segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

.sobre estar feliz.


Com as mãos presas, era difícil evitar a maldade. As pernas tremiam, a testa suava e os dedos hirtos pingavam sangue. Uma fiel imagem do desespero. Um fétido perfume no ar se confundia com muito medo e com um certo prazer sadomasoquista. O silêncio ora furava os ouvidos ora gritava rouco, lânguido. Um silêncio sacro cujo eco reverberava na pequena sala mal iluminada. Luz singela, intimista. Falta ar, e falta muita cousa além de uma parca e porca esperança. Só havia a certeza sobre a existência da ausência de Deus.

O riso tímido e escancaradamente sádico do algoz intimidava. Olhos semi-cerrados, movimentos lentos e precisos. Um tapa. Um murro. Um chute. E um palavrão para adocicar o momento do cuspe. Pegou outro palito de dentes da caixa marrom e olhou para a loura que a ilustrava. Fingiu malícia com a língua. Humor, enfim. Mas no fundo não estava satisfeito em ver as unhas avermelhadas. Aquilo era clichê, para falar a verdade. Chamou o subalterno e pediu para que puxasse os lábios do prisioneiro. Este logo arregalou os olhos, tentou balbuciar algo – mas foi calado com um belo golpe. Precisão militar, observariam alguns. Olhos chorosos. Nariz sangrando. Boca aberta e uma falta de dentes precoce. Riso incompleto. Uma graça ao avesso.

O algoz colocou o palito contra a luz e de soslaio olhou o prisioneiro. Aproximou-se lentamente e, percebendo que as cordas prendiam bem o corpo a ser seviciado, pediu mais uma vez que o subalterno segurasse bem os lábios alheios. Enfiou o palito na gengiva. Riso rubro, gemido. Olhos molhados. O algoz fez um, dous, três furos. Sentia a raiz desse ou daquele dente ainda preso. Fazia movimentos profundamente circulares adrede devagar e, então, o palito quebrou. Notando inverossimilmente um resquício de coragem no prisioneiro, disse calmamente em tom autoritário:

– Anda, confessa-nos. Diz logo.

O prisioneiro, bêbado de dor, olhou para o sujeito de boina. Queria ser encarado. E num suspiro arriscou:

Ainda... Ainda não me é o momen/////

Um murro seco o fez cuspir sangue e a última sílaba, que cambaleou no ar antes de se escorar no canto da sala. Dali em diante o prisioneiro se fez analfabeto contra a confissão. Levou mais chutes, cuspes e ofensas verbais. Ganhou mais arames embaixo das unhas, perdeu dous dedos do pé esquerdo para o alicate, e passou a exibir tatuagens nos joelhos graças ao martelo.

Enquanto tentava respirar e não se deixar rodar pelo carrossel da dor, o sujeito de boina escolhia outro brinquedo para a sua satisfação física. Uma tesoura, talvez. Corajoso, o prisioneiro ousou sorrir e balbuciar:

Só eu sei o que queres. E isso me enche de alacridade.


domingo, 28 de dezembro de 2008

.talvez, se.


É muita falta de ar, um passar mal que anima o corpo. Talvez seja muito mau-humor, muita expectativa. A frustração ocorre só de imaginar, só de pensar no que pode dar errado.

Eu tenho um castelo, todo construído com esmero de artista decadente e com alguns versos roubados. É de areia, confesso, mas é ele assim porque não pode ser de outro jeito. Se fosse de papel ou de cetim, de poesia sincera ou de prosa ruidosa, de alegria ou de tristeza mal disfarçada; enfim, se fosse de outra cousa senão areia, tudo não me faria lá muito sentido. E no fundo não faz, pois num sopro ou num suspiro de tédio as cousas perdem esse tal sentido. Como diz o poeta à beira do Madeira: quem faz sentido é soldado. Eu até entendo, malgrado saber que o meu castelo de areia é como um castelo de cartas, e sempre há alguém querendo esta ou aquela carta. E nisso todo o meu castelo se desmonta, cai. Perco o jogo, enfim.

O castelo meu, porém, é de areia, e em cada grão eu deposito um grão de desconfiança – e isso é por mim, pois há tempos tive de re-erguer essa minha construção. E se ele for derrubado por completo dessa vez, talvez demore para que eu volte e entender os meandros de uma nova construção. Eu tento ser um bom inquilino, ser um arquiteto e um engenheiro cuidadoso. Mas sabe quando fingem apagar as luzes e você sabe que os olhos estão abertos e sujeitos a novas palavras? Então, é isso que me angustia... Como saber que as lentes vão proteger os olhos alheios dos ladrões e de tudo mais que pode iniciar um desmoronamento? O mundo feérico que eu imagino sequer vai para o papel, pois meus dedos tortos não conseguem seguir os emes das mãos pequenas que um dia me abriram a porta do castelo. E talvez essas mesmas mãos estejam escrevendo cartas para ausentes que irão se hospedar – sem o meu consentimento, é claro – no mesmo castelo que um dia amansei os sonhos mais afoitos.

Eu moro na beira de uma praia distante. Não sei se avisei disso. A cena é meio estranha: um castelo na beira de uma praia. Mas este é o desafio, não? O vento sopra constantemente contra – na verdade a favor do castelo, e contra mim –, e isso vai desgastando as paredes e a cor já opaca, difusa. Eu falo que o castelo é meu, mas no fundo percebo que sou apenas um vigia. Mais cedo ou mais tarde eu terei de deixar tal forte. É inevitável, pois as raízes não são tão profundas assim. E por mais que eu me enterre, por mais que eu queria me trancafiar no calabouço e jogar a chave fora, nada é suficiente. Eu até tenho me gabado para alguns mendigos e para tantos outros trompetistas de ter o castelo, mas sei que com um passo em falso eu já o terei perdido. Quem me deixa morar nele não tem noção de quão bem eu me sinto percorrendo os seus corredores e os vãos vazios e passando por suas portas. Não, definitivamente não tem. Eu até quero estar enganado, mas o real dono talvez tenha esquecido de apagar as luzes na hora da despedida, e não percebeu que eu não havia fechado os olhos. Claro, talvez eu esteja vendo cousas, exagerando. Eu já costurei um pouco de ciúme em minhas retinas, mas foi por incúria. Se diluí sentimentos ruins em mim, foi porque alguém algures não soube me explicar a receita. Eu tive uma bula, mas a letra era demasiado pequena. Eu sou meio cego – outra cousa que esqueci de mencionar –, e me iludo com pequenas alegrias, pequenos risos. Mas a graça fica só para mim, pois quem me mostra os dentes sequer faz questão de sempre explicitar prazer. E acho graça disso. Talvez seja porque há tempos parei de rir. Mas continuo a querer acreditar que é possível que eu tenha um quarto-e-sala nesse castelo – ou mesmo uma edícula. Morar nele já me seria uma alegria incomensurável – e isso é uma cousa que não mencionei ainda. Claro, eu digo que possuo o castelo e que moro nele, mas nada disso é de fato verdade. Eu não tenho certeza. Aliás, nunca tenho certeza de muitas cousas.

A água salgada vem lamber as paredes do meu castelo quase todo dia, e as portas rangem e tudo mais vai se estragando aos poucos. É uma destruição lenta, e de um mal que não sei da origem. Afinal, quem sopra os ventos que monta as ondas? Quem salga a água que me mata a sede do avesso? Quem separa os grãos que com tanto carinho eu juntei?

E esse céu carregado me assusta, pois vai chover. Mais cedo ou mais tarde. E nisso, todo o meu castelo vira lama, vira uma lembrança – que pode ser boa ou ruim, e para isso depende apenas de como eu enxergar a desgraça de um desmoronamento. Talvez estar na lama ajude a pensar numa forma mais sólida de construir um castelo. Mas são nessas horas que um talvez tem o mesmo peso que um se, e de nada adianta ter certezas rasas. E todo mundo possui lá o seu castelo para construir, para re-erguer ou para cuidar. Implodir as favelas ao redor, contratar seguranças e nutrir esperanças lhanas. E aqui, com as chaves do castelo na mão, alimento a verve contra o qüiproquó que todo esse imbróglio sentimental me causa. O sufoco, a falta de ar. Espero apenas superar os clichês, o óbvio. No fundo, quero apenas entender o porquê de um se às vezes ser tão cruel quanto um talvez.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

domingo, 21 de dezembro de 2008

.marca d’água.


É, talvez seja mesmo implicância minha, teimosia de uma mulher que acha já sofreu o suficiente para uma só vida. Pelo menos eu acho que sofri, e tenho consciência que tal sofrimento pode ser apenas a cereja sobre a dor alheia. Não sei ao certo se terei direito a outra vida, mas se pudesse voltar no tempo com certeza eu evitaria as ofensas vazias, as palavras cretinas e as impressões mais superficiais. Acho que não soube eu precisar a medida dos meus sentimentos. Não soube calcular o tamanho da iminente tristeza, das melodias melancólicas que me cantariam o coração.

Eu sei que não era preciso aquilo, aquela cena de cinema . Fiz-me mar bravio para um barco tão pequeno, canoa furada, embarcação sem rumo. Acho que tudo chegou ao fim pela falta de palavras mais ousadas, pela falta de tortura à meia-luz. Estive longe por muito tempo, confesso, mas há dias eu pretendia voltar para acertar a nossa vida, colocar os tremas nos is e circunflexar as sílabas mais agudas. Seríamos ditongo, e evitaríamos juntos todos os hiatos possíveis.

O problema foi a saudade em demasia, o sentimento efêmero que massageava as lembranças suaves. Fui burra, confesso. Terminar assim um relacionamento tão promissor, tão bem visto aos olhos dos outros. E eu sou um outro, claro. Acredito muito em Rimbaud, e talvez seja esse um problema: acreditar em poeta. Este tipo de crença já caiu em desuso, soa como esoterismo. Mas eu insisto em crer em versos.

De quando em vez reviro umas fotos, umas missivas amassadas e regurgito essa ou outra lembrança. Fecho os olhos com afinco como quem se esforça para esquecer algo ou para buscar na poeira da memória algo importante. Vejo por alguns segundos as cenas que editei e que ainda exibem algum brilho, alguma cor que deixei escapar da paleta de sensações. Os quadros são rápidos, mas suficientes para me entortar o peito, torcer a amargura da colcha de sentimentos – deixando entre os retalhos apenas uma certeza da qual não gostaria eu de ter.

