sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

.carro do ano.



Prendeu os perfumes em fios com jeito pueril, e com o presente de amigo oculto do ano passado. Um e noventa e nove em meio aos seus cabelos com cheiro de propaganda. Olhou-me ainda uma vez antes de desafiar todas as minhas injúrias, todos os meus pedidos disfarçados de ameaças. Deixou no ar o cheiro de um cotidiano trincado, uma palavra suave aqui e acolá. Levou os presentes de casamento, poucas roupas e todas as fotos em que sorria ao meu lado. Levou também o gato Pardo, um bichano temperamental.

Balançou a cabeça negativamente e, de leve, lamentou – pelo menos assim interpretrei. Sem virar o olhar, disse que voltaria para pegar o restante da mudança. Disse também que eu poderia ficar na casa até encontrar um novo lugar. Argumentei qualquer cousa em troca de um entendimento sadio, talvez uma reaproximação cálida, algo significativo. De soslaio ela foi seca em sua resposta, e suficientemente clara quanto às suas intenções sentimentais com relação à minha pessoa:

- Vai tomar no cu, otário!

Sentei no sofá e arqueei o corpo contra as lembranças. Folheei o jornal e achei uma kitnet barata na periferia do quintal burguês onde vivíamos. Ao menos fiquei com o Gol bola 98.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

.felicidade lisérgica.



Éramos três sujeitos perturbados, e no alto da nossa loucura lisérgica vestíamo-nos como os personagens de um clipe qualquer de um poperô – também – qualquer. Bregas, coloridos e sem qualquer resquício de bom-senso. Saíamos os três em busca de drogas e de alguma bebida capaz de nos anestesiar contra os olhares carolas dos outros e contra as quedas.

Era sempre a mesma loucura no fim dos conhecidos dias úteis – que na verdade nos eram inúteis, estando a única utilidade no fato de, ocupando-nos neles, conseguirmos dinheiro para financiar as nossas drogas. Drogas falsas, misturadas e de origem estupidamente duvidosa. Não ligávamos muito para isso. Nosso alvo era sempre o ego de cada um, sem mesuras ou comedimentos. Exagerávamos para poder usar os excessos como desculpa.

Beltrano era o mais exaltado, o mais necessitado, o mais desiludido – e o que sempre pagava um pouco mais para poder exagerar nas doses. E quase sempre Cicrano se irritava com esse egoísmo químico de Beltrano. Eu, Fulano molambo que sou, nem ligava. Deixava tudo descer calmamente e, num repuxar de boca acompanhado de um trincar de dentes, saía daquele convívio conflituoso entre os dous. Eu bem sabia que o meu problema era comigo mesmo, e o Fauno que criei para criar as charadas e desafios sempre estava de folga.

Beltrano era o mais velho, e o mais imbecil. Quase sempre no fim das noutes ele conseguia um modo de irritar algum conhecido nosso, e o fazia pelo prazer de ter de se desculpar num outro dia qualquer. Cicrano era o mais talentoso, o mais queridinho das putas que conhecíamos pela madrugada – talvez por sua ingenuidade calculada ou por sua generosidade suspeita. Eu, Fulano misantropo que sou, deixava sempre as piores impressões pelo meu mau-humor, pelo meu autismo não diagnosticado. Eu me orgulhava, no fundo, de não apertar a mão de ninguém quando eu estava perturbado ou tampouco encara alguém nos olhos. Achava isso engraçado.

Conhecemo-nos no trabalho mesquinho e vagabundo que exercíamos. Fizemos faculdades diferentes, tivemos formações diferentes, mas acabamos nos esbarrando na mesma profissão meia-boca. Reclamávamos juntos da mesma desgraça, das moscas bicheiras e das mulheres carpideiras com beijos de hortelã e café que nos aceitaram como amantes. Os andaimes que construíamos diariamente não nos davam sensações de príncipe ou de nos acharmos o máximo. Caíamos da mesma altura exígua para os ferimentos mais profundos. Calávamos sempre ao meio dia com a boca cheia de feijão, e mastigávamos a nossa existência chinfrim com o mesmo orgulho do padre que se exaspera num sermão.

Agora percebo o quão distante chegamos com todos esses excessos. Os olhos revirados de Cicrano contrastavam com o riso amarelo de Beltrano – que insistia em se misturar com a baba e com o vômito e com o sangue. Eu fazia uma força descomunal para virar a cabeça e tentar entender como aquilo aconteceu. As mesas não estavam tão bem dispostas, e as garrafas pareciam demasiado descosturadas pelo chão. Uns tantos pés se aglomeravam ao nosso redor. Um burburinho, uma conversa descontrolada ecoando no fundo da cabeça. Piscar os olhos era difícil naquele momento, e a cada piscadela uma eternidade se passava. Alguém se aproveitou desse relapso e me deu um belo chute na boca. E eu, Fulano humano que sou, chorei baixinho em meio a risos sardônicos – só para não cobrir o som das sirenes que em coro se anunciavam para nós no raiar do dia.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

.anódino busílis.



