quinta-feira, 3 de abril de 2008

.aula de piano.


Arrastou os pés pela calçada preguiçosamente, sem vontade. Manchou dous horizontes apaixonados num ritmo bossa-jazz de botequim, ambos longínquos e assimétricos. Os olhos tristes murchavam a cada pensamento indevido que a lembrança insistia em regurgitar em sua bula emocional. Ele sabia que suas memórias não tinham apelo comercial, que não ganharia uma biografia assinada e que não teria seu nome incluso como um proeminente sujeito numa história qualquer. Parou por um momento, olhou o logradouro na palma da mão, viu as letras dançarem num ritmo-tinta azul deveras pungente. Não fez sequer esforço para decorar o número. Queria mesmo há tempos se perder – tal qual qualquer resquício de esperança.

O sol latia alto, e os pensamentos famintos já agonizavam: ficavam turvos, mentiam, eram pornográficos, beijavam-se e uniam-se a memórias indesejadas. Parou com as mãos sobre o rosto, e esperou a loucura sedimentar no poço de obviedades que trazia consigo. Foi então que a mão direita começou a solar no ar, e a esquerda fazia a cozinha. Os pés sambavam na poeira. A roupa colada ao corpo sufocava, e fazia a música soar mais necessária, mais urgente. Cada vez que o vento lambia a sua nuca a certeza de a música estar fora do tom surgia. Uma, duas, três, cinco e outo vezes foram necessárias para que a mão esquerda parasse. Os pés voltaram a ser tímidos nas sandálias de couro, e então quis a rachar a coragem que restava – só para desistir com algum mérito.

Não havia passado nem cinco minutos desde que decidira abandonar aquela vida medíocre.

Na porta da casa, com as rugas de uma vida a dous, a mulher não entendia a cena, e sentia o corpo robusto aos poucos se esfarelar. Pendia ela a cabeça para o lado, tal qual um cachorro que ouve algo estranho-familiar. Sentiu-se reticências por um momento e, ao ouvir o apito da panela de pressão, deu um riso: estava livre para ser o aposto que tanto queria. Estava livre para significar o que quer que fosse a quem quer que fosse. Queria ler o próprio corpo – há tempos esquecido na estante do cotidiano homem-mulher. Ler-se sem ter de respeitar pausas ou respiração. Ler-se sem ter de imaginar tons ou escala pentatônica. Ler-se em braile num ritmo alucinado: peitos, pernas e ventre abandonado. Teve um infarto de tanto prazer.

Voltou a olhar para trás, só para ter certeza que conseguiria abandonar tudo aquilo que construiu ao longo da vida. Não viu a mulher na porta – ela já havia ido ler-se a si mesma. Calculou errado adrede os anos de trabalho e de privações e de ilusões por achar que poderia ser o pianista que tanto desejava ser. Não sabia das partituras, das claves ou dos sustenidos, mas se derretia ao ouvir uma frase contínua de notas. O peito apertava a cada harmonia triste, e não sabia explicar à mulher a paixão que sentia pelos sons. Ao ler o jornal do dia com as notícias de ontem, viu o anúncio sobre pianos, decidiu que era o momento de zarpar.

Colocou a melhor roupa, a melhor sandália de couro, penteou os cabelos, fez a barba. Tomou um copo modesto de café, respirou fundo e se levantou da mesa de quatro cadeiras quitada a muito custo. Beijou a mulher na testa, pegou no sofá os vinis que comprara para impressionar os vizinhos e amigos de família. Saiu em câmera lenta da casa alugada. Cada passo fez uma fissura no jardim sem graça que a mulher cultivava. O coração batia em notas fantasmas, e ele duvidou que pudesse mesmo executar seu desiderato.

Com muito esforço chegou na porta da escola de música. Não havia mais vagas para iniciantes ou qualquer tipo de interessado em aprender a digitar teclas com sons. Atônito, desconheceu-se num corpo estranho: virou semifusa na trilha sonora de sua vida preto e branco. Vida esta exibida como produção independente no cinema mudo de uma ONG musical.

2 comentários:

Isa disse...

toquei piano...

por dois anos,mas toquei...

ele está até hj la na minha casa, para os cupins...

mas eu ainda toco, um pouco, mas toco...

Alfaia disse...

essa tua ironia é que 'mata', viu!

:)