Queria eu poder não ter ofendido tanto e ter a chance de uma amizade fraterna, de poder contar as minhas alegrias canalhas e minhas conquistas ruças. Às vezes acho que o orgulho que cada um traz em si é o que estraga as relações. No meu caso, soma-se a isso a sinceridade. Sou medíocre, e por assim ser assumo e não escondo a mediocridade dos outros em elogios e olhares disfarçados. A sorrelfa do politicamente correto não combina com o meu jeans surrado e com minha camisa de vereador que ganhei na eleição passada. Talvez por isso a minha relação com ele tenha sido tão conturbada, apesar de bonita.

Agora entendo algumas situações e algumas palavras ditas em horas inapropriadas. Entendo também a minha covardia, a minha ignorância. Como já afirmei, não soube eu calcular a medida da iminente tristeza, e tão-somente aqui, na beira desse precipício, entendo as cousas que passaram em branco. Vendo esta missiva e essa foto desbotada e adrede torta, entendo muita cousa. Mas é assim mesmo, eu acho. Tenho de me acostumar com as derrotas que troquei por vitórias compradas. O riso, por mais de plástico que seja, não morre tão facilmente.

No fundo, o que me dói mais é saber que hoje ele encontrou cores em outra tela. A minha maior tristeza é saber que nosso álbum de lembranças hoje é apenas um monte de imagens aquareladas. E fico triste ao perceber que sou apenas foto em marca d’água no álbum sem capa das saudades dele.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

.frustrada tentativa de expressão de algo aparentemente impublicável – na verdade inefável – num único e verborrágico parágrafo.


- E tu achas que adiantou de alguma cousa?

- Não sei. Quem sabe.

- E quem vai saber então?

Não adiantava prender a respiração ou tentar pensar em outra cousa. Não tinha volta, ou mesmo solução. Elogios alheios? Para quê? Não, eles não serviam naquele momento. Era tarde, rapaz. Tarde demais. Talvez se tu tivesses mentido, se tu tivesses tido a malícia. Ah, isso sim seria conveniente. Mas não! Foste o ser que sempre és: o sujeito ingênuo e amigável. Dantas de natureza que acha que o suplicio é uma forma de redenção. Artística? Pára com isso! Achas que alguém liga para isso, que alguém se importa? Devias ter ficado calado, ou mesmo ter ignorado. Ter falado a verdade, quem sabe. Não adianta ouvir essas melodias tristes, chorar baixinho e imaginar a luz por trás da porta, por baixo da porta – como diz Chico. Não, não adianta. Vai dormir, é cedo já. Vai, rapaz. Esquece a situação. Perdeste todas as chances, é verdade. Sabe quando a gente chega ao topo da montanha e, de repente, sabe que tem de descer e simplesmente cai? É isso. Foste o primeiro, e sabes que vais ser o último. Talvez seja uma questão de tempo. E tempo é o que desperdiçaste, talvez. Depende do ponto de vista – sendo esta uma questão física. E a questão física é o que mais conta, eu acho. Nutrir sentimentos e cartas e palavras. Ah, para quê? Não adianta. Do que serve o sermão do padre se a missa é feita para um ateu? Reza, então. Mas para quê, se sabes que a salvação não vem por um comentário ou por um sorriso? Pensa nos prazeres em carne alheia. Pensa, rapaz. Pensa. Serviu de alguma cousa? Serviu? As imagens e tudo mais. Grandissíssima merda. Merda. Sabes o que significa essa palavra nessa situação? Merda? É, merda. Acontece. Um elogio em hora inesperada e tudo já foi. Para quê? Esperar? Foste o primeiro, rapaz. A lista vai seguir, acostuma-te. Aceita-te como uma vaga lembrança, como uma memória que aos poucos perde a cor. Sabes que estamos em uma época na qual as imagens são restauradas e que outras ganham as cores que sequer imaginam que tenham, não? Sim. É isso. As tuas cores já foram. E não adianta modéstia, ou qualquer cousa. Já estás apagado. Todo o carinho de outrora virou a espuma da cerveja: espera um tempo que baixa, que logo fica o essencial. Tens um essencial, uma essência que vale a pena respeitar? Não, não tens. É melhor esperar tudo fechar e seguir num momento de lucidez – desses momentos guardados para uma oportunidade inesperada. Conversa com as pessoas certas e tu vais conseguir tudo o que queres. Sabes disso, é assim mesmo. Para que tu queres algo mais? Para que tu queres saber se foi ou não foi? Sofrer? Vitimar-te a ti mesmo numa novela que sabes que já tens um fim? Rapaz, acostuma-te. Fica contente com o pouco que tens e te aceita como uma vaga lembrança. És isso e aquilo? Ah, pouco importa. Bem sabes que as cousas mudam, e que de repente o que passaste é a chance de outro passar. Só que em intensidade maior, redobrada. A mentira vai vir, a desculpa vai vir e tudo mais vai vir. Sabes que é assim. Se foi uma vez, vão ser outras. Aceita. É assim: a ida das pessoas são regidas por vontades, e pessoas outras entram nessas linha por acaso. É tudo um acidente. Ninguém planeja se intrometer na vida alheia e mudar o rumo. E se o faz, é por incúria, por desconhecimento do caminho de quem está a andar. Vê: tu andavas tranquilamente, até que alguém passou e te mudou a rota. Adiantou? Claro que adiantou. Vais negar tudo agora, as alegrias e tudo mais? Ser ingênuo nesse momento não é bom – nem para as alegrias nem para as verdades subliminares que tangenciam uma batida ali e outra acolá. Vê: há ademanes que vão além da interpretação simplória e superficial. Há gestos que passam pelas portas – por sobre as portas – e que a gente não sabe lidar. O riso sem graça, as despedida, a comemoração, a alegria, o deserto e todos os dizeres do mundo. Sabes que se trata de metáfora, não? Entenda quem tiver a capacidade. É orgulho agora para quê? De que adianta? Por isso e apenas isso, aceita-te. Uma conversa é suficiente para a conquista. Sabes disso. E não adianta esconder a decepção. Vais ter de enfrentar diariamente num bom dia ou num boa noute. E vais te sentir mais alegre? Vais te sentir mais contente? Vais te sentir mais completo? É nessas horas que as palavras da outra pessoa – a que tentava te ensinar a ser alguém mais corajoso –, é nessas horas que as palavras dela fariam sentido. Fariam, se tu não fosses tão covarde. Aceita. É tarde. Chora, pode chorar. Pensa, pode pensar. Conforma-te. Perdeste e isso é a inevitável leveza do ser. A insustentável dor que os poetas fingem sentir. Não adianta fingir mais que os outros ou tentar interpretar a dor alheia. Essa dor é só tua, e sabes disso. Sabes que há com quem compartilhar e com quem contar. Sabes contar? Pois é, saiba que não vais poder contar com ninguém nessa hora. És tu e só tu. Vais torcer contra? Claro que não, longe disso. A alegria alheia melhor que a própria. Altruísmo como combustível. Mas no fundo isso adianta alguma cousa? Não. Sabes que não. As intenções foram feitas. E isso não muda a miséria. E a tua miséria é igual a tantas outras – isso se não for manufaturada. Comprada em uma grande rede de supermercados. A indignação, a raiva, a frustração, a decepção, a inverdade. Isso tudo machuca e constrói muralhas. A China vai ter de reconstruir a muralha dela, pois hoje me fecho como em dedos, e o parto de mão vai ser o mais dolorido. Foi uma decepção, uma mentira assaz planejada que deixa qualquer um atordoado. Para rir do outro? O que te faz ser único. A alteridade das pessoas é uma farsa. Sabes que são todos atores, que são autores de uma hipóstase assaz falsa. Sabes disso, e ainda assim te importas com as respostas, com as conseqüências. Imagina se não conhecesses o caminho de tal labirinto... Seria melhor? Estarias rindo mais ou menos? Chorando menos? Toma teu remédio, aceita a tua angústia chinfrim e te cala. Não és digno de choro nesse momento. Tantas cousas para nada. Para nada. Nada. Não se trata de isso ou aquilo, mas de expectativas que foram supridas por uma conversa ao fundo, escondida. Sabes disso, rapaz. Levanta a cabeça, escreve as cousas, desenha as dores, ilustra as alegrias de forma sutil e deixa tudo a entender. Sabes que vai ser melhor. Num parágrafo único, numa só verborragia sem tamanho e sem sentimentos. Tenta ser imparcial, um jornalista do coração que sente muito por humanizar demais a reportagem própria da vida.

- E de que serviu?

- Nada.

- Nada?

- Nada. Apenas isso e aquilo lá.

Ou seja, meu filho, trata de te acostumar com a vida. A realidade é mais descolorida que os seriados que assistes. Rir da comédia alheia é uma cousa, mas quando fazes o papel de palhaço num picadeiro inesperado... Ah, isso é demais. Uma falta de ar, uma angústia no peito, a falta de sono e a alegria desvanecendo. Quem mais deseja isso hoje em dia? Desculpa-me, Augusto dos Anjos, mas eu sou mais filho do carbono que tu foste. E se contestas, vem sentir o que sinto. Um parágrafo único aposto que não explica o que sinto. Eu poderia resumir tudo numa estrofe, num verso. Mas para quê? A burrice alheia incomoda às vezes, e a não compreensão da nossa dor é demasiado chata. Sabes que sentes muito e que outros pouco se importam. Combinações escusas e tudo mais. É, rapaz. Vai dormir, pois os sonhos ainda não são pagos. Quando começarem a cobrar por cada devaneio, por cada ilusão, aí sim tu deves te preocupar, pois sonhas demais. E sonhar demais, confesso, faz extremamente mal a todo ser humano.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

.8uto antes da queda.

Tínhamos a nítida impressão que de aquilo não daria certo. Sabíamos que a vida estava por um sopro, segura apenas por um ébrio bailarino que trançava as pernas e tirava sem intenção a graça do palhaço. Estávamos na beira do abismo e nossas façanhas estavam todas ali, cada uma como cisco no olhar perdido dos corpos já quase ausentes. E antes de beijar o chão, o pensamento era unicamente de fazer algo realmente útil – independente da noção de utilidade de terceiros. Viver como se fosse o último dia a gente já havia feito outrora – e perdemos tempo demais procurando significações em cousas pequenas.

A nossa miopia não permitia querer nada além de um bloco de papel com muitas tintas e lápis e canetas. Claro, um toca discos e água na temperatura natural sempre faz bem. Perder-se em livros também. Sim, claro. Era isso: ganhar dinheiro suficiente para poder passar as tardes lendo numa rede, na beira de uma praia. Exercitar a imaginação com sendas outras: palavras alheias em capas bonitas, desenhos bonitos e toda a buniteza que cabe impressa em páginas brancas ou creme.

Nem todos ali, porém, queriam perder tempo imaginando riquezas. Percebia-se simplicidade. Apenas estar com alguém que muitas cousas tem em comum conosco já basta. Dividir picuinhas e mesquinharias, aprender a respeitar o umbigo alheio. Envelhecer tendo nas rugas o mapa de uma existência ímpar – e para isso é preciso um par, não? Não deixa de ser essa uma busca egoísta, mas benéfica em sua desgraça. Um par é como o contrário de um baobá no planeta do Príncipe: aspasse a gente custa a descobri-lo, nunca mais se livra dele. Atravanca todo o planeta. Perfura-o com suas raízes. E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba rachandoaspas. Naquele momento, alguns queriam apenas rachar profundamente.

Uns dizem que sim, outros já se contentariam em visitar mais países. Antes da queda era necessário estranhar outras línguas, outros lugares e se estranhar na volta. E depois disso talvez a queda soe num baque poliglota, num ruído surdo que ecoe nas existências mais próximas. Conhecer fronteiras invisíveis e gritar tatuagens num vernáculo que, no fundo, não faz a menor importância. Beber mais, cair mais e deixar pedaços em terras distantes – só para alimentar a vontade de voltar para um dia busca-los. E de preferência com o par, é claro.

Percebia-se que no canto estavam os que gostariam de, antes de simplesmente pular como era de costume, ir a apresentações de artistas valiosos, do estrangeiro. Ouvir e ver de perto alguns sons que compuseram e que ainda compõem o auditório cultural de cada um¹. Fechar os olhos e balançar a cabeça num ritmo conhecido, mas com a vivacidade e o empurra-empurra e o caos e os gritos e a euforia desmedida. Artistas glocais² também são bem-vindos, e até mais familiares em suas melodias mais facilmente memoráveis.

Talvez fossem poucos, mas alguns ali queriam apenas estudar e superar suas limitações – sejam elas artísticas, acadêmicas ou de qualquer outra natureza. Aprender termos e escrever algo de relevância. Um livro, quem sabe. Ilustrar um livro, outro livro e outros livros. E isso vai além do desejo de fazer algo útil. Não, era aquilo e um pouco mais. Os que precisavam de muletas para andar queriam dar passos sem apoio – nem que fosse por poucos momentos e para uma platéia de ausentes. Não importa quem iria aplaudir, pois nem todo palhaço cria piadas no picadeiro sob o riso alheio.

Outros mais humildes queriam dizer verdades a quem precisa ouvi-las. Nada de panfletarismo ou de otimismo exagerado. Só dizer o que precisa ser dito. Às vezes eles querem apenas dizer o que realmente sentem, não? Mas a coragem não deixa. E por isso eles caminham mudos para o abismo, sem discutir o porquê de estarem ali. E no fundo o sentido não importa, pois a subjetivação parte de cada um. Idealizar mundos é perda de tempo.

E eu no meio de tudo isso, de todas essas impressões. Antes da queda inevitável eu queria apenas experimentar um pouco de tudo isso que percebi nos outros. Desejar a partir das vitórias alheias é mais fácil. Uma inveja de querer para si o bem do outro. É cair bem consigo mesmo, sem se arrepender no final de tudo. É poder olhar para trás e não desejar voltar no tempo para fazer o que a incúria ou a covardia não permitiram. Pelo menos é o que espero, pois estar nesta fila sem saber quando vão nos empurrar já é demasiado penoso.


Notas

¹ Radiohead, Blind Guardian, Beirut, The Mars Volta...
² Chico Buarque, Ney Matogrosso, Arnaldo Antunes, Móveis Coloniais de Acaju...

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Regras do meme:
- Escrever uma lista com 8 coisas que sonhamos fazer antes de ir pro beleléu;
- Convidar 8 parceiros(as) de blogs amigos para responder também;
- Comentar no blog de quem nos convidou;
- Comentar no blog dos nossos(as) convidados(as), para que saibam da "convocação";
- Mencionar as regras.

Façanhas de Insolente


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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

.manhã de domingo.


Eu expresso calma, uma calma incomensuravelmente distante. A lembrança latejando uma saudade recente, uma novidade incomum com tanta cousa em comum. As sensações se confundem, misturam-se como tinta em água. Aquarelam-me, mancham-me. E maculado eu tento guardar cada pedaço, cada parte que de mim se desprende à medida que me distancio. Um, dous, três, sete dias depois. Não faz diferença. É caustrofóbica a saudade, ébria de um querer-estar, úmida de um querer-ser e demasiadamente suja de algo inefável. Talvez seja por isso que me arranquei os olhos momentaneamente: para somente ver tudo em lembranças, e aceitar o toque como condição para novos olhares.

Esqueçamos a loucura da noute anterior. Lembremos apenas dos malabares encantando o olhar. A falta de jeito e a paciência. Sim, esqueçamos a loucura da noute anterior e fiquemos com o barulho zunindo o ouvido e o começo de manhã aproximado. Um começo de manhã e nós bem próximos: um caminho que pedia os passos, atalhos que se escondiam. A minha melhor risada dos últimos tempos. A melhor forma de gastar minha timidez e de ser, em pensamento, sacana. Esboçar nos olhos alguma malandragem ou malícia descabida. A minha melhor risada nos últimos tempos. E tantas cousas em comum! Lugares comuns que não são enfadonhos, que não são clichês de filmes românticos. Uma noute à distância. Uma manhã abraçada, tatuagem feita com sede e afagos.

Ah, a falta de tempo, é claro. Lentamente eu me apressava para partir. Um último abraço, um último beijo e a impressão de que aquilo deveria ser em slow motion. Estávamos trocando em miúdos ao contrário. Nossa mudança talvez nunca seja concretizada – mesmo se a vontade ultrapasse as molduras desta saudade pungente. Deixar descer a ponte para descansar o corpo – e para plantar as primeiras lembranças de uma manhã de domingo. Falta-me ar nesta cidade vizinha. E por sentir ainda os lábios me formigarem os desejos – mesmo estando eles com um agridoce gosto, talvez por causa do cigarro matinal –, cego-me de novo para materializar em pensamento a manhã de domingo.

Por enquanto, só o gosto artificial de sabores já conhecidos. Os ignotos aromas e as ainda não ouvidas tessituras me encantam à distância. Eu exercito a lembrança correndo contra a saudade, nadando a favor de uma maré de dèjá vu. E me artificializo, também, para que da outra margem alguém acene pedindo socorro.


terça-feira, 18 de novembro de 2008

.prosopopéia.


– Dá-me tua próclise para eu ficar ênclise de ti.
– Não posso ainda.
– E por que não?
– Porque há uma mesóclise entre nós.
– Esquece isso.
– Como esquecer, se a parábola é clara e tuas metáforas não me cativam como outrora?

Apenas silêncio. Os corpos nus respirando mecanicamente. E o pensamento fulgurando sotaques algures.

– Vamos ficar assim então?
– Como poderia ser diferente se sou analfabeta de ti até hoje?
– Mas sabes me interpretar ainda, então eu ach-
– Não aches nada. Não existe mais prazer.
– Meu hipérbato pode resolver a tua semântica. Eu garanto.
– Não adianta, somos antíteses desde sempre e não percebemos.
– E não há como reverter essa nossa linguagem figurada?
– Só se desaprendermos o vernáculo e inventarmos outra gramática, outras regras.

Vestiram suas respectivas roupas com preguiça. E foram adrede sem mais dizer palavra alguma.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

.sobre a arte de fotografar.


O calor era infernal, e o dia mal havia sido vomitado. Estávamos num ponto privilegiado, um mirante onde um gélido vento nos lambia o rosto e trançava os cabelos. Eu havia confundido o horário e cheguei atrasado. Perdi a festa na noute anterior – regada a drogas, bebidas e tudo que ilicitamente pode trazer uma efêmera alacridade. Eu via nos olhares um resto de loucura, um misto de cansaço e desprezo por mais um dia ensolarado. Eu deveria ter ido para registrar o ânimo alheio, a algazarra de terceiros que eram intérpretes anônimos. Com minha melhor máquina eu tentei fotografar algumas nuances, mas meu amigo W. não me permitiu. Sujeito forte e de inteligência aos trancos, ele foi logo descascando gentileza e dizendo que aquele não era o momento e que se eu ousasse fazer aquilo ele me acertaria a cara. Olhei de soslaio para o mau-humor dele – alegria pós-drogas – e cliquei algumas saias esvoaçantes, cabelos dançando e trapos de gente se costurando aos beijos. Uns tantos se abraçavam por incúria e outros por medo de cair. Atrasado como sempre eu perdi todos os créditos dos filmes e nem vi a atuação dos grandes nomes daquela película experimental. Mas eu estava ali com minha melhor máquina e meu olhar pouco profissional. Sapatos, mãos, olhos semi-cerrados e aquele ar de nostalgia contemporânea – uma saudade besta, dessas que a gente sente sem saber nem o porquê e só o faz por alguma conveniência estética. Eu havia levado apenas um filme, mas eram muitas poses – mais do que suficientes para aquele tipo de ambiente quase inerte. Sem prestar atenção eu decidi trocar a lente para alcançar melhor os pontos de fuga que faiscavam das bocas e que reluziam em beijos suados, grudentos. E nisso o meu amigo de infância W. acertou-me a cara como havia prometido. Caí sem graça como manda o figurino. Os poucos menos ébrios ou distantes se apressaram em me acudir. Arregalei os olhos e vi W., um dos meus melhores amigos, em câmera lenta me xingar e me apontar o dedo em riste, ameaçador. Ignorei o momento, claro. Entrei em meu carro ano 98 e saí apressado da paisagem. Eu precisava de menos vento, de menos calmaria.

