sexta-feira, 18 de abril de 2008

.rasa epistemologia do prazer antropofágico.



Começou a roer as falanges da mão esquerda. Lambeu de leve a aliança e lembrou do verso lancinante daquela canção que fala sobre despedida. Roía vagarosamente, e guardava o bolo de pele entre os dentes de baixo e a bochecha. Chupava os restos alheios a fim de beber do suor, do sangue, de alguma essência escondida. Limpava com a língua os dentes para não perder nada, e num instante cuspia numa panela o chumaço de pele. Roía tudo de olhos fechados, e suspirava sinceramente a cada sugo que engolia.

Após cinco ou seis atos – tão apaixonadamente mecânicos – tirou toda a roupa de todo um dia de trabalho maçante e despojadamente inútil e forçosamente decente. Ficou com o corpo nu no meio da sala vazia. A sua alteridade jazia num dos cantos, e exibia um mórbido sorriso. Lentamente começou a se esfregar, como se um banho estivesse tomando. Conheceu-se progressivamente, vestindo-se de uma pele outra que não a sua.

Estava com a alma limpa, com o corpo transformado num desejo hedonista. Enquanto os chumaços de pele das falanges da mão esquerda de sua alteridade fritavam entre o alho picado junto ao o sal e ao óleo, exibia a quem refletia diante do espelho a tatuagem de Dionísio no braço que fizera na adolescência. Viu-se como um encadeamento poético, uma ponte entre os versos e entre os sentidos ubíquos das palavras inanes. Sentia que podia concatenar sutilmente qualquer rima vagabunda.

Depois de dourada a pele, jogou o arroz devidamente lavado e um copo de água. Esperou o tempo suficiente para estender no meio da sala uma toalha e sobre ela dispor dous pratos, dous talheres, dous copos e dous guardanapos. Serviu-se sem cerimônias – e despejou duas colheradas satisfatórias no prato outro –, e comeu a comida com a fumaça-sabor temperando a boca. De olhos fechados, sentiu o corpo nu regojizar por causa da refeição feérica.

Bebeu do copo vazio, usou do guardanapo. Espreguiçou-se e fingiu bocejo ou qualquer motivo para – supostamente – sonhar. Deitou ao lado do corpo no canto da sala, enlaçando a inércia alheia com todo o carinho que podia expressar naquele instante. Sentiu a lascívia morna entre os dous corpos. Perguntou o motivo de não ter mexido na comida, e aos poucos fechou os olhos para enfim ter um álibi para qualquer incômodo que pudesse vir a ter.

4 comentários:

Alfaia disse...

- você nem tocou na comida, amor.

daria um curta dos grandes!

isso me lembrou 'um cão andaluz' misturado com 'sin city', quaisquer outras coisas com dedo do tarantino e uma pitada de filme B de horror.

tá, tá.
calei a boca.

Borba disse...

Cacete, ia fazer o mesmo comentário acima, da parte de Un Chien Analuz.

Ou passou a sensação correta, ou eu estou muito acostumado a pensar como o Alfaia.

Borba disse...

Acho que a imagem ajudou bastante, também.

Altamente Coisativo disse...

Eu queria ser você....
Mas numa versão masculina, é claro