de um imensidão, de um horizonte que eu, de fato, desconhecia. E na mão um pênis de 20 centímetros. Arregalei os olhos assustado e ela-ele piscou com malícia para mim. Benzi-me e saí apressado do churrasco. Severino ainda me seguiu questionando o porquê de eu sair assim tão de repente. aspasNão me aperreia, Boca-podre. Estou cansado e preciso resolver uns negóciosaspas, disse eu, perturbado e ébrio daquela bizarrice.

Passaram uns dias, e então me senti preparado para encarar Severino e todo o pessoal – que, suspeito, já sabia ou, pelo menos, suspeitava do segredo de Bertoleza. Quando cheguei ao morro, na tradicional roda de samba da segunda-feira, todos me olhavam de soslaio. Todos faziam uma cara-boca de nojo para mim – como se falassem em francês comigo. Um clima incômodo, desagradável. Então chegou o Moreno Brilhantina – um sambista das antigas e muito respeitado por ter feito dous sambas que quase foram para a Sapucaí – e me disse o que havia ocorrido: Severino-boca-podre espalhara que eu estava de caso com sua mulher e que eu roubava versos nos ensaios para depois juntá-los e, estando algumas estrofes prontas, vendê-los a filhos de jogadores de futebol consagrados.

Cabisbaixo, retirei-me da roda deixando adrede minhas harmonias nos olhos dos malandros. Balbuciei dois ou três versos em espanhol, bati em meu pandeiro e me deixei levar embora. Desci para o asfalto para ser mais um malandro desterritorializado, sem raízes. Hoje eu faço jingles para comerciais de cerveja e me iludo animando festas de aniversário. E, por causa do trauma, só transo com travestis.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

.sobre a imagem.


Sorveu do riso triste algum fiapo de alegria e, ungindo as mãos com as lágrimas ímpias, batizou o herdeiro que está prestes a chegar. Uma cópia em miniatura de toda aquela beleza, serena figura em quadro renascentista, adorno vivo na mais simpática moldura. Segura um mundo novo, um universo prestes a explodir e se expandir para os limitados anos de uma vida – tão-somente uma vida.

Foram dias de uma gestação calma e sem experimentações alheias, sensações e frutas de uma feira perigosa. Apenas cuidados e algum sono, algumas olhadelas em estrelas, e uma missiva prometida que nunca foi enviada. É compreensível, convenhamos. As palavras podem esperar três, sete, nove meses ou até mais – e elas sempre esperam, estão acostumadas.

O riso contido denuncia a imensa alegria de se fazer luz para dar vida a um novo universo. Alegria lhana que aperta o coração e assobia uma melodia em comum; alegria que se ouve em notas fantasmas, intencionalmente tímida, pianíssimo. E ela é agora só grito, toda ela um grito que não pode ser contido ou explicado. Um grito que desafia o silêncio, pois o choro iminente já é quase ouvido. Alegria em estado bruto, meiguice materna.

O nome do novo horizonte já foi definido – pelo menos já se lê e ouve propostas. Será ele um passageiro nela, dela. Será ainda a saudade mais lancinante e bonita, as noutes em claro, a voz a acariciar o sono e o alvo mais desejado dos afagos maternos. Enfim, um universo que caberá no colo e que poderá ser ninado ao som de Elliot Smith. A tatuagem mais bonita que ela pode ter desenhada em carne viva.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

.idade*.


A tatuagem na pele
Exibindo uma juventude já enrugada
As cores desbotadas e leves
Como uma carta de despedida não rasgada

A cegueira dos anos passados
O nervosismo calmo e distante
Passos lentos, arrastados
A certeza fugindo a todo instante

A pele toda é um solo nordestino
Sulcos de mágoa e alegria e tristeza
Amigo, tudo isso faz parte do destino
Um dia, acredita, perderás tua beleza

A tatuagem na pele ranzinza
Sendas nas palavras já empoeiradas
Olha, amigo, o céu é todo cinza
E estas flores só para ti foram arrancadas.



*Originalmente publicado em 20 e sete de agosto de 2000 e quatro

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

.relato de um sujeito que foi fisgado e que precisa de toda a simplicidade do mundo para se aceitar como o óbvio mais ululante do qual se tem notícia.