Liguei para a casa de W. A mãe dele foi quem atendeu. Pedi a ela que saísse um instante fora da casa dela, pois seu filho estava com problemas na rua. Fiz todo um diagnóstico assustador, sinceramente maldoso. Ao sair e ficar olhando para os lados com os olhos marejados – e isso eu confesso orgulhoso –, ela mal teve tempo de desviar da frente do meu carro antigo. A cabeça dela trincou o meu pára-brisa e deixou uma mancha singela de sangue. Saí calmamente e tirei uma, duas, três fotos. Procurei o melhor ângulo, uma posição que expressasse o momento e a angústia da minha natureza morta. Sentei na calçada e me forcei a imaginar a reação de W. ao receber aquelas fotos sem cores.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

.impressões de um falso ermitão.


Eu desisto mais por entender tal ato com um exercício de paciência. As cousas estavam quentes quando decidi ir atrás de ti, os acordes estavam soando altos e precisos. Foi uma decisão precipitada, talvez, mas necessária. Ainda mais depois de ler a missiva que deixaste próxima aos nossos discos preferidos. Deixei a agulha rabiscar uns instrumentais para ler o teu convite ao contrário. Depois de tanto tempo juntos e dividindo as amarguras de um dia-a-dia tão sem sal e sem entender o que fazer para temperar o nosso ordinário faz-de-conta; depois de tanto dividir copos diferentes para matar a mesma sede; depois de dividir pieguices e afinidades díspares; enfim, depois de um amontoado de cousas que só ganha relevância com o passar do tempo tu me deixas uma missiva com poucas explicações. Apontas números, indicas cirandas e sugeres melodias, mas com uma inútil maestria. Lados a, lados . Leio e releio tuas palavras grosseiramente manuscritas para um fim enquanto os discos se repetem nos mesmos arranhões que um dia reclamaste. Talvez, com essa viagem inusitada, estejas apenas adiantando a importância do que anteriormente citei e de outras que convém não explicitar assim tão desaforadamente. É uma opção tua, mas, a meu ver – e que traz, claro, um pouco de egoísmo –, pouco urgente no momento.

Olhei pela janela do avião e vi as montanhas cobertas de neve. Uma imagem bonita, calma. Imaginei todos os passageiros ensangüentados, demitidos de suas existências chinfrins. E eu, claro, desfigurado em algum ponto dos Andes. Mas foi uma visão passageira, pois a aeromoça bonita me chamou a atenção para sentar e apertar o cinto. Sufocar a cintura para viajar entre as nuvens, para ir a um lugar que me apressei em percorrer lentamente com os olhos em um mapa alheio. Pouco importa. A ansiedade de te estranhar em terras estrangeiras crescia a cada turbulência – e isso me roubava o sono, pois num dos aeroportos do país nosso natal eu fiquei quase doze horas esperando o vôo oficial. Sentar, empurrar bagagem, ouvir programas televisivos sobre esportes em plena madrugada, assistir o corre-corre das pessoas, a beleza dos invisíveis. Nada tirava o tédio, confesso. Dormir não me era possível. Sem música para preencher as lacunas. Apenas um livro ilustrado magistralmente, mas que eu tinha pena de ler por achar que em uma semana eu teria mais tempos livres como aquele. Uma semana no estrangeiro para te estranhar e te buscar não em palavras – como sugeriste na missiva –, mas em perfumes e flores e sabores e passeios e em tudo mais que fosse possível. Talvez ser subversivo em ti, apenas para tentar convencer a mim mesmo de algo. Tu já sabias o suficiente, e por isso ignoraria a minha estupidez, o meu idioma quebrado e exíguo.

Estranhei o aeroporto, as pessoas, o dinheiro, o tempo e as cores. Parecia uma película inédita para as minhas retinas míopes. E na verdade era exatamente isso! O passeio até o hotel barato que reservei – já treinando o meu espanhol esfarelado – já gritava os porquês de teres escolhido tal lugar para de mim se esconder. Era compreensível, malgrado eu saber no fundo que podias nem mesmo estar ali. Praças bonitas, ruas limpas e bem sinalizadas, pessoas agasalhadas e muitos rostos com traços europeus. Viver comigo num país modorrento como o nosso era castigo, era subestimar teus talentos – os mesmos que lapidamos em noutes embaladas a batidas improvisadas. Por isso a escolha desse país, não? É compreensível.

Eu me perdi já no primeiro passeio pela cidade. Apesar de entender o pequeno mapa que desenhei na palma da mão, o suor do estranhamento curvou ruas, mudou avenidas e algumas calçadas se confundiram com as linhas mal traçadas, com o eme que quase todos têm nas mãos. Acariciei com os olhos cada mulher que passava me encarando. E elas o faziam talvez por estar eu com a barba por fazer, ou por exibir traços esdrúxulos para aqueles padrões, ou por andar com os antebraços nus naquele vento frio. Não sei explicar, malgrado os afagos meus não serem necessariamente aceitos ou correspondidos. E só o confesso por saber que deves ter acariciado tantos outros que nem quero um dia saber. Sei bem dos teus cílios e de quão ruidosa pode ser uma piscadela tua.

Caminhar pela cidade nova era um desafio. Como te encontrar no meio de tanta gente? E como pedir informação a quem não me entende? E como imaginar um pôr-do-sol ao teu lado – por mais piegas que possa ser tal exercício de minha morna verve – se o dia só escurece às nove horas da noute? Por três dias eu te procurei na mesma linha de metrô – sempre a mesma por medo de casualmente me perder. E sempre, confesso, eu me encantava com os rostos, com as cores e com o movimento ao meu redor. Ter-te como desculpa para devaneios em uma língua outra era bom nos instantes em que eu simplesmente ignorava os avisos em vernáculo alheio. Eu ignorava encômios, xingamentos e ironias em espanhol e em outros idiomas que a minha interpretação não alcançava. Eu te desafiava mentalmente para saber quem iria jogar a toalha mais cedo. Perceber os olhares alheios quando eu falava algo. Repetir palavras simples. Encurtar idéias. Gesticular demasiadamente estranho. Eu fazia de tudo um pouco para poder navegar naquele rio de estranhamento. Mas eu era estranho! Queria saber se estavas assim também: a dar voltas no mesmo quarteirão por não decorar o nome das placas. Talvez estivesses em melhor situação e até convertendo – com um olho fechado e outro aberto – a moeda local. Eu era um estranho naquele mundo de miudezas importadas made num país latino-americano.

Num determinado dia, depois de me frustrar com a minha falta de recursos, fui para uma das praças com a intenção de ganhar dinheiro. Pantomima. Não consegui muita cousa, mas vi uma banda do exército, as bandeiras hasteadas e um mundaréu de gente caminhando e falando rápido. Caminhei e falei com terceiros um pouco do que aprendi contigo. E no final do dia, depois de todos os ônibus terem ido embora, consegui uma carona até uma estação e peguei o último metrô. Fui a um bairro boêmio. Bebi e bebi com a intenção de esquecer e ser esquecido. Vi artistas de rua, quase uma briga e muitas caras maquiadas. Bebi muito além do que eu normalmente me permito beber, e com a fala malemolente embarquei num táxi. Um passeio noturno pelo centro: travestis, caminhões de lixo, poucos carros e quase ninguém nas ruas. Cambaleei até a cama e procurei não me mexer: não queria espantar sonhos ou sensações agradáveis. Ronquei como um porco, e no excesso de sono eu embarquei de volta.

Desisti no meio do caminho, no alto do teleférico, próximo ao porto, em frente a placa com um sentido desagradável. Lembrei dos mendigos, dos prédios grandes e de todo um cotidiano rápido e em espanhol. Voltei com as retinas frias, manchadas de um colorido tão preto e branco que te desafiaria. Mas adrede me falta coragem para te encontrar. E talvez seja por isso que desisti. Voltei sem te trazer, e de mim deixei traços e uns debuxos mal coloridos – num vernáculo mal traduzido que me ultrapassa as fronteiras.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

.bem feito.


Era tão absurdo tentar entender a situação quanto tentar expressar pela ponta de um pincel o peso de um plúmbeo céu prestes a desabar. Não era possível. Não podia ser possível. O que restava a fazer era apenas esperar, sentir o tempo escapar entre os dedos, sujar as unhas arrancando a pele. Sangue, pele e dor. Coçar o corpo para tatuá-lo manualmente às vésperas de algum incidente inevitável. A minha visão turva me permitia apenas enxergar o tempo presente, e ele se mostrava em fios coloridos. O mundo girava nas pás de um moinho que não mereceu ser cantado por Cartola. Era um mundo insignificante, ralo, barato como souvenir de plástico. E por mais que eu fechasse os olhos com força as cores riscadas eram sempre as mesas, e a situação parecia não mudar. O cansaço daquele esforço fazia as pernas se retesarem, e o riso mecânico oscilava entre a loucura e a indiferença. Eu fechava com força os olhos, trincava os dentes de tanto forçar uns contra os outros, prendia a respiração e até tentava não pensar em nada. Mas não foi possível. Não era possível, confesso. E é difícil buscar respostas quando não se sabe nem ao certo as perguntas – ou pelo menos qual é a dúvida que merece mais atenção. Achar uma causa ou buscar um motivo seria um engodo, e nisso eu sabia que era bom. Há tempos me mantive distante, guardei aquilo por incúria e por medo de apagar parte do meu passado – mesmo sabendo que isso já ocorrera por parte de quem enviou o que naquele momento eram lembranças tristes. Apenas eu, por ser piegas excessivamente, mantinha aquele relicário de saudades. E cada saudade, cada resquício de um bem-querer me feria a retina e me era como um napalm no peito. E quando eu fui rei naquele estudo geométrico de lascívia e simpatia o mundo era imenso, não cabia em traços ou mesmo em aquarelas demasiado aguadas. Eu em minha liteira, cheio de um orgulho maltrapilho, era apenas levado por todas aquelas impressões que eu reclamava em versos. O meu pequeno reinado, a minha coroa, o meu tapete vermelho: frutos mofados de um pomar assaz podre. E não é tão-somente podre por falta de cuidado ou por achar eu que, nesse momento de lúcida loucura, tudo não passou de uma brincadeira de péssimo gosto¹. Tudo era podre por falta de crença minha, confesso. E essa minha fé capenga em algo que diz respeito aos sentimentos – palavra aqui tão repetida quando vazia hoje em dia no meu parco entender – fazia com que eu abrisse cada envelope, que visse cada foto e que imaginasse situações diversas a partir de promessas e planos não concretizados.

