sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

.antropofagia.


Ela entrou naquele mesmo antro cuja fama Arrigo grita com desespero sincero e exagerada convicção. Nervosa e com as mãos descontroladas e com os olhos famintos e risonhos à procura das míseras diversões eletrônicas. O mesmo balcão, o mesmo excesso de álcool e a cacofonia diária de um cotidiano ordinário. Delírios nervosos, farrapos humanos. Melodia confusa, mas um ritmo bem cadenciado em seu entendimento turvo do mundo. Tudo muito opaco, embaçado.

Procurou a trilha sonora da loucura na caixa de música que ficava ao lado da mesa de sinuca. As capas dos discos eram familiarmente antigas, mas de um frescor que confundia a memória. Hesitou entre este e aquele sucesso, e acabou optando por qualquer canção que desmentisse sobre as supostas alegrias que sentira um dia. Olhou bem ao redor e viu o salão descampado, poucas mesas, luz parca e azulada, algumas pessoas salpicando a imagem da desolação. Viu num canto suas diversões eletrônicas. Passou no bar, pediu uma cerveja e foi então experimentar o riso – droga proibida naqueles tempos de escassa alacridade.

A ficha, a ansiedade e a instrução padrão:

Press start.

Meia hora de diversão barata oriunda da tecnologia subdesenvolvida movida a duplipensar. Pouco antes de perder, percebeu o quão sem graça era apertar aqueles botões, imaginar as reações programadas dos adversários ou mesmo gastar dinheiro num lugar como aquele. aspasDiversões eletrônicasaspas, falou baixo e negativamente a si mesma. Virou-se e viu o mesmo ermo sujo, feio. A música que ecoava era outra qualquer música qualquer outra qualquer música outra qualquer, outra melodia. Arrastou os pés até uma das mesas e esperou que a Mãe chegasse com o rebento.

Baixou a cabeça, tentou não pensar em nada – principalmente em sua vida pouco conveniente, pouco providencial. Acabou de beber a cerveja já quente. Fez careta, xingou qualquer besteira e fingiu indignação, pensou em frivolidades distintas e voltou a baixar a cabeça. Reparou em seus sapatos apagados, em seus passos sem expressão. Pouco tempo depois, viu os elegantes pés da Mãe cruzarem seu olhar meio-ébrio. Levantou os olhos tontos e viu o rebento no colo Dela: um pequeno universo embrulhado em roupas coloridas. Olharam-se e riram – mas dessa vez com uma alegria nostálgica, lhana e pungida. Talvez nem fosse isso, mas era o que pareceria a quem observasse aquele encontro. Mas ninguém reparou em nada. Eram tão-somente duas pessoas a se encontrarem num lugar sujo, mal-iluminado e pouco convidativo. Até mesmo Ele poderia ter se esquecido delas naquele instante.

- Vamos fingir que não existimos. Essa é nossa celebração. Uma bizarra celebração.

- Este é nosso pequeno universo. O nosso big bang particular – e que ao mesmo tempo tem um quê de popular, de terceirizado.

- Entendo bem isso. Mas o que podemos fazer é isso mesmo: fingir e celebrar. Não é a vida uma grande farsa comemorativa?

Calaram-se e olharam para o rebento, para o pequeno no colo materno. Estavam certas das alegrias da festa em conjunto.

aspasO primeiro pedaço é teuaspas, disse ela à Mãe com certo galanteio.

- Eu sei.


A alegoria sentimental foi feita num último olhar. Mãe e rebento e ela. Diversões eletrônicas, melodias arcaicas. Puro proselitismo sentimental, mas ainda lhano. Numa mordida o universo se expandiu até o limite, pouco antes de o buraco negro iluminar as lembranças remanescentes que tão-logo seriam engolidas pelo esquecimento. As únicas lembranças que sobraram.