segunda-feira, 22 de outubro de 2007

.relato de um sujeito que foi fisgado e que precisa de toda a simplicidade do mundo para se aceitar como o óbvio mais ululante do qual se tem notícia.


Estou abrindo as comportas do meu coração seco, desértico. Não me venham com essas historinhas melosas de amor ou de sentimentos recíprocos correspondidos. Não me venham com contos de fadas açucarados ou com pornografia desmedida, nojenta e violenta. Um tapa, um cuspe, uma gozada – nada além daquilo que o óbvio permite a um casal insosso. Mas não me venham com final feliz, com alegria sem tamanho, com olhos álacres destilando felicidade a quem sequer entende o motivo do riso. Agrada-me mais a falsidade, o respeito cafona e os ademanes que os manuais de boas maneiras impõem.

Não há água neste deserto, neste poço fundo. Há resquícios, não nego. Há uma ou outra prova de que isto um dia abrigou um lago assaz imenso, mas exíguo para alagar qualquer cidade alheia. Talvez tenha até umedecido essa ou aquela vila, mas uma cidade de verdade? Ah, isso não! Podem ter certeza que isso não aconteceu. Não houve trilha sonora adequada, efeitos especiais, atuações marcantes ou prêmios de consolação. Puro lixo sentimental.

Houve um tempo em que acreditei nas palavras de amor de outras pessoas, em que realmente pude crer no afeto alheio. A minha ingenuidade fez de dias ordinários verdadeiros big bangs. Eu via as cores vivas, eu ouvia o minimalismo dos afagos, sentia a rispidez de uma noute regada a sexo carinhoso e a gozos musicáveis. Eu desafiava todo e qualquer desacreditado com versos, com imagens sacramente aquareladas, puras em sua concepção artístico-literária, na construção física de um sentimento que me sufocava – ou parecia sufocar.

Era um romance! Eram romances! O mais puro pieguismo, confesso, mas sincero e pungente e crível. Eu aceitei a isca no anzol limpo das impurezas mundanas, das sujeiras lascivas e de todo o mal que o mundo insistia em me oferecer de pernas abertas. E sequer percebi que havia rachaduras por todos os lugares, e que aos poucos eu secava. E quem se importava com isso? Sentimento a gente compra, afeto pede emprestado e respeito rouba dos otários. A minha mesura me fez um sujeito ralo, superficial em meu abismo pseudo-autista, pseudo-artista. Minha arte menor só atrai as moscas, as varejeiras que me cobrem de verde: manto supremo da mediocridade. Eu sou medíocre hoje, e de agora em diante não há como remediar tamanha ousadia. As aquarelas outrora pintadas são exatamente isso: imagens sem cores e fracas e baratas. Não vale o espetáculo dos pincéis, e muito menos compensa o uso irrestrito dos matizes.

Agora eu não inundo ninguém. Não preencho vãos e tampouco percorro céus com meu rústico linguajar. Toda a coprolalia um dia poupada é o que tatua a alma, o que me gangrena as lembranças. Sei que serei condenado pelo que a minha mente suja pensa. Estou seco, acomodado em minha secura asséptica. Estou nu, tal qual uma sombra diante da iminente luminosidade. Não sei se vocês sentiram tamanha insegurança, como quem vai dar um tiro e sente que vai espirrar. Agora que eu encontrei, já se foi. Não adiante ter grandes idéias, eu bem sei.

As melodias hoje são outras, são outros tempos em partituras desconhecidas. Meu universo dodecafônico é demasiado ruço – e nisso já existe contradição suficiente para que eu me diminua ainda mais. Por isso não me venham com histórias melosas e fotos em branco e preto, não me venham com romantismos baratos e esperanças pré-fabricadas na esperança de todo sujeito comum. Comumente isso já me irrita, e ser o óbvio me irrita muito mais. Puxem a corda, é o que peço. Mordi a isca, acreditei na cartilha, li a bíblia, eu vi a cena. Enfiem-me nesse aquário, exibam-me como mais uma atração murcha, sem tempero. Digam que eu sou isso e aquilo, que faço tudo na medida da mediocridade. Eu assumo tudo, não nego. Apenas deixem a trilha acústica para afagar o meu deserto, pois preciso de toda a simplicidade do mundo para me aceitar como o óbvio mais ululante do qual se tem notícia.

Nenhum comentário: