quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

.anódino busílis.



Cena I: olhando para uma foto das mãos dela, olhos chorosos e com o corpo curvado em sua própria insignificância.

Eu não acho injusto que sejas feliz, que exibas o mesmo sorriso que me cativou a outros. Não vejo porque não guardares as lembranças nossas mais agradáveis, menos problemáticas ou insossas. É justo, não? Necessário, eu diria num otimismo peculiar e, a ti, estranho. Respeito, contudo, essa tua vontade de fazer questão de me obliterar do teu álbum de recordações, de rasgar as fotos, de queimar missivas e livretos de um tempo em que eu era demasiado piegas e criativo. Acho que exacerbas o teu modo incomum de ver o mundo - mundo este que, no alto de nosso sentimentalismo juvenil, dizíamos um ao outro que o desvendaríamos juntos.


Cena II: em frente a uma folha em branco com um lápis na mão, ar de arrependimento e com a auto-estima retalhada numa colcha de incertezas.

Montamos todo um palco para as encenações, para as nossas conversas. Eu lembro bem de como era ouvir música contigo: mais pele, mais suor e a mais intimista melodia que as mãos podem tocar. Hoje admito o quão imprudente eu fui ao arriscar seguir parte do caminho sozinho. Eu bem lembrava que ela – a primogênita saudade, lhana e risonha – havia me feito queimar meus navios, fazer tantos desvarios e perder o rumo das linhas tortas cujas letras garrafais de Deus estão impressas. Não é culpa tua, admito. Achei que, pelo menos um pouco, pudesses suportar tal sofrimento.


Cena III: já envolto pelas cartas dela, aos poucos inuma cada riso presente nas fotos, e admoesta a própria memória para ficar atenta na edição de tal episódio.

Hoje sei que segues outra estrada, que já experimentaste outras palavras e outras torturas. Sei que apostaste o quão sofrido seria o meu percurso, e até consigo me alegrar com a tua vitória. Não me viste chorando – meu orgulho –, leste o que não devia – e me envergonho – e esqueceste o primordial – e isso me tortura. Nosso feérico descobrir, teus amavios sutis: tudo borrado num quadro azul. Deixa quieto, pois bem sei que meu coração de malandro ingênuo é que é misoneísta demais.


Cena IV: caminhando a passos lentos na rua, com a carta no bolso da calça e chutando uma ou outra explicação inefável não psicografada na missiva agora selada.

Quis eu destilar certa dose de indiferença só para provar qualquer cousa à inicial saudade – mesmo que ela sequer imaginasse tal asneira. Emulação sentimental cretina, confesso. Deveria eu ter aproveitado as blandícias tuas, devia eu ter delido as saudades passadas e ter me concentrado em tua geometria, em tua matemática imprecisa. Certo, estou sendo dramático demais.

Corta para as mãos balançando e para a carta caindo. Carta em primeiro plano, e os pés ao longe enquanto uma terceira mão pega o envelope e sai de cena.

Mas esse drama não quer me deixar, gangrena meus instintos e me fecha a novas sendas. Putativo me tornei no que tange aos sentimentos, e confessar isso me embrulha o estômago. É uma sânie difícil de encarar, mas a aceito por saber a origem da queda que me abriu os joelhos.


Cena V: sentado num banco em praça pública, sol a pino, mãos sobre as pernas – tique nervoso das unhas – e a certeza de ser motivo de riso.

Eu devia ter me importado pouco, ter feito pouco caso. Eu devia ter esquecido de uma vez, absorvido todas as drogas disponíveis, ter dopado minha memória com pornografia da mais singela, ter tentado outras dores. Eu devia, e mal sabia que meu crédito era suficiente para cobrir tal disparate. Eu devia ter enviado o último livreto – tão singelo e sincero e atemporal. Queria eu ter depurado essa tua ojeriza e feito com que me aceitasse capadócio como o sou agora. Poderia eu ter me esforçado para te convencer do contrário sobre qualquer má impressão que deixei como espólio sentimental.

Corta para a cara de incredulidade quando uma evangélica de saia preta e cabelos longos e com o rosto avermelhado e com manchas de suor sob os braços entrega um jornal evangélico.

Hoje sei bem o quanto ferem certos tempos verbais.


Cena Final: acordando com dor de cabeça, sofrendo delírios esparsos e cansado de todo o peso de uma vitória que não tem valor algum.

Vê? A cortina continua lá, e o espetáculo tão quisto e esperado atrasou. Vendamos nossas entradas aos cambistas. Eles são os únicos que sabem o real valor da nossa finada relação.

Corta para, de longe, mostrar o ato de fechar duas gavetas.


Observação: o público timidamente aplaude tudo em pleno meio-dia de sábado, e segue ruidoso no calor. De noute uns comentam o ridículo do sentir do tímido doxômano. Outros tantos fingem em versos alguma emoção. O aconselhável, claro, é ignorar.

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