As imagens pareciam ser nítidas, as lembranças, as saudades guardadas e as fotos ligeiramente envelhecidas. Ébrio de algo inefável eu relia as palavras com data e hora de um sentimento hoje obliterado por um afago ao contrário². Era complicado demais tentar entender como tudo aquilo, como toda aquela tinta havia se transformado num monte de rabiscos amargos, num monte de rascunhos sentimentais pouco afáveis – malgrado serem provérbios escritos com palavras bonitas. O perfume nas páginas hoje amareladas doía, e cada tatuagem que eu me fazia trazia um matiz outro daquilo que alimentei por alguns meses – pequenas eternidades divididas em trinta dias, em quatro semanas ou mesmo em algumas horas. E graças a esta minha idade já desbotada³ pelas intempéries eu desconheço hoje um sentido outro da alegria. Muitos podem supor exagero, um psicodelismo comportado. E não deixam de ter certeza nisso, pois quem quis remexer nisso tudo fui eu.

Fechei o pequeno baú de lembranças e desordenadamente recoloquei nos envelopes as páginas cheirosas e riscadas. Escondi mais uma vez as fotos e descansei o palpitar nervoso no peito. Aceitei o fato de desconhecer a mim mesmo. Marquei um dia no calendário para me apresentar a um eu Outro, mas sabendo que seria sem a poesia de Rimbaud.



¹ A glosa aqui diz respeito a um egoísmo chinfrim, e na verdade está tudo muito claro.

² Referência direta - plágio, se preferirem - aos seguintes versos do Chico:
aspasReclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avessoaspas

³ Diz respeito a estes versos do poeta e compositor piauiense Climério Ferreira:
aspasAcho que sou feliz.
Eu quero tudo o que tenho,
só desejo o que posso
E sou da minha idade.
Será isso a tal felicidade?aspas

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

.um diálogo.



– Então começa a rezar, pois somos todos ímpios e impios demais para nos gostar.

– Partimos dos pressupostos errados. Apenas isso.

– E quem vai nos dizer quais são os certos?

– O que eu quero te falar é apenas uma vaga idéia.


Acariciou o cachorro prognata. E se silenciaram antes de iniciar preguiçosamente, mais uma vez, a mesma conversa de ontem.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

.catequese.


Observei carinhosamente o umbigo dela. Escrevi dous versos ao redor dele, e quando ela respirou profundamente, caíram eles nele. E era assim com todas as palavras-letras que eu rabiscava ao redor do umbigo. Escrevi estrofes a conta-gotas, pílulas de minha poesia cutânea. Ela respirava profundamente e as palavras deslizavam enquanto ela descansava os desejos. Sonhava dragões, rosas e páginas em branco. Enchi-a com uma poesia rala, e prenhe de versos meus ela acordou. Lentamente abriu os olhos e cegou o olhar do mundo. Esquentou as minhas retinas. Arrotou rima e enjambemant, neologismos e vírgulas desnecessariamente usadas. Depois de muito enjôo, deu ela a luz a um livro com páginas nuas. Antros imaculados de inspiração. Enfileiramos a escassa hóstia oriunda da parede, cheiramos em câmera lenta e, a partir daquele momento de lúcida embriaguez, começamos a escrever a nossa própria bíblia.



terça-feira, 16 de setembro de 2008

.o funcionário.


As estruturas do primeiro andar ruíram, eu podia sentir. Eu estava no décimo primeiro quando o início da queda se mostrou em som e poeira de concreto. Ela trazia estampada no olhar a frase ‘hoje não’, e eu dizia que seria apenas um detalhe em nossa história. O escritório de tantas entrevistas, tantas conversas e tantas histórias incompletas: sujeitos que passam e que se vão sem deixar raízes em mim. E ela sentada em minha frente com algum tipo de sentimento que era diferente do que comumente exibia nos risos e abraços e afagos. Os cachos sobre os ombros despidos, a tez levemente dourada e lábios com uma língua estrangeira, almofadas que proferiam palavras ainda sem idioma, mas que meu senso desnorteado conseguia entender – ou pelo menos parecia entender. O vestido amarelo estampado, o decote providencial e as mãos bonitas que um dia eu tentei desenhar no verso de uma fotografia. Eu analisava tudo minuciosamente, cada costura, cada detalhe, cada matiz, cada mancha ou sarda. E em câmera lenta o primeiro e o segundo andar caíam, desabavam, viravam poeira e levavam consigo tudo a um ermo qualquer. Ela nem sequer se mexia, apenas suspirava e esperava que eu contasse a verdade, que eu suplicasse perdão. Aos diabos!, pensava eu desaforado ao desviar do olhar inquisidor dela, e tentava me concentrar em algo além da destruição do edifício.

A secretária havia deixado o escritório há horas, pois sabia da possível implosão do edifício. Adiantou recados, papéis e toda a agenda do dia. Cancelei todos os compromissos para recebê-la, mesmo sabendo que poderia ser perigoso para ela. Ela chegou atrasada, sem avisos ou apresentações. Apenas entrou e se deixou levar pelos tênis que um dia sambaram comigo em ladeiras e que deixaram impressões de lama em minha casa após uma chuva inesperada. Foi como no primeiro encontro, no primeiro caminhar de mãos dadas. Aos diabos, eu pensava já sem tanta força ao sentir o quarto andar cair – percebendo que eu mal notara a queda do terceiro. O quinto e o sexto também logo virariam pó, e mesmo com os tremores cada vez mais próximos, eu pressentia que ela não se abalaria. Irredutível em sua frieza, em seu mesquinho autismo sentimental – pelo menos naquele momento, e pelo menos para mim.

O prédio estava vazio há dias, há tempos, há anos. Talvez fosse eu o único funcionário que ainda esboçava esforço ou que, ao menos, tentava encontrar motivação. No fundo eu sabia que merecia aquele emprego, e achava bom ter de me levantar todo dia – mesmo que mecanicamente, com cacoetes de uma rotina – surpresa! – imprevisível. Era difícil eu receber clientes, confesso. A agenda estava sempre cheia de horários e obrigações e compromissos, mas sempre de última hora eles eram sumariamente cancelados. No começo eu me irritava com a falta de consideração, com o descaso com o profissional que gastou os melhores anos de uma vida se enchendo de um conhecimento pouco prático e cuja importância se limitava a contar vantagens em mesa de bar. E nem este exercício de afagar o ego eu tinha tempo, pois a agenda não me permitia sair com meus amigos – a essa altura da vida, todos imaginários. A minha vida havia se tornado um catálogo de desilusões, e os preços eram obrigações servis a um patrão que nunca aparecia nas reuniões da empresa. O salário nunca atrasava, é bom salientar. E malgrado eu ser o mais e único funcionário empenhado na empresa, eu nunca ouvia um agradecimento ou encômio pelo serviço em dia.

Eu embrulhado num terno da moda, e ela num vestido humildemente costurado, forçosamente ilustrado com estampas baratas. O corpo dela ajustado no tecido, pele e cor, pano e suor, libido e bons modos. Fechei um olho forçando a memória, e como quem está sob o sol do meio-dia, logo fechei o outro para poder escurecer a vista e assim enxergar, de fato, o que eu procurava em minha ilha de edição. Éramos um casal incomum, ambos imersos me nossas vicissitudes de fim de semana, em nossas conquistas não registradas. Éramos poemas em linha reta, orgulhosos de nossa existência desapercebida, tímida ao extremo. O nono e o décimo andar há tempos se elevavam aos céus em uma nuvem cinza, tóxica. Eu já sentia o chão me sumir dos pés, e meu andar estaria suspenso numa dança difícil de acompanhar o ritmo. Ela permanecia imóvel, impaciente já, mas ainda sem demonstrações explícitas de irritação. Eu já sabia do novo amigo dela, de suas novas conquistas – realmente cousas admiráveis –, mas eu não podia abandonar meus compromissos para contar a única verdade – que tatuei nas costas minhas justamente para eu não ler e decifrar as entrelinhas. Abri a janela e me pendurei nela antes que o chão sumisse. Estendi a mão a ela em silêncio a fim de evitar mal entendidos. Fui solenemente ignorado.

Aos diabos, disse eu baixinho antes de fitar de soslaio toda aquela lascívia cair de uma altura incomensurável para meus olhos tão acostumados a cair. E bem sei que apenas finjo quando não entendo algo.

Fiquei o restante do dia na janela assobiando. Eu previa minha demissão. Por isso me dei ao luxo de sair no meio da tarde para caminhar e me deixar absorto em singelas observações.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

.princípio da carniça.


A conversa ia já cansada, tropeçando em ideologias outras e clichês lingüísticos. A discussão seria inevitável. Os goles preguiçosos, o olhar cambaleante, o raciocínio superficial e fugaz. Tudo muito aquém de uma aposta literária. O assunto era outro, mas ele ficou transtornado – e isso é aqui afirmado tão-somente após uma minuciosa interpretação de ademanes e suspiros. A perturbação era gritante, dava sede e mais sede, e toda a cerveja do mundo não seria suficiente para alagar a garganta amarga do sujeito e seu jeito piegas de se expressar.

