quarta-feira, 26 de março de 2008

.a vez primeira.


Não ouvia nada além daquela voz batendo na nuca. A lente embaçava a visão perturbadora do corpo nu, sensual e calipígio. Os vaticínios mais positivos indicavam uma aproximação mais ousada, uns olhares mais maliciosos. Talvez fosse só uma impressão mal interpretada da situação. Talvez fosse covardia mal disfarçada, ou algo do gênero. Mas não, não ouvia nada além daquela voz batendo na nuca, atordoando qualquer intenção mais sentimental.

A voz insistia num chamado de sereia do deserto. Um assobio suave, agulha no ouvido, prego na retina, farpas embaixo da unha, garfo arranhando prato, música dodecafônica em plena missa de domingo. O mundo girava tal qual um carrossel sem música delicada, sem a diversão e as luzes do circo. Não, não. Aquilo era um circo, mas sem as graças do palhaço ou as piruetas do malabarista. Mas a vontade era a mesma: acabar a noute num riso gostoso, fazer valer o dinheiro do ingresso. O espetáculo tinha que continuar – na verdade, ele tinha de começar.

Sem muita paciência a mão puxou o corpo trêmulo. Um sôfrego beijo, uma mão aqui e outra acolá. Roupas ao chão, por favor. Não era como nos filmes, é preciso dizer. A psicodelia lasciva vinha em notas agudas, em palavrões e em tudo o que a eucaristia não ensina.

Um tempo depois, a respiração avexada e um tímido riso denunciavam a satisfação. Virou de lado e imaginou maravilhas num país que não era no qual vivia. Viu quando o corpo ganhou as roupas cafonas e bregas como argumento semiótico. Pegou o dinheiro e pagou pelo tal riso gostoso. Prometeu ligar de novo. Ficou um tempo mais olhando e lembrando do universo que aos poucos se expandia.

Quebrou o espelho dentro do peito, e com os estilhaços fez marcas na memória. As cicatrizes mais bonitas que a dor poderia dar. E saiu do motel com o intuito de seguir a vida – mesmo sabendo que o caminho havia sido mudado. Pensou em seguir novas placas. Calou a boca, porém, e se deixou seguir para o cotidiano cantado há tempos.