segunda-feira, 5 de maio de 2008

.vôo noturno.


Não consegui evitar, eu não estava preparado. Eu não tinha condições de suportar aquilo: estava aos frangalhos, em retalhos detalhistas e com algumas tatuagens borradas demais em meu arquivo pessoal de rabiscos cutâneos. Eu via tudo com olhos mortos, olhos que já não distinguiam as cores. Eu estava atordoado, anestesiado do mundo. Infenso e sem coragem, o que poderia eu fazer contra os muitos moinhos que se apresentavam como dragões de saia, mulas com cabeça e sacis vencedores de maratonas televisionadas?

Olhei para o lado e verifiquei as condições dos muitos diabos que se aglomeravam no balcão do bar. aspasA banda ao fundo dubla muito bemaspas, eu digo tentando me enganar. Mas eu estava esperto e consciente – e mesmo assim eu tentava fingir com a ajuda disso e daquilo. A insistência me irritava. Eu estava nervoso, eu acho. Todos os comentários inúteis, as conversas sem ritmo, os elogios carcomidos, as risadas emboloradas: tudo me irritava. Eu soltava aos poucos o humor casmurro que carregava no peito, e sempre que o gordo cabeludo vinha falar algo sem nexo para mim, eu me irritava ainda mais com os perdigotos dele que me embaçavam as lentes. Acho que foi por isso que gostei – e até senti algo mais pornográfico – pela mãe de família que deu um tapa na cara desse mesmo gordo que só falava cuspindo. aspasO que você quer saber da minha vida?aspas, gritou ela sem anunciar o tapa na bochecha rosada do sujeito. Imaginei-a gemendo, fazendo cara de atriz dos filmes de ação e dizendo cousas obscenas. Mas no fundo sabia que tal imagem era tão-somente um exercício literário.

As horas haviam se condensado em qualquer lugar. Estava frio, e o ambiente não contribuía para eu me sentir álacre - ou pelo menos fingir com mais veracidade. A banda dublava uma música qualquer música de um artista qualquer artista que obtivera sucesso há tempos. O vocalista prognata bem que se esforçou, mas eu sentia a agulha, o disco riscado e as frases se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo.

Cansei de tudo aquilo e aceitei o convite de sair daquele lugar que fedia a cigarro de dous reais. Senti-me envergonhado pelo fiasco da banda que não se preparou para o contratempo que o tempo fez em seus discos. A dublagem ficou sem graça, e ter de recomeçar um sucesso das décadas passadas tira a graça da música. É como beijar alguém e na primeira fala depois de abrir os olhos sentir um mau hálito desconcertante.

Eu merecia um pouco mais - e isso eu confesso sem modéstia alguma.

4 comentários:

Isa disse...

“Eu estava nervoso, eu acho. Todos os comentários inúteis, as conversas sem ritmo, os elogios carcomidos, as risadas emboloradas: tudo me irritava.”

isso caiu perfeito em mim...

ai, eu volto...

é que o mundo me cansou ultimamente...

Alfaia disse...

terceiro parágrafo genial.
incomodou...

Isa disse...

ai vizinho-enteado... vc é engraçado...

quero ver os danados!!!

se eu colocar o nome do meu de chico fica feio? vc se sentirá incomodado?

Carlos B. Pinto disse...

O gordo cabeludo merecia mais! hehehe
-----------
Faço amiúde esses "exercícios literários" também :)) mas tenho assisto muito pouco esses "filmes de ação"
-----------
Rapá, cê tá cada vez mais maduro no estilo (de escrever) que está buscando. parabéns!