Conteve a fúria mordendo o beiço inferior, fez sinal com uma mão para trazerem mais uma cerveja enquanto com a outra enchia o copo com espuma. Num rebojo de idéias e sentimentos eivados por uma decepção, danou-se a praguejar profecias. Depois de uma pausa, falou em tom sério:

– Tu sabes que tudo pode ser explicado pelo princípio da carniça, não? A mulher fica com o cara rico assim como as mulheres primitivas ficavam com o cara que cheirava a carniça, pois o fedor indicava que ele sabia onde tinha comida, mesmo que podre. É o mesmo que acontece com os cachorros, que procuram ter esse cheiro para que as cadelas se aproximem. As mulheres hoje em dia ficam com caras que aspasfedemaspas a dinheiro, sabia? É machista? É, mas é o que acho. Elas pensam em estabilidade, em poucas preocupações. Às vezes acho que, no meio das dificuldades, se eu tivesse nascido mulher as cousas seriam mais fáceis. Na verdade eu queria ter nascido Gimenez. Como ela, basta saber o momento certo para abrir as pernas – ao cara certo, é bom lembrar – e conseguir engravidar. E aí dinheiro vai ser souvenir, artigo que se consegue em quitanda, entende?

Bebeu mais um gole com capricho. Ameaçou continuar a conversa, mas o desinteresse de quem o ouvia era evidente. Ficou chateado por ver sua jóia platônica passar mais uma vez de mãos dadas com outra pessoa. Viu-se como um Chinaski demasiado desiludido. E ao ver o início de riso na extremidade da boca de quem o acompanhava naquele instante de sofrimento previsível, arrancou a exígua consciência, arrotou o escasso bom-senso que ainda guardava em si e enfiou o dedo na garganta para vomitar agruras que o perturbavam há tempos. Voou no pescoço do amigo. Acertou murros no rosto, no peito, nos óculos.

Após ser puxado por desconhecidos, observou o sangue nas mãos, as lentes quebradas, o chão e a cerveja derramada. Suspirou com um quê de constrangimento e tentou encarar os olhares de terceiros. Sentia-se cheiroso demais para aquele momento de testosterona à flor da pele.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

.um camelô divino.

Estou vendendo a petente do meu coração
E também doando meus direitos sentimentais
Quem se arrisca a se endividar?
Quem quer ficar rico com minhas angústias?
Quem se habilita a me ajudar?
Tenho cinco filhos

O mercado da luxúria é tão tumultuado
Sugiro minhas importadas sensações
São da Bolívia, do Paraguai e afins latinos
Qualidade duvidosa, eu confesso
Mas lhanos em sua canalhice barata

Vejam a placa
Estou vendendo a patente do meu coração
E também doando meus direitos sentimentais
Não riam, pois não há graça
Dêem-me um samba para distrair apenas
Tudo custa muito pouco
É um e noventa e nove
Quase caridade

Tenho uma variz ulcerada acima do tornozelo
E cinco dentes postiços
Quem quiser pode levar o que ofereço

Deus lhe pague, meu filho


*Originalmente publicado no dia 13 de março de dous 1000 e seis

domingo, 24 de agosto de 2008

.questão de tempo.


Não foi por maldade, mas tive de arrancar os dedos das mãos dele. Eu queria ter para sempre as impressões que ele tinha do meu corpo, da minha geometria irregular e moldada a insuficiências sentimentais. Esperei o momento certo, a hora exata. Arranquei dele os dedos, e guardei todos numa caixa prateada. Esperei que apodrecessem para abrir a caixa e sentir o perfume natural daquele que foi o homem que mais me satisfez. Sentia-me excitada com tal aroma, com ele sublimado entrando de novo em mim – e de alguma forma me satisfazendo outra vez. Eu abria a caixa religiosamente duas vezes todos dos dias. Ia eu trabalhar com ele ainda fresco em mim, alimentando memórias e me completando alucinadamente. Era uma espécie de vício, confesso. Eu ficava mais desperta, mais amável com as pessoas. E de noute, quando já desbotada pelo cotidiano, eu abria a caixa e me masturbava com ele preenchendo o quarto. Eu desligava a luz e deixava só o fiapo claro por baixo da porta que vinha da sala como testemunha do meu prazer. Uma música qualquer de fundo para abafar meus sustos, meus espasmos. E assim eu vivia até a pele sumir, até o cheiro desvanecer e virar um resquício de lembrança, um resto de memória.

Quando esvaziei a caixa prateada, senti um aperto no peito, uma falta de ar. Eu ia ao encontro do cotidiano cabisbaixa, decepcionada com a efemeridade dos seres humanos. Fiquei umas duas semanas chorando pelos cantos e regurgitando prazeres oníricos. Até comungar da idéia de me enamorar outra vez.


quinta-feira, 21 de agosto de 2008

.malacara.


– Preciso encontrar Malacara. Mas em que deserto frio será que está? Em qual galpão terá se metido? Será que anda a zanzar por pradaria outras? É bem provável, eu acho. Malacara sabe quem eu sou, sabe como sou e como serei daqui a uns anos. Malacara me entende, eu acho. Mas foi embora. Simplesmente foi embora. E eu não sei o porquê. Talvez até saiba e não queria aceitar. Na verdade é isso, e eu só não quero comentar aqui o motivo. O fato é que foi embora. E eu aqui sem o meu lugar, sem estar por simplesmente estar. Se hoje trago esta ferrugem nos olhos e um pouco de fuligem no peito e todos os sentimentos venais é porque eu acreditei muito em Malacara. Toda esta parca coragem eu consegui ao lado de Malacara. Eu, que cultivei por pouco tempo e modestamente uma barba rala para convencer um sem-número de pessoas, alguns músculos para as eventuais brigas e para convencer que não sou tão frágil assim, as mesmas palavras que para mim foram ensinadas; tudo foi por causa de Malacara. Hoje em dia o que é mais estranho para mim é o fato de Malacara ter ido embora sem avisos prévios, sem explicações plausíveis, sem despedidas ou mesmo um aceno cheio de mensagens subliminares. Malacara foi meu motivo de noutes em claro, de substâncias ilícitas e de todo um sem-fim de cousas adversas. A minha ablução sentimental foi obliterada, confesso. E por culpa de Malacara. E será que posso usar termo tão pesado, tão violento e agressivo para uma situação como esta? Não sei. Peitinhos assaz e bundinhas assim, trilhas outras e essa saudade assim cinza e sinistra – que me manca o peito e faz capengar a coragem de entrar em erupção. A raiva faz isso, mas Malacara havia me roubado essa vontade, esse direito. Toda vez que olho pela janela e vejo o mesmo céu refletido no espelho, sinto-me num labirinto de imagens. Vê, um céu emoldurado no espelho, e outro maior ainda seguro pela janela, sendo que um está contido no outro, e o outro é aquele mesmo. É como me sentia quando Malacara estava aqui. Eu-espelho no céu-janela de Malacara. E por ser efêmero em saudades, acho melhor acreditar em pressentimentos.

– Não achas em vão acreditar em pressentimentos? Malacara foi embora, e isso já basta, não? Não achas melhor seguir a vida sem Malacara?

[O iminente artista pára e olha fixamente para as lembranças que fugazes passam diante dos seus olhos. Dá um suspiro.]

– Seguir sem Malacara? Vou ter de seguir, claro. Mas um cachorro como aquele não se encontra em qualquer lugar. Eu tento esquecer Malacara. Eu realmente tento não me prender às lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças. Mas é como escreveu Jung: aspasAquilo a que você resiste, persisteaspas. O senhor sabe disso. E por isso acho melhor terminar a entrevista agora. Quero ir para descansar.

[O quase jornalista desliga o gravador, confere as anotações. Guarda tudo numa bolsa e sai do carro sem se despedir. Enquanto isso o entrevistado se afoga nas lembranças que nutre por Malacara.]


– Oquei! Corta! Muito bom. Vamos repetir a cena para pegar tudo de outro ângulo, de dentro do carro. Mas só da parte final do diálogo, certo? Podem descansar um pouco.


*Foto: ISIS, priscilla.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

.uma confissão infeliz.


É sério. Eu só me lembro de ter ouvido o padre sair gritando aspasSai pra lá! Sai! Este pecado é horrível demais!aspas

O sol ia alto em seu grito luminoso. Um calor desgraçado. A mesa quadrada – carcomida e enferrujada e amassada e com a pintura gasta e com uma enorme propaganda de uma cerveja-outra – era o depositário de conversas amigáveis. Os dous malandros se cumprimentaram então. De olhos vermelhos, cheios e mágoa. Uma cerveja, dous copos.

– Calor, né?, bicho. Então, é sério, Z.. A cousa tava feia. Apavoro mermo, sabe? Eu fui pra missa pra encontrar a F., só pra isso. Aí cheguei tarde. Ontem eu tinha saído sem avisar nada pra ela. Tava até com bafo de cachaça. [Z. ri discretamente.] Mas fui mermo assim. Cheguei lá [Ele pára para beber um generoso gole de cerveja, dá uma fungada, faz careta e continua.]; cheguei lá e a missa já tinha acabado. Entrei mermo assim. Vai que ela ficou lá dentro me esperando, né? Aí entrei. [Ele se levanta sem aviso já com um sorriso no rosto.] Opa! E aí, W.?! Quanto tempo, rapá! Senta aí com a gente. Aqui: esse aqui é o Z.. Z., esse é o W., aquele que te falei do tamanho do pau. [Os três riem. Z. cumprimenta W. com a cabeça, sem se levantar ou estender a mão.]

– Só na cervejinha então?
Opa, senão ninguém agüenta o rojão, como diz o C.. Senta aí, W..
– Não, não. Valeu. Tem uns lances aí pra fazer. Falou, moçada.

[E foi W. descendo a ladeira preguiçosamente sob o sol impiedoso.]

– Esse bicho ta de rolo com uma branquinha gata que teve filho esses tempos. E é feio, né não? [Os dous riem mecanicamente.] Então, como eu te falava. Entrei na igreja e não tinha mais ninguém. Uma ou outra velha rezando pra vela. Mas em silêncio, sabe? Como se santo lesse pensamento... [E toma mais um gole de cerveja. Z. força um riso, mas a fisionomia mais parece desgosto com o que acabara de ouvir.] Sentei num banco e descansei as pernas. Aí comecei a pescar. E tal, pescava, e nada da morena. Aí só ouço o padre gritando aspasSai pra lá! Sai! Esse pecado é horrível demais! Não confessa pra mim! Sai daqui! Sai!aspas Cara, foi uma cous–

Acordou assustado. O coração sambando no peito. A respiração na batida do surdo, mas pesada, doída. Desamassou a cara com força, furando os olhos dos sonhos. Apertou os olhos e hesitou pensar no óbvio.