Estou abrindo as comportas do meu coração seco, desértico. Não me venham com essas historinhas melosas de amor ou de sentimentos recíprocos correspondidos. Não me venham com contos de fadas açucarados ou com pornografia desmedida, nojenta e violenta. Um tapa, um cuspe, uma gozada – nada além daquilo que o óbvio permite a um casal insosso. Mas não me venham com final feliz, com alegria sem tamanho, com olhos álacres destilando felicidade a quem sequer entende o motivo do riso. Agrada-me mais a falsidade, o respeito cafona e os ademanes que os manuais de boas maneiras impõem.

Não há água neste deserto, neste poço fundo. Há resquícios, não nego. Há uma ou outra prova de que isto um dia abrigou um lago assaz imenso, mas exíguo para alagar qualquer cidade alheia. Talvez tenha até umedecido essa ou aquela vila, mas uma cidade de verdade? Ah, isso não! Podem ter certeza que isso não aconteceu. Não houve trilha sonora adequada, efeitos especiais, atuações marcantes ou prêmios de consolação. Puro lixo sentimental.

Houve um tempo em que acreditei nas palavras de amor de outras pessoas, em que realmente pude crer no afeto alheio. A minha ingenuidade fez de dias ordinários verdadeiros big bangs. Eu via as cores vivas, eu ouvia o minimalismo dos afagos, sentia a rispidez de uma noute regada a sexo carinhoso e a gozos musicáveis. Eu desafiava todo e qualquer desacreditado com versos, com imagens sacramente aquareladas, puras em sua concepção artístico-literária, na construção física de um sentimento que me sufocava – ou parecia sufocar.

Era um romance! Eram romances! O mais puro pieguismo, confesso, mas sincero e pungente e crível. Eu aceitei a isca no anzol limpo das impurezas mundanas, das sujeiras lascivas e de todo o mal que o mundo insistia em me oferecer de pernas abertas. E sequer percebi que havia rachaduras por todos os lugares, e que aos poucos eu secava. E quem se importava com isso? Sentimento a gente compra, afeto pede emprestado e respeito rouba dos otários. A minha mesura me fez um sujeito ralo, superficial em meu abismo pseudo-autista, pseudo-artista. Minha arte menor só atrai as moscas, as varejeiras que me cobrem de verde: manto supremo da mediocridade. Eu sou medíocre hoje, e de agora em diante não há como remediar tamanha ousadia. As aquarelas outrora pintadas são exatamente isso: imagens sem cores e fracas e baratas. Não vale o espetáculo dos pincéis, e muito menos compensa o uso irrestrito dos matizes.

Agora eu não inundo ninguém. Não preencho vãos e tampouco percorro céus com meu rústico linguajar. Toda a coprolalia um dia poupada é o que tatua a alma, o que me gangrena as lembranças. Sei que serei condenado pelo que a minha mente suja pensa. Estou seco, acomodado em minha secura asséptica. Estou nu, tal qual uma sombra diante da iminente luminosidade. Não sei se vocês sentiram tamanha insegurança, como quem vai dar um tiro e sente que vai espirrar. Agora que eu encontrei, já se foi. Não adiante ter grandes idéias, eu bem sei.

As melodias hoje são outras, são outros tempos em partituras desconhecidas. Meu universo dodecafônico é demasiado ruço – e nisso já existe contradição suficiente para que eu me diminua ainda mais. Por isso não me venham com histórias melosas e fotos em branco e preto, não me venham com romantismos baratos e esperanças pré-fabricadas na esperança de todo sujeito comum. Comumente isso já me irrita, e ser o óbvio me irrita muito mais. Puxem a corda, é o que peço. Mordi a isca, acreditei na cartilha, li a bíblia, eu vi a cena. Enfiem-me nesse aquário, exibam-me como mais uma atração murcha, sem tempero. Digam que eu sou isso e aquilo, que faço tudo na medida da mediocridade. Eu assumo tudo, não nego. Apenas deixem a trilha acústica para afagar o meu deserto, pois preciso de toda a simplicidade do mundo para me aceitar como o óbvio mais ululante do qual se tem notícia.

domingo, 14 de outubro de 2007

.uma quarta-feira ordinária.


Estávamos numa mesa no meio do deserto. Exercíamos nosso jeito excêntrico de gastar a vida: mentindo, rindo da dor alheia, contando vantagens e fofocando mesquinharias. Há uma semana eu não bebia e mentia tanto! O sol lambia as nossas nucas e fervia os pensamentos, derretia as idéias mais rasas. Estávamos no meio do deserto, meio dia. Chamamos o garçom e pedimos outra cerveja. Como que vindo de um túnel, ouvi a voz do oriental me chamar. Eu estava ausente, perdido em algum labiríntico haicai. Eu era o verso final, e sequer sabia o sentido daquela construção poética. A mesa no meio do deserto: um quadro assaz solitário em épocas de fronteiras inexistentes.

