terça-feira, 2 de outubro de 2007

.ensaio aberto.


A melodia não era nova, é bem verdade. Aquele quê de noir no ar não me enganava. O brilho excessivo dos instrumentos disfarçava a falta de prática nos acordes, a pífia dedicação musical. O samba tatuado nas costas delas me excitava, fazia com que eu batesse o pé direito tão lascivamente que qualquer uma delas se perderia em meu quatro por quatro sacana. Elas assumiriam a doença no pé e a ruindade na cabeça.

O ensaio era aberto ao público, aos transeuntes que traziam as previsões de seus Orixás em vagas lembranças. Elas elevavam o tom perigosamente, enchiam os pulmões de maldade e sopravam as partituras desafinadas. O coração batendo fora do tempo dava certo charme aquele barulho concupiscente, mas não o suficiente para encantar tanto assim. E mesmo assim elas me encantaram.

Fotografei em minhas retinas plúmbeas as curvas delas, todos os detalhes, todas as curvas, todas as malícias, todos os sonhos pornográficos e todos os fetiches ainda não consumados. Eu via oceanos a serem desbravados por minhas canoas tortas. Havia, eu sabia, vilões a serem presos por todo o meu heroísmo de político. Eu via toda uma geometria labiríntica tentadora na qual eu faria questão de me perder – e só me achar nos afagos musicais de cada uma delas, nos suspiros roucos daquelas canções escritas em escala pentatônica.

O sol brilhava lá fora, e o estúdio insistia em se manter frio diante daquele clima ameaçador. A parede de vidro era a única ponte entre as deidades e o som que saía em pequenas caixas postas acima de nossas cabeças – som de radinho de pilha, igualmente distorcido como as versões ousadas e cruas que elas executavam. O ápice foi uma tentativa frustrada de um tango qualquer, um desses sucessos irreconhecíveis. Um lá e um ré e um sol e um mi em mim de chorar, de fazer lacrimejar todos os olhos do corpo e de embaralhar as sinapses mais intrincadas. Foi demais, eu acho.

Uns tiveram taquicardia, outros, aneurisma. Eu me contive, segurei a situação pelos cabelos e dei uns tapas de amor entremeados por rimas pobres. Imbriquei minhas impressões mais sinceras em meus remorsos musicais, engendrei falsas melodias e até uns refrões de apelo popular. Masturbei-me lentamente. Olhos semi-cerrados, boca torta e uma corcunda saliente. Sujei a parede de vidro com meus filhos premeditadamente abortados, e elas sequer cogitaram parar com aquela sandice dodecafônica.

Fechei os olhos e tentei decorar um acorde oriental, mais uma curva pornográfica. Tudo em vão: o deserto dos tons mais álacre me inundava o peito, e aquilo foi demais para as minhas linhas tortas escritas por Ele, o pagão. Eu estava com sede, e aqueles rios alvos e seus istmos negros não me saciariam nem em pensamento.

Sabe, doutor, é por isso que sou um músico frustrado.

Ele se levantou, olhou pela janela e duvidou da música ambiente do consultório. Mas estava certo do silêncio que ecoava no peito ocidental demais para aquelas músicas contemporâneas.

2 comentários:

Kenas disse...

Rapaiz ,rapaiz!!!

Carlos B. Pinto disse...

Como ousa publicar a minha análise psiquiátrica? huahauhua
Dessa gostei! Muito bem!