Vestiu a camisa do fluminense e foi primeiro matar o padre. Depois mataria P..

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

.uma questão de tempo.


Estávamos a uma velocidade acima do normal, acidentalmente desrespeitando os limites aceitáveis que as placas exigiam. Os cabelos manchavam o vento e os movimentos com as mãos imitavam ginastas prestes a cair – e que se levantavam num rápido movimento para o nada. A música alta atordoava os pensamentos: muitos metais, bateria cubana, vozes díspares, refrões duvidosos e tudo mais que a orquestra pouco ortodoxa – que escolhemos a esmo – podia proporcionar musicalmente naquele momento. Estávamos deveras rápidos, rindo sem um motivo específico, mas tendo a certeza de que aquilo não duraria para sempre. Nada dura para sempre, é bom lembrar.

A ponte seria um bom local para respirarmos o ar fétido que o rio poluído emanava. Paramos sem cerimônia, abrimos as portas e deixamos os risos acompanharem as partituras da orquestra. Tínhamos a cidade deserta e todas as horas possíveis da noute para embriagarmos com conversas fúteis e risos ensaiados e elucubrações chochas e ilações absurdas e teorias vazias e mais uma miríade de diversões que a gente compra lendo orelha de livro. Não pensávamos, de fato, nessas possibilidades. Cada qual ficou em seu acento descolorindo aos poucos a situação.

A música já não fazia mais tanto alarde, e a cabeça ricocheteava versos soltos, frases musicais descompassadas. O sol rompia o hímen da madrugada aos poucos, e todo o prazer que sentíamos há pouco sublimava. Olhei pelo retrovisor para ver o futuro. Era tarde demais, amigo. Tarde demais para rir de lembranças.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

.apenas um delírio.


O piano soava ao fundo, batia no fundo dos pensamentos. Era inevitável, não era tão impossível, pertinente talvez e muito provável que não fosse nada. A lâmina lambendo a carne, suavemente. O sangue salpicando preguiçosamente a roupa, o chão, as paredes, o universo e todas as estrelas mortas que se perpetuam todo dia ao anoitecer. Não podia mais se importar. Talvez tenha sido o filme, as músicas, as tragédias anunciadas aos poucos nos jornais. A visão entre as pessoas, um pouco além. A não distinção entre sonhos e delírios, o gosto disfarçado pelo sofrimento alheio. O piano soava e parecia aumentar ainda mais. Uma melodia qualquer, sinistra. Melodia, melodia. Limpava o nariz com o dedão e se fazia palhaça de circo, personagem tristonho com o riso no rosto. Ria de si mesma e da situação pouco improvável. Não, aquilo não tinha graça alguma. Os braços retorcidos, a roupa rasgada e a violência gratuita guiada por um impulso desconhecido. A televisão seria a testemunha, a única que falava na sala, no ambiente vazio, sujo, imundo, porcamente higienizado para uma possível viagem. As melodias, as melodias. O movimento hesitante, a faca cortando o momento de dúvida e toda a certeza de que estava num problema sério. Não precisava fazer tanto barulho por um corte tão levemente profundo na garganta. Um corte nos pulsos. Sangue por todos os lados, uma piscina escarlate. Um filme. As informações ricocheteando pela sala, reverberando com a voz dos atores. Um fósforo apenas inteiro para queimar uma precisa floresta única. As bordas sujas, as imagens desconhecidas, as idas e vindas. O conhecimento de que era preciso apenas um fósforo para queimar uma floresta inteira. Quando menos esperava, a mão alheia já estava cobrindo suas digitais.

Após chupar a fumaça e guardar a loucura nos pulmões, olhou pela persiana sem a real intenção de fazê-lo. Inventou uma desculpa qualquer e desceu apressada as escadas do prédio.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

.um dantas.


Almejava apenas a felicidade, um simples desejo – venal e até compreensível hoje em dia, ainda mais se levarmos em conta os muitos afazeres e moscas carpideiras a nos louvar e cuspir. Ainda mais se levarmos em contas as mulheres-bicheiras a nos beijar e cobrir. Ele esperava a redenção e a felicidade. Não fazia mal a ninguém. Funcionário público dedicado, obediente e alheio aos valdevinos escusos com suas propostas cinematográficas. Emulação comedida, tímida – risível, convenhamos. Subir na vida era um detalhe que poderia ser dividido com afinco e perseverança com todos ao redor.

Evitava as brigas oferecendo a cara à tapa. Evitava xingamentos deixando ofender-se gratuitamente. Não via maldade e malícia nos olhares. Até se envergonhava quando por descuido ou cisco ou mesmo lascívia alguém para ele piscava. Segurava mãos femininas para ajudar e não para digitar segundas e quintas intenções. E quando o fazia – por ser de inevitável proporção o talante que o afligia – era sempre com as mais sinceras intenções. Os pensamentos mais soezes eram deixados sob alguma memória distante, sob algum desentendimento interno. Ele era a encarnação do poema em linha reta: não um semideus, mas um sujeito vil em sua ingenuidade gritante.

[...]

Não se casara por não encontrar quem suportasse tamanha bondade, tamanha pureza de espírito. Claro, de quando em vez exercitava uma ou outra esperteza, mas só para fazer do riso alheio um amuleto. Só para alimentar o humor dos que estavam próximos. Ah, como ele era um sujeito de bom coração! Decorava nomes, datas e nunca decepcionava ninguém. Ou pelo menos acreditava piamente que não o fazia. Queria sempre agradar, e não pensava se as pessoas queriam mesmo esse agrado. A primeira namorada o traiu. A segunda o deixou. A terceira não chegou.

Rezava diariamente engolindo como desgraça a cachaça sacra que de graça recebia dos amigos mais íntimos. Religião forjada, é claro. No fundo sabia o quão idiota era para a maioria das pessoas. Ficar bêbado para anestesiar o forjar, para obliterar a amarga doçura do seu ser. Humilde sujeito, simples de coração.

[...]

Num domingo, contudo, por pouco deixou-se levar por instintos outros. Alguém mandara um bilhete insinuante, provocador. Um estímulo ao exercício de sua calma, devem ter pensado. Um convite de última hora, uma hesitante aceitação. Bebidas e bebidas e riso. A pureza de seu coração palpitou na nota errada do samba, cadenciou no verso malandro inesperado. Jogou o copo numa das paredes do quintal e ficou assustado com os olhares. Ah, os olhares! Nossa, para que isso?, devem ter cochichado. A música parou, a conversa animada parou. A alegria deu um passo em falso e caiu. A mão tremeu, as palavras miaram e tudo se desanimou naquela seqüência de frames meticulosamente desenhada ao longo dos anos.

Saiu sem graça, sem se despedir. Sem muita pressa ou qualquer indício de coragem. Sentou-se na grama à espera de um sopro de alegria. Sentiu uma brisa, apenas. Um suspiro de reprovação.

O suficiente, porém, para alegrar – mais uma vez – o seu simples coração.




* Minúsculo tassalho do texto As cinco categorias de Ovalle – que na íntegra não será publicado neste espaço por egoísmo de quem aqui escreve

domingo, 27 de julho de 2008

.inspiração de um artista mequetrefe.


O caderno em branco denunciava a falta de criatividade, a inércia na mão esquerda – outrora tão hábil em ilustrar superstições e sentimentos tímidos. Há tempos vestia o terno, alinhava-se na cadeira, estralava os dedos, conferia os lápis, as tintas, e então fazia um ponto no meio da página alva. Ficava ali parado, esperando que uma entidade criativa baixasse, aguardando a inspiração suar as mãos de tanto exigir movimentos e rabiscos. Olhava pela janela e via o caos urbano, a poeira no riso das pessoas, os movimentos mecânicos e toda a sujeira social. Culpava-se por estar de terno e plena quinta-feira esperando timidamente a inspiração. Ah, mas era um palerma mesmo. Sabia que ela havia saído com outra mão, que estava se divertindo respeitosamente com outras páginas. E ele ali sentado, covarde, mudo, cansado de sentir muito por muito sentir. E realmente sentia, mas tal qual o poeta, fingia para si mesmo que não sentia. Enganava-se, e assim esperava o tempo passar. Ficou na mesma posição por um bom tempo. Olhos mortos dissecando a página em branco, mão hesitante. O pensamento vagava em algum ignoto deserto, e assobiava alguma melodia só para disfarçar a pouca graça do momento.

Ao meio-dia tirou parte do terno. Foi à cozinha e esquentou a comida congelada que comprara no dia anterior. Galinha, arroz, feijão, macarrão. Um suco sem açúcar. Água natural – com um gosto de terra que o fez lembrar das idas e vindas ao sítio da família. Desde que assumira sua misantropia as reuniões familiares por lá não contavam com o seu riso morno, com seus traços. Pensou nisso por um instante, e depois se reconfortou com uma colherada satisfatória. Tentou não saborear. Comeu mecanicamente se achando príncipe em pleno sábado.

Lavou a louça em silêncio. Com calma tirou parte do terno e se sentou numa cadeira desconfortável. Ficou abusando da inércia, da falta de ânimo. Mãos sobre as pernas, pés alinhados, coluna reta e cabeça pendendo para a direita. Não havia muito o que fazer naquele seu horário livre. Tinha ele duas horas para aproveitar da melhor maneira que pudesse. Poderia dormir, massagear o ego, confundir as lembranças, relembrar as brigas que perdeu, tirar os sapatos e sentir o frio da casa. Apenas ficou sentado na cadeira desconfortável. São apenas duas horas, deve ter pensado. E ali permaneceu sob a luz cinza que entrava pela janela.

Vestiu a parte do terno. Ajeitou a gravata e passou a mão nos cabelos penteados. Sentiu-se na moda por um instante. Respirou fundo e foi se sentar para começar de novo os desenhos. Apontou o lápis, conferiu as folhas em branco. Concentrou-se. Nada. Nenhum traço, nenhum pincel ousou se molhar para aguar as cores dos traços de nanquim. Por um momento ele achou que poderia desenhar o mundo, todos os traços condensados num só desenho. Achou que poderia tatuar mensagens subliminares em corpos femininos esbeltos e até frases sacras nas costas de freiras. Sentia que estava perdendo o tino, que estava se apagando aos poucos. Passou a tarde inteira sem conseguir macular as páginas.

Terminado o expediente, foi para o quarto, tirou o terno e ficou pelado em frente ao espelho. Viu a triste figura que se mostrava a si mesmo, que envergonhava a todos. Triste figura, deve ter pensado. Tomou banho vagarosamente, esfregando cada parte do corpo curvado, do corpo magro e sem graça. Saiu respingando pela casa sem se preocupar com possíveis reclamações. Morar só tem suas vantagens, deve ter pensado. Vestiu uma roupa qualquer, dessas que a gente veste por conveniência, só para ficar em casa de bobeira. Sentou na beira da cama e ficou inerte. Sem inspiração. Tentou dormir, mas não conseguia. Sentia que precisava expressar alguma dúvida, alguma suspeita. Rolou na cama por uma, duas horas. Voltou à sala de desenhos e tentou rabiscar qualquer cousa que fosse – e nem cobraria pelas horas extras de trabalho. Não conseguiu. De novo.

Frustrado, voltou ao quarto. Sentou na beira da cama mais uma vez. Sentiu então um estalo na nuca. Ah, era a inspiração. Ela deve chegar em breve, deve ter pensado. E realmente chegou. Ah, então é essa a inspiração? Ele ficou tímido diante dela, não havia como não ficar. Conversou sobre isso e aquilo, sobre o que queria desenhar. Revelou segredos e deixou transparecer alguns sentimentos, mostrou figuras de sua imaginação e projetou na parede alguns de seus sonhos preto e branco. A inspiração ficou ouvindo tudo e conversando reciprocamente. E ele sem perceber as reais intenções dela. Uma indireta, e então ele voltou à sala de trabalho. Pegou a inspiração pela mão e fez dela um desenho bonito, prazeroso, ruidoso. Fez do deserto um oásis, do concreto um jardim e de um ósculo um universo em versos não declamados. Ficou satisfeito pela primeira vez.

Não precisou acordar na manhã seguinte para trabalhar, pois havia sido demitido. A inspiração havia ido, e ele ficou murcho de novo. Quebrou a ponta dos lápis, manchou as paredes com as tintas e fez origami com as páginas em branco. A sala de trabalho, o quarto, um caos. Prendia a respiração para segurar a angústia ou a saudade de algo ainda novo, pouco conhecido. Não adianta, deve ter pensado. E não adianta mesmo.

Ele sabia que desde o início não havia mais o que desenhar, e então desistiu da vida artística.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

.XXI - o pequeno príncipe.




E foi então que apareceu a raposa:

- Boa dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.

A raposa pareceu intrigada:

- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.





Mas a raposa voltou à sua idéia.

- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.


O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:

- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!


Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

Depois ela acrescentou:

- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.

Foi o principezinho rever as rosas:

- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.

E as rosas estavam desapontadas.

- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:

- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

*antoine de saint-exupéry

*Este trecho possui definições assaz pertinentes, convincentes e - por que não? - providenciais. Queria ter eu definido cativar de maneira tão bonita. Baudrillard com certeza leu este livro.

domingo, 20 de julho de 2008

.diálogo imaginário sobre uma possível situação cotidiana que facilmente poderia virar um curta-metragem experimental.


– E então?
– Hum?
– É possível?
– Não sei.
– Tuas respostas há tempos me são curtas.
– Não há o que responder.
– Não?
– Acho que nunca houve sequer o que perguntar.
– Achas mesmo isso?
– Com certeza.
– E então?
– Comecemos de novo...
– Não entendes o que eu quero dizer?
– Não.
– É tão difícil assim tentar compreender o que quero dizer?
– Não. O difícil é identificar o que queres dizer.
– Sabes que não sou bom com as palavras.
– Ninguém é bom com as palavras.
– Pensavas diferente quando nos conhecemos.
– Isso foi há muito tempo, convenhamos...
– Não mudamos tanto assim, eu acho.
– Achas mesmo?
– Acho.
– Então não percebeste o quão mal o tempo fez para nós.
– Isso lembra a música do mar que bate nas pedras.
– A nossa vida em comum é que é curta demais para ver o estrago.
– Entendo.
– Se entendes por que insistes?
– Achei que fosse recíproco.
– Esse é o teu problema: achas demais.
– Eu não tenho tantas certezas como tu tens, ma/////
– Mas nada! Aprende a decidir!
– ...
– ...

Um silêncio incomensurável tomou conta da cozinha. As xícaras dispostas sobre a mesa de vidro, o açúcar derramado, as colheres manchadas. O pequeno cesto de flores de plástico tentava colorir a cena, malgrado os tons cinzas anunciados já terem tomado conta das margens. O rio estava prestes a transbordar. Na verdade, ele estava prestes a secar.

– E como vai ser agora?
– Não sei.
– Depois eu que tenho dúvidas demais...
– Não é assim que as cousas funcionam.
– Eu sei disso.
– Não parece.
– É que não suporto mais essa situação.
– E achas que eu suporto?
– Não, sei que não. Mas é que quando penso no começo de tudo...
– Tu e esse teu nostalgismo...
– Mas é que é inevitável!
Mas é que é inevitável!
– Não consigo entender o que mudou e nem quando mudou.
– Consegues ao menos enxergar o porquê?
– Não, nem isso. Para mim tudo podia ser ainda daquele jeito.
– Que jeito?
– Daquele, como no início. A gente era mais alegre.
– Talvez tenhamos nos perdido em conversas.
– Ou mesmo por não ter falado o que devíamos ter falado.
– Tu nunca falas o que deves ser dito.
– Sabes que não sou bom com as palavras.
– Mas já foste melhor com as imagens.
– Desaprendi muita cousa depois de tudo que passamos juntos.
– Desaprendeu por opção, pois nunca te forcei nada.
– Com certeza. Decepciono-me demais, eu acho.
– Concordo.
– Sabes que não consigo ser mais o que eu era, não?
– Imagino, mas não mensuro o estrago que te fiz.
– Não fizeste estrago, apenas abriste as feridas.
– Se fiz isso, é porque não te entendi o suficiente.
– Suponho que não tenhas tido o interesse de realmente me entender.
– Pouco importa, no fim. Iremos nos separar do mesmo jeito.
– Achas que um dia as cousas serão como antes?

As xícaras na mesma posição, estando apenas uma com a borda beijada pelo café. Café frio. As formigas, o açúcar, as mãos distantes, olhares distantes. Um micro-universo prestes a explodir, a condensar em si mesmo para renascer – ou pelo menos fingir isso.

– Nunca mais seremos os mesmos.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

.mitologia rasa a partir de um cotidiano de alegrias díades.


Em plena sexta-feira, o cotidiano passava ao longe. Rotina, trabalho, rotina e obrigações. Tudo muito apagado no //////////////, um ponto de fuga que sequer precisa ser riscado. Tudo muito subliminar, essencialmente subliminar. O sinal de alerta, tal qual uma bomba que – de quando em vez – saía do compasso, era o único ruído a duelar com o vento que zunia forte. Hesitação, eu diria. Até medo de ///////// que se apresentara desde o começo. O sol descolorindo tudo, o calor como detalhe assimétrico na paisagem para turista ver. Uma manhã pouco comum. O fazer tudo sempre igual ganhou contorno de uma lembrança inolvidável. Talvez tenha faltado algo que desse corpo a essa /////////////////. Talvez tenham faltado matizes para que aquele cenário se aquarelasse numa iminente – mas já sentida – saudade.

Se ////////////// parar para pensar, pouco importa. Ninguém se importa. Talvez eu, talvez alguém mais. A certeza é que existe a dúvida – e a tal excitação da dúvida, claro. Mas uma saudade só não rima, não dá samba. Talvez tenham caído //////////////// demais em momentos distintos, e num contratempo perdeu-se o instante de fazer o mesmo pedido. Há a vontade, porém? Otimismo crasso que só rende melodias /////////////////, mas que não tem cacife para competir com a ////////////////. Olha, a realidade é essa! A manhã incomum é imprescindível, indiscutivelmente imprescindível, mas falta um pouco do denodo de outrora. Faltam blandícias como o único vezo aceitável. A mão e a boca parecem querer obliterar o alvedrio do toque e do ósculo, malgrado a mente e a quase-necessidade se imporem como /////////////.

Tudo se mostrando ao longe. A sensação do trabalho, do cansaço /////////////////, a tristeza mundana. Tudo sempre igual. E na noute anterior fora diferente – como foram as outras noutes –, uma espécie de surpresa. Queria talvez que fosse mais tempo, que fosse mais próximo. Noutes iguais, mas que fazem toda a diferença. Sabe, a vontade é que o vestido fosse enlaçado pelo paletó – tal qual diz a música, mas sem o tom de fim. Tom. Fim. Jobim. ///////// ////

É querer demais, confesso. Na verdade é o que acho. Ah, e tu achas? És hilário. E quem não é? Tamanha beleza, de cerúleos olhos fechados – dous céus em miniatura que enxergam para além da estrada. O riso. Ah, o riso. Aceitas? Eu o colocaria numa moldura só para afagar os //////////// meus. Meus pensamentos, todos nas linhas tortas das mãos, embaixo das pálpebras e sob os óculos; todos eles me levaram ao mesmo labirinto. Por ser Teseu demais, deixei-me tomar por um /////////////// absurdo, quase inconseqüente.

E agora me vejo aqui, sexta-feira, longe do dia-a-dia modorrento, insosso. Vejo-me perdido. Ligeiramente muito perdido // //////// esperanças de que Ariadne teça uma camisa deveras grande para eu poder me proteger do frio depois que eu desfiar as mais sinceras lembranças rumo à saída de tal labirinto.

No fundo sei que o Minotauro já se fez mito – porém não é taumaturgo. A respiração já sentiu a mesma falta de ar. A /////////////// já sabe do suplício, do iniludível ///////////////.

Agora é esperar pelo riso lascivo. Em plena e completa sexta-feira. Esperar e achar toda a graça do mundo nos momentos mais álacres. E em /////// silêncio.