segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

.felicidade lisérgica.



Éramos três sujeitos perturbados, e no alto da nossa loucura lisérgica vestíamo-nos como os personagens de um clipe qualquer de um poperô – também – qualquer. Bregas, coloridos e sem qualquer resquício de bom-senso. Saíamos os três em busca de drogas e de alguma bebida capaz de nos anestesiar contra os olhares carolas dos outros e contra as quedas.

Era sempre a mesma loucura no fim dos conhecidos dias úteis – que na verdade nos eram inúteis, estando a única utilidade no fato de, ocupando-nos neles, conseguirmos dinheiro para financiar as nossas drogas. Drogas falsas, misturadas e de origem estupidamente duvidosa. Não ligávamos muito para isso. Nosso alvo era sempre o ego de cada um, sem mesuras ou comedimentos. Exagerávamos para poder usar os excessos como desculpa.

Beltrano era o mais exaltado, o mais necessitado, o mais desiludido – e o que sempre pagava um pouco mais para poder exagerar nas doses. E quase sempre Cicrano se irritava com esse egoísmo químico de Beltrano. Eu, Fulano molambo que sou, nem ligava. Deixava tudo descer calmamente e, num repuxar de boca acompanhado de um trincar de dentes, saía daquele convívio conflituoso entre os dous. Eu bem sabia que o meu problema era comigo mesmo, e o Fauno que criei para criar as charadas e desafios sempre estava de folga.

Beltrano era o mais velho, e o mais imbecil. Quase sempre no fim das noutes ele conseguia um modo de irritar algum conhecido nosso, e o fazia pelo prazer de ter de se desculpar num outro dia qualquer. Cicrano era o mais talentoso, o mais queridinho das putas que conhecíamos pela madrugada – talvez por sua ingenuidade calculada ou por sua generosidade suspeita. Eu, Fulano misantropo que sou, deixava sempre as piores impressões pelo meu mau-humor, pelo meu autismo não diagnosticado. Eu me orgulhava, no fundo, de não apertar a mão de ninguém quando eu estava perturbado ou tampouco encara alguém nos olhos. Achava isso engraçado.

Conhecemo-nos no trabalho mesquinho e vagabundo que exercíamos. Fizemos faculdades diferentes, tivemos formações diferentes, mas acabamos nos esbarrando na mesma profissão meia-boca. Reclamávamos juntos da mesma desgraça, das moscas bicheiras e das mulheres carpideiras com beijos de hortelã e café que nos aceitaram como amantes. Os andaimes que construíamos diariamente não nos davam sensações de príncipe ou de nos acharmos o máximo. Caíamos da mesma altura exígua para os ferimentos mais profundos. Calávamos sempre ao meio dia com a boca cheia de feijão, e mastigávamos a nossa existência chinfrim com o mesmo orgulho do padre que se exaspera num sermão.

Agora percebo o quão distante chegamos com todos esses excessos. Os olhos revirados de Cicrano contrastavam com o riso amarelo de Beltrano – que insistia em se misturar com a baba e com o vômito e com o sangue. Eu fazia uma força descomunal para virar a cabeça e tentar entender como aquilo aconteceu. As mesas não estavam tão bem dispostas, e as garrafas pareciam demasiado descosturadas pelo chão. Uns tantos pés se aglomeravam ao nosso redor. Um burburinho, uma conversa descontrolada ecoando no fundo da cabeça. Piscar os olhos era difícil naquele momento, e a cada piscadela uma eternidade se passava. Alguém se aproveitou desse relapso e me deu um belo chute na boca. E eu, Fulano humano que sou, chorei baixinho em meio a risos sardônicos – só para não cobrir o som das sirenes que em coro se anunciavam para nós no raiar do dia.

Nenhum comentário: