quinta-feira, 1 de maio de 2008

.relato de um poliglota olfativo prestes a perder os rumos da situação.


Estávamos em uma outra estação, com os dentes rangendo e com os olhos virados – como quem procurar, num lapso, olhara a própria nuca. Auto-soslaio duvidoso, descrente da própria visão. Eu estava no banco de trás com dous corpos inertes pela loucura branca, pela famigerada bolivian flu. Poliglotas nasais que somos, queríamos mais daquele linguajar olfativo e atordoante. Estávamos em uma outra estação, eu continuo, e meu pensamento já nem em mim está: vai parar num outdoor, vira estampa na camisa do malabarista de semáforo – o espetáculo da pobreza em trinta segundos, em um minuto –, corre solto pela calçada e cai no colo dela, a loura de calça justa demais e seios decotados. Paraliso meu olhar e, tal qual um scanner, copio a lascívia dela para minhas lembranças degeneradas. Imagino o vazio do quadril dela, o decote aberto, a boca semi-aberta, os olhos semi-cerrados, e todo o corpo nu em cima de uma cama com lençol cujas estampas – cactos e mais cactos – diziam sobre a possível relação que poderíamos ter depois da próxima sessão olfativa. Desvio o olhar ao perceber a observação médica – quase cirúrgica – que o que o segundo corpo faz de mim – segundo corpo este com seios tão decotados quando os dela e com o mesmo vazio num quadril mais robusto e tatuado. Volto a ranger os dentes e a revirar os olhos tentando ver meu reflexo na janela. A nossa apatia coletiva tinha de continuar até o bairro onde pegaríamos mais daquele alvo e amaro perfume estrangeiro.

Os risos começaram a se alterar – mas só alguns, os que insistiam em buscar graça no banheiro, nos quartos e na sacada. Um ou outro convidado já havia percebido a movimentação escusa. Eu já estava rindo um pouco mais, mas não cumprimentava os retardatários e tampouco trocava o disco de jazz que insistia em repetir o mesmo contratempo. Eu exibia os quadros, as revistas, as fitas e os vinis raros. Abraçava o corpo dela e deixava o nariz escorrer até ela sentir o frio viscoso no pescoço e me empurrar me chamando de nojento – o que naquele momento equivalia, para mim, um digno e tardio Eu te amo. Depois de alguns goles a mais, fui ao banheiro jogar um pouco de água no rosto. Olhei-me no espelho e não me reconheci. Não, não era eu aquele sujeito sui generis de festa burguesa. Não, eu não me reconhecia naquela respiração desesperada, naquele olhar nervoso, perdido.

Bateram na porta.

Insisti na vã tentativa de me reconhecer. Insistiram na batida. Apertei o botão e vi lentamente o redemoinho levar um pouco de sangue, de merda, vômito e papel. Respirei fundo e me preparei para a proposta alheia, já anunciando que eu não iria dirigir, malgrado eu contribuir com dinheiro e esperança de um mundo mais fraterno e igualitário.

A festa havia começado oficialmente às nove, mas com os já previstos atrasos. A música ambiente dava ao lugar um clima nonsense, um ar de intelectualismo cinematográfico. As beldades aos poucos chegavam. Exibiam as pernas, os seios decotados, os lábios sangrando, e um ontem no olhar. Poderia tudo isso ser mais ou menos assim, ou poderia também ser apenas uma divagação minha entorpecida pela fumaça dos cigarros alheios. Eu estava sentado no sofá e fingia folhear uma revista. As pessoas passavam e me cumprimentavam, apertavam a minha mão e se curvavam para me abraçar ou oscular o rosto. Aos poucos os rostos começaram a ficar menos opacos, e a memória começava a regurgitar as lembranças mais fugazes, mais chinfrins. Todo mundo como uma ilha no meio do meu oceano de imagens e sons e orgias sentimentais. Eu me lembro dessas coxas. Eu me lembro dessa tatuagem. Eu me lembro muito bem desses seios decotados. Meus pensamentos tentavam me enganar, e a minha oblíqua memória de jornalista em fim de carreira comprometia a minha atuação social.

Acordei com a mesma impressão de ter vivido o dia de ontem. Abri os olhos preguiçosamente, e meio caolho invoquei com um suspiro o cotidiano, a mesmice, o marasmo infrutífero que a minha vidinha de merda suscitava a todo momento. Tantos anos para quê? Para me orgulhar? Deixar para a posteridade alguma cousa significativa? Espreguicei o corpo com vontade, e enrosquei meus pés nos pés dela e de leve dei um beijo no pescoço e falei que o fim do mundo estava próximo. Ela pediu cinco minutos como sempre. E antes que pudéssemos contabilizar a nossa pequena eternidade, os alicerces do nosso prédio foram ao chão. Estávamos prontos para amanhecer mais uma vez.

Um comentário:

Alfaia disse...

poliglota olfativo é um ótimo eufemismo pra...
enfim.

boas descrições, como sempre.