sábado, 22 de setembro de 2007

.vermelho.



Era tarde quando eu passeava com uma pequena explosão em meu bolso e um pouco de pólvora no meu peito. A fuligem do incêndio de outrora denunciava o fracasso da tentativa: as velas foram insuficientes para iluminar o caminho no meio daquela escuridão toda. Eu tateava o ar em busca da linha cuja pipa dançava na extremidade a de um céu assaz cinza. Essa pipa me preencheria de alguma forma. Ela chegou de vestido aquarelado e com a voz meio Rembrandt.

– Vazio?

– Quase sempre. Na verdade, pela metade. Mas um copo vazio está cheio de ar, não? Preciso de umas cores fortes para sanar uns problemas.

– Quem dera fosse menstruação.

– Quem dera... Mas sinto as cólicas. Só às vezes, mas sinto.

– Falta tinta vermelha.

– Eu tenho um tubo de guache, mas aí não poderia tomar banho de chuva. Se bem que chuva para estas bandas está difícil...

Estávamos num deserto de concreto. Os prédios faziam cócegas no umbigo de Deus, e este ria como podia diante das desgraças muitas. Ao fundo sempre soava um country qualquer, uma voz falsa, um ritmo cansado. Por um segundo a conversa parou. Ela tomou a iniciativa de voltarmos aos negócios.

– Ontem não agüentei e parei num orelhão. Disseram que não tinha tinta nenhuma. Parecia gravação

– Sempre fazem isso nas horas mais necessitadas, quando a gente precisa um pouco só para diluir em água e usar no que for possível.

– Como quem enforca agonia. Credo!

– É, esse povo não tem coração. O que é um pouco de tinha vermelha hoje em dia? Quase nada.

– Estranho... Vou antes que o pior aconteça.

– Qualquer cousa basta olhar para trás que estarei te vigiando com uma cor genérica.

Ela se afastou com um olhar formal, um andar calculado. O vestido aos poucos manchava as ruas parcamente iluminadas pelos postes à óleo. Eu a vi quando tentou voltar o olhar para mim, mas a polícia chegou e tive de correr. Corri o quanto pude, atravessei pontes, pulei muros e, essencialmente, corri. O peito encardido doía – tamanha era a falta de ar –, e quando eu pensava em parar para descansar um pouco, logo vinha um oficial todo de azul gritando e sendo o mais escandaloso que podia com os seus típicos ademanes jurídicos.

Corri mais um pouco até borrar a vista. O vermelho já era pouco, e mesmo que ela me passou – de segunda mão, mas lhano em seu matiz canalha – era exíguo para me fazer acreditar numa possível fuga.

Deixei-me cair na rua úmida e esperei os azuis olhando para o céu. Eu estava desbotado por completo, seria mínimo o castigo, mas com uma considerável quantia de dor física. Eles vieram num carro azulado, e ela estava no banco de trás com os olhos chorosos, prestes a transbordar uma dor ruça, um sentimento ainda não pintado. Foi algo rápido, um soslaio criminoso.

Espancaram-me até eu perder os sentidos, até eu perder o rumo dos pensamentos lascivos que eu guardava para o nosso re-encontro. A pequena explosão em meu bolso virou uma lembrança casual, um vermelho-sangue em meus olhos.

3 comentários:

Sabrina disse...

deus é tão delicado.
às vezes...

Sabrina disse...

e depois quero saber como deixar o blog assim...tão barroco

kenas disse...

mininu...