quarta-feira, 28 de maio de 2008

.a nossa sala de jantar.


A felicidade era uma psicodelia comportada em nossas mentes demasiado cartesianas. Contentávamo-nos com pouca cousa, com olhares fugidios, soslaios. Eu mesmo colecionava cílios, e garanto que tal virtude me alegrava o coração de uma maneira inefável. Ter um pouco do outro, ter um pouco. Eu os furtava das lentes alheias. Ninguém se importava, e alguns até achavam que era algo necessário para conter a nossa cegueira aparente. Eu os guardava em envelopes, e dentro destes escrevia – em letras garrafais – um salmo qualquer. Eu alimentava aminha fé assim, num conta-gotas literário e ilegítimo. Eu pedia a Deus e ao Diabo para que nos protegessem.

Nosso jantar era ambientado pela luz natural que rasgava as janelas – e ganhava matizes diferentes quando queimávamos uns livros para nos aquecer. O cheiro de palavras atiçava o paladar, e os olhos comiam as frases que esvaeciam no ar. A sala de jantar se enchia com a nossa sincera preocupação de nascer e morrer. O mastigar ia além do ranger dos dentes. Ruminávamos lembranças, sentimentos, medos e afins. A saliva amarga de um cotidiano descolorido era um estímulo às nossas melodias convencionais. E sempre cochilávamos depois de saciar a nossa sincera preocupação de nascer e morrer.

O deserto alvo e gelado parecia querer nos engolir, e o frio nos tatuava com odores e dores, mas fazia com que nos abraçássemos apesar das divergências evidentes. Virávamos livro e palavra, libido e beijo, fratura exposta e dor. Suportávamos tudo isso e aquilo lá sempre com um riso no rosto, olhares confiantes e sinceros. As melodias mudavam de quando em vez, mas o tom sacro da nossa orgia ecoava pela imensidão de nossa igreja vazia. Éramos espécies de sermões inócuos, mas claramente valiosos.

O jardim florido de flores imaginárias era um souvenir para nossos gostos inescrupulosos. O lago era apenas um capricho a mais para nossos egos: de terra, seco, inerte, moribundo. Eu sempre o olhava logo cedo para adivinhar qualquer cousa nos perdigotos que o sol borrava ao se expressar plenamente nas manhãs. E naquela casa todas as manhãs eram iguais: o nosso machismo descabido, a nossa subserviência aos exageros, o nosso compromisso com o ócio burro, o nosso cantarolar fora do tempo, a nossa imagem pouco refletida nos espelhos que espalhamos adrede pelos cantos da casa; tudo cheirava ao mesmo perfume adocicado do dia anterior.

Quando avistei as duas bolas dançando em nossa direção, só pensei na posteridade. Arranquei com veemência meus cílios e os guardei dentro da Bíblia, numa página de salmos qualquer. Eu queria que a mesma tinta que gravou as sacras palavras manchasse parte de mim para uma leitura posterior. Eu queria tão-somente ser eterno naquele momento de júbilo nervoso. Eu e meus amigos – que, assim como os do vocalista da vanguarda acústica e obsoleta, só apareciam quando eu bebia – fingimos desespero. Ajoelhei no meio da sala e comecei a rezar de trás para frente. Eu era um disco com uma mensagem satânica, um coma prestes a perder a validade: havia chegado a hora de despertar.





*Imagem: peter callesen - a4 papercut - 2005 - snowballs