sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

.carro do ano.



Prendeu os perfumes em fios com jeito pueril, e com o presente de amigo oculto do ano passado. Um e noventa e nove em meio aos seus cabelos com cheiro de propaganda. Olhou-me ainda uma vez antes de desafiar todas as minhas injúrias, todos os meus pedidos disfarçados de ameaças. Deixou no ar o cheiro de um cotidiano trincado, uma palavra suave aqui e acolá. Levou os presentes de casamento, poucas roupas e todas as fotos em que sorria ao meu lado. Levou também o gato Pardo, um bichano temperamental.

Balançou a cabeça negativamente e, de leve, lamentou – pelo menos assim interpretrei. Sem virar o olhar, disse que voltaria para pegar o restante da mudança. Disse também que eu poderia ficar na casa até encontrar um novo lugar. Argumentei qualquer cousa em troca de um entendimento sadio, talvez uma reaproximação cálida, algo significativo. De soslaio ela foi seca em sua resposta, e suficientemente clara quanto às suas intenções sentimentais com relação à minha pessoa:

- Vai tomar no cu, otário!

Sentei no sofá e arqueei o corpo contra as lembranças. Folheei o jornal e achei uma kitnet barata na periferia do quintal burguês onde vivíamos. Ao menos fiquei com o Gol bola 98.

2 comentários:

Alfaia disse...

"mas fico com o disco do Pixinguinha sim, o resto é seu"

é na troca de miúdos que saem as piores verdades.



[e o template ficou foda]
[e o endereço, muito mais fácil pra digitar] ,)

Isa disse...

ai ai ai...

os términos...

"perfumes em fios..."

lindo vc nessa dança da escrita

bjo vizinho que não fala comigo...