quarta-feira, 9 de abril de 2008

.backup.


Tentei dar um print screen da minha infância e colar no desktop da minha juventude junkie, mas alguém me surgiu como janela e avisou sonoramente: aspasAcorda, meu filho. Acorda ou você vai ser infectado!aspas. E eu só podia concordar: aspasOquei, eu sei dissoaspas. Em outros momentos eu até tentaria outras ajudas - apertaria todos os efes possíveis: foda-se, foda-se você-, foda-se todo mundo, foda-se os doze macacos; enfim, solicitaria ajuda à toda indiferença grosseira que me haviam oferecido. Mas naquele caso eu sabia que seria em vão, pois era evidente que eu estava sendo impertinente, que aquilo poderia afetar o sistema - no caso, o meu sistema perante o dos outros. Eu nem me importava mais, confesso, mas por conveniência e pelos bons modos eu me calaria. Tinha eu em mente o horário certo para os filmes errados, a faixa etária correta para os filmes lascivos.

O mais engraçado era que quando eu gritava em caixa alta para os confins binários – os mesmos confins nos quais todo mundo hoje em dia navega – ninguém se importava. Bloqueavam-me, ignoravam-me, excluíam-me. Eu passava horas jogando paciência para ver se alguma alma me enviava um terço, um e-mail ou mesmo um todo de qualquer mensagem amigável. Não, ninguém se prestava a esse favor pouco importante. Era como se alguém tivesse apertado sem prestar atenção o insert na hora errada, e toda vez que meu nome surgia – ou mesmo a lembrança dele – a palavra da vez me consumia, desfazia-me aos poucos para construir outra bem diferente – ou um sinônimo bem diferente. Não reclamo do egoísmo alheio. Não, isso seria demais para um sujeito chinfrim como eu. Eu sou egoísta também, como também o é Deus, o Diabo e todo mundo que almeja algo nessa vida de um e zero e um e zero e um e zero e pouca cousa além disso. Eu quero tudo mesmo: ser um Google da vida, aparecer no You Tube ou figurar como verbete na Wikipédia. Desejos mundanos de quem só enxerga o próprio umbigo sujo como o big bang do universo.

Com a minha juventude aos frangalhos, o que me restava era tentar salvar o que de bom se mantinha. Todos os problemas, todas as mentiras, todas as decepções, saudades nada saudáveis, frustrações sentimentais, sonhos artísticos nublados; enfim, tudo que de borrado havia em meu disco seria salvo adrede num disquete – só para eu ter a incúria proposital como desculpa para caso fosse necessário formatá-lo. Eu tentaria seguir em frente, confesso. É sempre assim: você vai passando as páginas, fechando as janelas indesejadas e ignorando os endereços que não te levam a lugar nenhum. Mas não deu mesmo: tela azul, amigo. Tela azul.

Apertei ctrl, alt e del no desespero, crente que seria uma solução fácil e providencial. O meu sistema travou, amigo, e eu estou pouco me importando com isso. Fiz um rap maneiro, tenho uma bossa no bolso e tatuei um rock emocional e hardcore no peito: o que mais posso querer? Já que estou condenado a ser formatado por algum técnico sem nível superior – e não o descrimino por isso, mas por fazer o que faz com as pessoas e pelo que fará comigo –, não mais me preocuparei com minhas memórias, com meus arquivos zero-um, com minhas imagens opacas e com o meu sem ritmo engajamento político-intelecto-sentimental.


Depois de apertar o reset e tentar mais uma vez reiniciar o sistema, o sujeito viu que não havia solução. Contentou-se em pedir um backup do técnico, mesmo sabendo que pagaria mais caro para ter seu passado zero-um salvo num único e mísero DVD.

5 comentários:

Alfaia disse...

é uma angústia que bate.
deve ser pior pra quem, um dia, extasiado com as obras que passam pela vida, decide fazer o mesmo. ou pelo menos parecido.
o problema é saber medir o tamanho do reconhecimento.
escroto pra caralho isso.

talvez você termine seus dias com um filme exibido como produção independente no cinema mudo de uma ONG musical.

(risos?)

acontece.

renata disse...

talvez você termine os seus dias como mais um "cara" da academia brasileira de letras.

paulo coelho?


¬¬



[ontem estava conversando com o cara aí de cima sobre esse teu texto, lembramos também de um outro, aquele das "essências"]

só pra dizer :)

:*

Câmera Digital disse...

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Isa disse...

e no que se pode acreditar?!!?


bjos senhor i.bê

Carlos B. Pinto disse...

Se desse para formatar e começar do zero...

Cara, texto massa!