domingo, 14 de outubro de 2007

.uma quarta-feira ordinária.


Estávamos numa mesa no meio do deserto. Exercíamos nosso jeito excêntrico de gastar a vida: mentindo, rindo da dor alheia, contando vantagens e fofocando mesquinharias. Há uma semana eu não bebia e mentia tanto! O sol lambia as nossas nucas e fervia os pensamentos, derretia as idéias mais rasas. Estávamos no meio do deserto, meio dia. Chamamos o garçom e pedimos outra cerveja. Como que vindo de um túnel, ouvi a voz do oriental me chamar. Eu estava ausente, perdido em algum labiríntico haicai. Eu era o verso final, e sequer sabia o sentido daquela construção poética. A mesa no meio do deserto: um quadro assaz solitário em épocas de fronteiras inexistentes.

O oriental chamou a minha atenção sobre o cardápio com um espanhol sofrível. Resmunguei qualquer cousa. Balancei a cabeça e assobiei a melodia que o artista de rua entoava com um violão desafinado, sujo. Ninguém se importava com aquela arte popular. Estávamos no meio do deserto, e canções sobre amor ou sambas de uma nota só não eram bem vindos. O pedido foi feito, e aos poucos, em câmera lenta, o garçom se afastava andando de costas com um riso malicioso no rosto.

A conversa na mesa vez ou outra se voltava para os sucessos populares do artista de beira de calçada, e de quando em vez ganhava um ar mais carrancudo. As palavras vinham com perdigotos intelectuais, e os assuntos iam desde viagens a países imaginários a Cristos egoístas. E de quando em vez o oriental se virava para mim e dizia que era um colombiano. Ele insistia em conversar com a gente naquele espanhol sofrível e com referências culturais oriundas de uma programação musical-televisiva rala, desafinada. Eu dizia que sequer conhecia os artistas daquele país. E uma fungada forçada e exagerada era suficiente para ele saber qual era a minha referência do país do qual ele acusava nacionalidade.

Do outro lado da mesa estava uma professora que falava pelos cotovelos. Ela era a própria palavra, era gestos e trejeitos. Cada significado ou termo pronunciados por ela escorriam pelos antebraços, e os olhos brilhavam a cada anedota que só ela e o oriental – que respondia com um aspasSi, siaspas ou aspasPero no muchoaspas – conheciam. Nessas horas eu me virava para o artista popular, que agora já não parecia tão empolgado em se apresentar para uma platéia exótica como aquela.

Ao lado da professora estava um primo dela. Ela falava pouco, bebia água com gás e ria só para acompanhar a nossa alegria. Passava a maior parte do tempo observando as próprias unhas e olhando de soslaio para nós enquanto fingia tocar teclado na mesa. Ele só abriu a boca uma vez para falar do filho que tinha oito anos e que era um desses filhotes da informática.

Eu estava na mesa de penetra, meio que por acaso, perdido. Meus dentes rangiam e eu sentia cada um deles trincar. Eu podia sentir o amaro gosto dos pequenos pedaços dos meus amarelos dentes, de parte do riso que eu exibira em troca de sentimentos alheios. Eu sentia os pedaços fazerem cócegas em minha gengiva enegrecida pela fuligem de um ou outro cigarro ilicitamente obtido num bairro carente da cidade. E enquanto isso, o oriental me falava palavras em espanhol, e eu dizia a ele que meu patriotismo só me faz comer mandioca enlatada. Ele fechava os olhos mais ainda para afirmar que não tinha entendido e que Millôr não era um dos seus autores favoritos.

Em plena quarta-feira eu aprendi a sorrir e a chorar, mas acho que não me servem mais estes sentimentos sinceros. Eu pensava na minha necessidade de saber mentir, e quem sabe fazer sexo com um travesti. Era meio dia, o sol maltratava as moleiras da gente. Pedimos outra cerveja e continuamos a contar vantagem um para o outro. Éramos bons nisso, confesso.

Um comentário:

din_oo disse...

Seu bêbado...