O oriental chamou a minha atenção sobre o cardápio com um espanhol sofrível. Resmunguei qualquer cousa. Balancei a cabeça e assobiei a melodia que o artista de rua entoava com um violão desafinado, sujo. Ninguém se importava com aquela arte popular. Estávamos no meio do deserto, e canções sobre amor ou sambas de uma nota só não eram bem vindos. O pedido foi feito, e aos poucos, em câmera lenta, o garçom se afastava andando de costas com um riso malicioso no rosto.

A conversa na mesa vez ou outra se voltava para os sucessos populares do artista de beira de calçada, e de quando em vez ganhava um ar mais carrancudo. As palavras vinham com perdigotos intelectuais, e os assuntos iam desde viagens a países imaginários a Cristos egoístas. E de quando em vez o oriental se virava para mim e dizia que era um colombiano. Ele insistia em conversar com a gente naquele espanhol sofrível e com referências culturais oriundas de uma programação musical-televisiva rala, desafinada. Eu dizia que sequer conhecia os artistas daquele país. E uma fungada forçada e exagerada era suficiente para ele saber qual era a minha referência do país do qual ele acusava nacionalidade.

Do outro lado da mesa estava uma professora que falava pelos cotovelos. Ela era a própria palavra, era gestos e trejeitos. Cada significado ou termo pronunciados por ela escorriam pelos antebraços, e os olhos brilhavam a cada anedota que só ela e o oriental – que respondia com um aspasSi, siaspas ou aspasPero no muchoaspas – conheciam. Nessas horas eu me virava para o artista popular, que agora já não parecia tão empolgado em se apresentar para uma platéia exótica como aquela.

Ao lado da professora estava um primo dela. Ela falava pouco, bebia água com gás e ria só para acompanhar a nossa alegria. Passava a maior parte do tempo observando as próprias unhas e olhando de soslaio para nós enquanto fingia tocar teclado na mesa. Ele só abriu a boca uma vez para falar do filho que tinha oito anos e que era um desses filhotes da informática.

Eu estava na mesa de penetra, meio que por acaso, perdido. Meus dentes rangiam e eu sentia cada um deles trincar. Eu podia sentir o amaro gosto dos pequenos pedaços dos meus amarelos dentes, de parte do riso que eu exibira em troca de sentimentos alheios. Eu sentia os pedaços fazerem cócegas em minha gengiva enegrecida pela fuligem de um ou outro cigarro ilicitamente obtido num bairro carente da cidade. E enquanto isso, o oriental me falava palavras em espanhol, e eu dizia a ele que meu patriotismo só me faz comer mandioca enlatada. Ele fechava os olhos mais ainda para afirmar que não tinha entendido e que Millôr não era um dos seus autores favoritos.

Em plena quarta-feira eu aprendi a sorrir e a chorar, mas acho que não me servem mais estes sentimentos sinceros. Eu pensava na minha necessidade de saber mentir, e quem sabe fazer sexo com um travesti. Era meio dia, o sol maltratava as moleiras da gente. Pedimos outra cerveja e continuamos a contar vantagem um para o outro. Éramos bons nisso, confesso.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

.ensaio aberto.


A melodia não era nova, é bem verdade. Aquele quê de noir no ar não me enganava. O brilho excessivo dos instrumentos disfarçava a falta de prática nos acordes, a pífia dedicação musical. O samba tatuado nas costas delas me excitava, fazia com que eu batesse o pé direito tão lascivamente que qualquer uma delas se perderia em meu quatro por quatro sacana. Elas assumiriam a doença no pé e a ruindade na cabeça.

O ensaio era aberto ao público, aos transeuntes que traziam as previsões de seus Orixás em vagas lembranças. Elas elevavam o tom perigosamente, enchiam os pulmões de maldade e sopravam as partituras desafinadas. O coração batendo fora do tempo dava certo charme aquele barulho concupiscente, mas não o suficiente para encantar tanto assim. E mesmo assim elas me encantaram.

Fotografei em minhas retinas plúmbeas as curvas delas, todos os detalhes, todas as curvas, todas as malícias, todos os sonhos pornográficos e todos os fetiches ainda não consumados. Eu via oceanos a serem desbravados por minhas canoas tortas. Havia, eu sabia, vilões a serem presos por todo o meu heroísmo de político. Eu via toda uma geometria labiríntica tentadora na qual eu faria questão de me perder – e só me achar nos afagos musicais de cada uma delas, nos suspiros roucos daquelas canções escritas em escala pentatônica.

