quarta-feira, 21 de novembro de 2007

.o cordial.


Ligo o sorriso automático e ando a passear pela cidade. Cumprimento as pessoas conhecidas e as que não conheço trato com providencial cordialidade. Sou puro afeto, compreensão e amabilidade. Aos mendigos dou as moedas do bolso, compro pães e troco meia dúzia de palavras. Demonstro querer saber do cotidiano sem graça deles e olho nos olhos de cada um quando vou falar alguma frase feita dos muitos livros de auto-ajuda que li na vida.

Meu riso, confesso, já não é o mesmo de antigamente. Não consigo um feed back tão lhano como outrora. Quando eu o James Dean mulato da minha família, as cousas eram diferentes, até mais fáceis. O meu romantismo diluído era exíguo para as minhas aspirações grandiosas, para o meu futuro tão promissor. Eu era um pouco mais triste, mas pouco cordial. Talvez por isso a impressão que eu passava era a de sujeira, de um mendigo culto.

As cousas mudaram. Perdi sonhos, ganhei cicatrizes e algumas tatuagens na memória doentia que Jesus fazia questão de vigiar. Asfixiei meus gatos, minha mãe e meu pai regresso do deserto – o mesmo deserto no qual senti sede sob as admoestações divinas. Asfixiei minhas esperanças e tive medo dos acordes menores que a melodia da vida me escrevia. Talvez porque eu não sabia ler aquelas partituras eruditas. Talvez porque eu me interessasse mesmo era por música popular, dessas que exalam o perfume do abraço lascivo das pessoas ordinárias.

Aprendi a fazer isso e aquilo, mas sempre mantendo a minha ingenuidade burra, a minha inocência passiva e idiotizada. E compreendi o poder do riso. Abandonei as ruas e meu terno de padre, minha mala e adotei novos gatos. Casei-me com uma enfermeira com problemas familiares e crente – malgrado eu explicar a necessidade de apagar da nossa mente o sentido de Deus. Habituei-me a sorrir assim, facilmente e com a sinceridade manufaturada a canções sacras e novas sensações.

Sou mais cordial, mais sincero. Humano demais. Nutro indiferenças por amores passados, e satisfaço meu complexo de Édipo com sonhos impertinentes. Aos poucos me concluo, rabisco-me por inteiro e deixo a cabeça explodir. Meu riso – só o meu riso – encanta os coadjuvantes desse meu sonho lúcido.

O suporte técnico já foi chamado, assim como já foi solicitada a presença do doutor Mierzwiak. Decidi apagar apenas algumas partes. A minha Clementine de imanes mãos vai ser a primeira. Só o meu ruço riso me interessa.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

.um malandro desterritorializado.


Eu contrabandeava sambas do morro. Eu era amigo de uns sambistas das antigas lá do morro. Malandros de cartola na cabeça, bigodinho safado, camisa listrada com as cores da mangueira e aquele riso fácil e esbranquiçado que contrastava com a pele morena. Sempre um verso na palma das mãos eles tinham, ou nos bolsos ou no maço de cigarro – bem enroladinho que é para não soar estranho diante dos roques tantos com os quais eles tinham de lidar.

Eu conhecia um malandro em especial, o Severino-boca-podre. Ah, esse era o legítimo malandro. Claro, não convém aqui desmistificar a imagem de santo da favela, de milagreiro do morro que ele tinha. Mulato de beiços fartos, cantava-conversava aos perdigotos, e sempre exalando um fétido hálito. Os olhos crispavam quando percebia que parávamos de respirar para ouvi-lo recitar este ou aquele samba. E era cada melodia! Era cada harmonia! Como muitos, Severino não sabia o que era um sol no violão ou lá no cavaquinho, mas solfejava – aspasSofrer já? É comigo mesmoaspas, dizia ele todo malandro – como o comovido diabo do poeta ao luar.

Severino-boca-podre foi quem me sujou a imagem lá no morro. Eu escondia bem os sambas, sabia que os irmãos não gostavam daquele tipo de atividade, que odiavam ter de dar explicações públicas sobre a origem dos sambas ou ter de reivindicar direitos autorais. Eu fazia cara de sonso e apoiava cada descida ao asfalto dos líderes das escolas. Vestia eu minha camisa listrada, o uniforme do malandro-do-morro, e entoava junto a eles os versos roubados. Mas ninguém, no fundo, sabia dos meus atos ilícito-musicais.

A cousa começou a desandar de uns tempos para cá. Para ser mais exato, foi num domingo ensolarado – um daqueles dias em que é inevitável ter algumas manchas de suor em sua camisa de linho –, num churrasco na casa do Severino-boca-podre em comemoração a mais um samba feito – mais um! Tudo era motivo de festa, de samba e de cerveja gelada em meio a lingüiças, carnes e farofa. Aquele mundaréu de mulatas rebolando sob um sol doído, um bando de malandro batucando e cantando em coro os sambas mais pedidos pela comunidade. Era um quadro que nem Miró nem Picasso aceitariam o desafio de retratar. Só mesmo Goya ou Caravaggio poderiam retratar aquela crueza, todo aquele instinto animal que exalava feromônio e lascívia. Música concupiscente feita para corpos lambuzados de pecado e malícia. E eu ali com minha malemolência preguiçosa. aspasNão, não, depois eu danço. Estou bebericando aqui, me preparando. Já já eu rodo o pandeiro para tiaspas, ameaçava eu quando alguma mulata sensual me perguntava o porquê de eu estar sentado se não estava tocando.

Lá pelas tantas horas de samba e cerveja e sol na moleira, tive de ir ao banheiro. Apenas acenei com a mão a Severino-boca-podre, e ele fez que sim, soltando um sonoro e cheio de baba e farofa aspasPode ir lá. A Bertoleza te fala onde éaspas. Bertoleza. Coincidência dos diabos, poeta! Se bem que não podia ser diferente, uma vez que estávamos mesmo num cortiço, numa lage-mansão dos sambistas mais malandros do morro. Éramos a elite da periferia. Um paradoxo músico-sociológico que estudioso algum teorizou.

Eu não conhecia Bertoleza. Só de nome e de um mistério que todos desconversavam. Alguns apontavam o dedo na nossa cara quando o nome dela entrava na roda de conversa. Mas no fundo eu não me importava com essas mesquinharias, com essas fofocas de fundo de quintal.

Entrei na modesta casa de Severino e não vi Bertoleza. Saí a procurar pelo banheiro assim mesmo, pois a situação não me permitia gentilezas e boas maneiras – ainda mais na casa de um malandro como Severino-boca-podre. Suspeitei que atrás de uma porta bege e manchada estaria o meu desiderato. Abri a porta num movimento rápido e logo vi uma mulata de cabelo sarará e de corpo de modelo. Esbelta, com olhos cheios de um imensidão, de um horizonte que eu, de fato, desconhecia. E na mão um pênis de 20 centímetros. Arregalei os olhos assustado e ela-ele piscou com malícia para mim. Benzi-me e saí apressado do churrasco. Severino ainda me seguiu questionando o porquê de eu sair assim tão de repente. aspasNão me aperreia, Boca-podre. Estou cansado e preciso resolver uns negóciosaspas, disse eu, perturbado e ébrio daquela bizarrice.

Passaram uns dias, e então me senti preparado para encarar Severino e todo o pessoal – que, suspeito, já sabia ou, pelo menos, suspeitava do segredo de Bertoleza. Quando cheguei ao morro, na tradicional roda de samba da segunda-feira, todos me olhavam de soslaio. Todos faziam uma cara-boca de nojo para mim – como se falassem em francês comigo. Um clima incômodo, desagradável. Então chegou o Moreno Brilhantina – um sambista das antigas e muito respeitado por ter feito dous sambas que quase foram para a Sapucaí – e me disse o que havia ocorrido: Severino-boca-podre espalhara que eu estava de caso com sua mulher e que eu roubava versos nos ensaios para depois juntá-los e, estando algumas estrofes prontas, vendê-los a filhos de jogadores de futebol consagrados.

Cabisbaixo, retirei-me da roda deixando adrede minhas harmonias nos olhos dos malandros. Balbuciei dois ou três versos em espanhol, bati em meu pandeiro e me deixei levar embora. Desci para o asfalto para ser mais um malandro desterritorializado, sem raízes. Hoje eu faço jingles para comerciais de cerveja e me iludo animando festas de aniversário. E, por causa do trauma, só transo com travestis.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

.sobre a imagem.


Sorveu do riso triste algum fiapo de alegria e, ungindo as mãos com as lágrimas ímpias, batizou o herdeiro que está prestes a chegar. Uma cópia em miniatura de toda aquela beleza, serena figura em quadro renascentista, adorno vivo na mais simpática moldura. Segura um mundo novo, um universo prestes a explodir e se expandir para os limitados anos de uma vida – tão-somente uma vida.

Foram dias de uma gestação calma e sem experimentações alheias, sensações e frutas de uma feira perigosa. Apenas cuidados e algum sono, algumas olhadelas em estrelas, e uma missiva prometida que nunca foi enviada. É compreensível, convenhamos. As palavras podem esperar três, sete, nove meses ou até mais – e elas sempre esperam, estão acostumadas.

O riso contido denuncia a imensa alegria de se fazer luz para dar vida a um novo universo. Alegria lhana que aperta o coração e assobia uma melodia em comum; alegria que se ouve em notas fantasmas, intencionalmente tímida, pianíssimo. E ela é agora só grito, toda ela um grito que não pode ser contido ou explicado. Um grito que desafia o silêncio, pois o choro iminente já é quase ouvido. Alegria em estado bruto, meiguice materna.

O nome do novo horizonte já foi definido – pelo menos já se lê e ouve propostas. Será ele um passageiro nela, dela. Será ainda a saudade mais lancinante e bonita, as noutes em claro, a voz a acariciar o sono e o alvo mais desejado dos afagos maternos. Enfim, um universo que caberá no colo e que poderá ser ninado ao som de Elliot Smith. A tatuagem mais bonita que ela pode ter desenhada em carne viva.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

.idade*.


A tatuagem na pele
Exibindo uma juventude já enrugada
As cores desbotadas e leves
Como uma carta de despedida não rasgada

A cegueira dos anos passados
O nervosismo calmo e distante
Passos lentos, arrastados
A certeza fugindo a todo instante

A pele toda é um solo nordestino
Sulcos de mágoa e alegria e tristeza
Amigo, tudo isso faz parte do destino
Um dia, acredita, perderás tua beleza

A tatuagem na pele ranzinza
Sendas nas palavras já empoeiradas
Olha, amigo, o céu é todo cinza
E estas flores só para ti foram arrancadas.



*Originalmente publicado em 20 e sete de agosto de 2000 e quatro