Cena I: olhando para uma foto das mãos dela, olhos chorosos e com o corpo curvado em sua própria insignificância.

Eu não acho injusto que sejas feliz, que exibas o mesmo sorriso que me cativou a outros. Não vejo porque não guardares as lembranças nossas mais agradáveis, menos problemáticas ou insossas. É justo, não? Necessário, eu diria num otimismo peculiar e, a ti, estranho. Respeito, contudo, essa tua vontade de fazer questão de me obliterar do teu álbum de recordações, de rasgar as fotos, de queimar missivas e livretos de um tempo em que eu era demasiado piegas e criativo. Acho que exacerbas o teu modo incomum de ver o mundo - mundo este que, no alto de nosso sentimentalismo juvenil, dizíamos um ao outro que o desvendaríamos juntos.


Cena II: em frente a uma folha em branco com um lápis na mão, ar de arrependimento e com a auto-estima retalhada numa colcha de incertezas.

Montamos todo um palco para as encenações, para as nossas conversas. Eu lembro bem de como era ouvir música contigo: mais pele, mais suor e a mais intimista melodia que as mãos podem tocar. Hoje admito o quão imprudente eu fui ao arriscar seguir parte do caminho sozinho. Eu bem lembrava que ela – a primogênita saudade, lhana e risonha – havia me feito queimar meus navios, fazer tantos desvarios e perder o rumo das linhas tortas cujas letras garrafais de Deus estão impressas. Não é culpa tua, admito. Achei que, pelo menos um pouco, pudesses suportar tal sofrimento.


Cena III: já envolto pelas cartas dela, aos poucos inuma cada riso presente nas fotos, e admoesta a própria memória para ficar atenta na edição de tal episódio.

Hoje sei que segues outra estrada, que já experimentaste outras palavras e outras torturas. Sei que apostaste o quão sofrido seria o meu percurso, e até consigo me alegrar com a tua vitória. Não me viste chorando – meu orgulho –, leste o que não devia – e me envergonho – e esqueceste o primordial – e isso me tortura. Nosso feérico descobrir, teus amavios sutis: tudo borrado num quadro azul. Deixa quieto, pois bem sei que meu coração de malandro ingênuo é que é misoneísta demais.


Cena IV: caminhando a passos lentos na rua, com a carta no bolso da calça e chutando uma ou outra explicação inefável não psicografada na missiva agora selada.

Quis eu destilar certa dose de indiferença só para provar qualquer cousa à inicial saudade – mesmo que ela sequer imaginasse tal asneira. Emulação sentimental cretina, confesso. Deveria eu ter aproveitado as blandícias tuas, devia eu ter delido as saudades passadas e ter me concentrado em tua geometria, em tua matemática imprecisa. Certo, estou sendo dramático demais.

Corta para as mãos balançando e para a carta caindo. Carta em primeiro plano, e os pés ao longe enquanto uma terceira mão pega o envelope e sai de cena.

Mas esse drama não quer me deixar, gangrena meus instintos e me fecha a novas sendas. Putativo me tornei no que tange aos sentimentos, e confessar isso me embrulha o estômago. É uma sânie difícil de encarar, mas a aceito por saber a origem da queda que me abriu os joelhos.


Cena V: sentado num banco em praça pública, sol a pino, mãos sobre as pernas – tique nervoso das unhas – e a certeza de ser motivo de riso.

Eu devia ter me importado pouco, ter feito pouco caso. Eu devia ter esquecido de uma vez, absorvido todas as drogas disponíveis, ter dopado minha memória com pornografia da mais singela, ter tentado outras dores. Eu devia, e mal sabia que meu crédito era suficiente para cobrir tal disparate. Eu devia ter enviado o último livreto – tão singelo e sincero e atemporal. Queria eu ter depurado essa tua ojeriza e feito com que me aceitasse capadócio como o sou agora. Poderia eu ter me esforçado para te convencer do contrário sobre qualquer má impressão que deixei como espólio sentimental.

Corta para a cara de incredulidade quando uma evangélica de saia preta e cabelos longos e com o rosto avermelhado e com manchas de suor sob os braços entrega um jornal evangélico.

Hoje sei bem o quanto ferem certos tempos verbais.


Cena Final: acordando com dor de cabeça, sofrendo delírios esparsos e cansado de todo o peso de uma vitória que não tem valor algum.

Vê? A cortina continua lá, e o espetáculo tão quisto e esperado atrasou. Vendamos nossas entradas aos cambistas. Eles são os únicos que sabem o real valor da nossa finada relação.

Corta para, de longe, mostrar o ato de fechar duas gavetas.


Observação: o público timidamente aplaude tudo em pleno meio-dia de sábado, e segue ruidoso no calor. De noute uns comentam o ridículo do sentir do tímido doxômano. Outros tantos fingem em versos alguma emoção. O aconselhável, claro, é ignorar.