O sol brilhava lá fora, e o estúdio insistia em se manter frio diante daquele clima ameaçador. A parede de vidro era a única ponte entre as deidades e o som que saía em pequenas caixas postas acima de nossas cabeças – som de radinho de pilha, igualmente distorcido como as versões ousadas e cruas que elas executavam. O ápice foi uma tentativa frustrada de um tango qualquer, um desses sucessos irreconhecíveis. Um lá e um ré e um sol e um mi em mim de chorar, de fazer lacrimejar todos os olhos do corpo e de embaralhar as sinapses mais intrincadas. Foi demais, eu acho.

Uns tiveram taquicardia, outros, aneurisma. Eu me contive, segurei a situação pelos cabelos e dei uns tapas de amor entremeados por rimas pobres. Imbriquei minhas impressões mais sinceras em meus remorsos musicais, engendrei falsas melodias e até uns refrões de apelo popular. Masturbei-me lentamente. Olhos semi-cerrados, boca torta e uma corcunda saliente. Sujei a parede de vidro com meus filhos premeditadamente abortados, e elas sequer cogitaram parar com aquela sandice dodecafônica.

Fechei os olhos e tentei decorar um acorde oriental, mais uma curva pornográfica. Tudo em vão: o deserto dos tons mais álacre me inundava o peito, e aquilo foi demais para as minhas linhas tortas escritas por Ele, o pagão. Eu estava com sede, e aqueles rios alvos e seus istmos negros não me saciariam nem em pensamento.

Sabe, doutor, é por isso que sou um músico frustrado.

Ele se levantou, olhou pela janela e duvidou da música ambiente do consultório. Mas estava certo do silêncio que ecoava no peito ocidental demais para aquelas músicas contemporâneas.

sábado, 22 de setembro de 2007

.vermelho.



Era tarde quando eu passeava com uma pequena explosão em meu bolso e um pouco de pólvora no meu peito. A fuligem do incêndio de outrora denunciava o fracasso da tentativa: as velas foram insuficientes para iluminar o caminho no meio daquela escuridão toda. Eu tateava o ar em busca da linha cuja pipa dançava na extremidade a de um céu assaz cinza. Essa pipa me preencheria de alguma forma. Ela chegou de vestido aquarelado e com a voz meio Rembrandt.

– Vazio?

– Quase sempre. Na verdade, pela metade. Mas um copo vazio está cheio de ar, não? Preciso de umas cores fortes para sanar uns problemas.

– Quem dera fosse menstruação.

– Quem dera... Mas sinto as cólicas. Só às vezes, mas sinto.

– Falta tinta vermelha.

– Eu tenho um tubo de guache, mas aí não poderia tomar banho de chuva. Se bem que chuva para estas bandas está difícil...

Estávamos num deserto de concreto. Os prédios faziam cócegas no umbigo de Deus, e este ria como podia diante das desgraças muitas. Ao fundo sempre soava um country qualquer, uma voz falsa, um ritmo cansado. Por um segundo a conversa parou. Ela tomou a iniciativa de voltarmos aos negócios.

– Ontem não agüentei e parei num orelhão. Disseram que não tinha tinta nenhuma. Parecia gravação

– Sempre fazem isso nas horas mais necessitadas, quando a gente precisa um pouco só para diluir em água e usar no que for possível.

– Como quem enforca agonia. Credo!

– É, esse povo não tem coração. O que é um pouco de tinha vermelha hoje em dia? Quase nada.

– Estranho... Vou antes que o pior aconteça.

– Qualquer cousa basta olhar para trás que estarei te vigiando com uma cor genérica.

Ela se afastou com um olhar formal, um andar calculado. O vestido aos poucos manchava as ruas parcamente iluminadas pelos postes à óleo. Eu a vi quando tentou voltar o olhar para mim, mas a polícia chegou e tive de correr. Corri o quanto pude, atravessei pontes, pulei muros e, essencialmente, corri. O peito encardido doía – tamanha era a falta de ar –, e quando eu pensava em parar para descansar um pouco, logo vinha um oficial todo de azul gritando e sendo o mais escandaloso que podia com os seus típicos ademanes jurídicos.

Corri mais um pouco até borrar a vista. O vermelho já era pouco, e mesmo que ela me passou – de segunda mão, mas lhano em seu matiz canalha – era exíguo para me fazer acreditar numa possível fuga.

Deixei-me cair na rua úmida e esperei os azuis olhando para o céu. Eu estava desbotado por completo, seria mínimo o castigo, mas com uma considerável quantia de dor física. Eles vieram num carro azulado, e ela estava no banco de trás com os olhos chorosos, prestes a transbordar uma dor ruça, um sentimento ainda não pintado. Foi algo rápido, um soslaio criminoso.

Espancaram-me até eu perder os sentidos, até eu perder o rumo dos pensamentos lascivos que eu guardava para o nosso re-encontro. A pequena explosão em meu bolso virou uma lembrança casual, um vermelho-sangue em meus olhos.

sábado, 15 de setembro de 2007

.o baile.



Eu a vi com a borboleta nos ombros, o rosto liso e a mente vazia de maldades lascivas. Quis convencê-la a me acompanhar dando cerveja importada, palavras em inglês e versos tropicalistas. Eu quis impressionar mesmo, dar a ela a melhor imagem de intelectual da moda que um dia eu pudesse dar a alguém. Trazia a minha arrogância numa calça jeans desbotada, sapatos sujos, despenteado, óculos com aros grossos, barba por fazer e unhas limpas. Eu estava convincente, é bem verdade. E por isso me aproximei dela.

Ela estava no canto do salão vazio. Não havia ninguém dançando, só eu e ela estávamos presentes: eu porque não sabia o horário do espetáculo, ela por qualquer motivo que não me interessava no momento. A luz era rala, de bordel vagabundo, daqueles de putas feias e barrigudas. As paredes estavam tatuadas com cópias de cópias de quadros famosos e outros tantos feitos em fundo de casa – arte näif feita com guache e giz de cera. A música estava distante, e era possível ouvir cada verso brega duas vezes – tamanha era a imensidão do salão vazio. Eu e ela apenas, dous incautos e doentes.

Éramos antípodas naquela cena desbotada de um romance de banca. Eu balançava meus pés enquanto olhava furtivamente para ela, para a sua saia de babados puídos, para a sua camisa simples e alva. Enquanto isso ela perdia o olhar em alguma estrofe borrada da canção ao fundo, imaginava flores num jardim de nossa favela sentimental e mexia os dedos com certa inquietação. Estávamos no extremo do salão, bem rente ao precipício. Esperávamos pelos outros, já era tarde. Mas ninguém apareceu.

Todo aquele vazio ecoando pelo salão me atordoava, e por isso decidi ir até o bar e pagar uma bebida para ela. A luz avermelhada fazia manchas em minha camisa abotoada e bem passada. Minha testa orvalhada, meus olhos embotados de cimento e lágrima; tudo compunha um quadro assaz fedorento, mas esteticamente apresentável para aquela circunstância. O dono do bar esfregava um copo e tinha o rosto desfigurado – como em tantos filmes se pode observar. Pedi uma cerveja importada. Voz hesitante, meio cabisbaixo. O dinheiro enrugado e úmido de suor. aspasDous copos, por favoraspas. Ele me olhou de cara feia, como se não tivesse ouvido o por favor.

Caminhei tentando me manter ereto. A garrafa numa mão, os copos na outra, e o olhar seguro, firme, hirto. Eu me considerava naquele momento um ser sexualmente nocivo aos bons costumes. Aproximei-me e perguntei se podia sentar ao lado dela. Ela me olhou indiferente, ajeitou a alça da camisa e voltou àquele autismo de fim-de-semana. Sentei-me na cadeira que trazia a marca de uma cerveja nacional qualquer e servi os dous copos da garrafa verde que comprei. Nome alemão. Ofereci um gole a ela. Voz suave, mas com o peso da indiferença. Falei dous ou três versos doces bárbaros a ela, duas cantigas em inglês. Ela sequer alterou a respiração.

Num suspiro aliviado, ela se virou de lado e escondeu o riso numa das mãos. Talvez fosse a música, talvez o cheiro da cerveja, ou talvez nem fosse algo compreensível a nós dous naquele lugar. Vi de relance a tatuagem da borboleta no ombro esquerdo, mas meus olhos a macularam em minha memória de tal maneira que poderia eu deslindá-la na mais rala poesia. Foi um movimento rápido: com o riso na palma da mão direita, ela puxou a borboleta pelo tracejado. Olhou para mim de soslaio e ameaçou balbuciar alguma cousa. Não deu tempo. Voaram as duas pelo salão e escaparam pela janela.

A cerveja importada de nome alemão esquentou. Ninguém apareceu naquele baile.