quarta-feira, 25 de junho de 2008

.um flanêur estanque.


Hoje eu quero ser apenas mais um sujeito sem identidade, sem eloqüências intelectuais ou preciosismos artísticos. Quero me sentar no sofá e assistir um programa dominical qualquer, deixar meu cérebro cansar de tudo que é profundo, permitir que meu espírito se afogue na profundidade supérflua do meu insignificante e épico viver. Eu sou digno de novela, sou digno de crônica jornalística. Mas não quero nada disso hoje. Quero apenas reforçar a minha inócua passagem por aqui. Desejo desencantar meus sonhos, e decantar sonhando num fundo acordado em que cantar é um detalhe descartável. Eu quero desafinar no coro dos contentes.

Eu acordei com um olhar medíocre sobre a vida. Não senti aquele aperto no peito de outrora, aquela angústia criativa que me fazia acordar no meio das noutes para, com sangue e urina e lágrimas e palavras, manchar as telas com a minha arte supervalorizada pelos críticos de jornais. Não, nada disso. Hoje eu quero ser a espuma da cerveja, o suco amaro, a carne podre, o vômito. Almejar esperança ou felicidade, sonhar com fins reprodutivos ou ter fé não são iniciativas que empolgam como antes. Todas as ilusões foram perdidas, e nesta manhã ensolarada eu quero sentar no trono de minha casa alugada, escancarar a minha boca cheia de dentes amarelos e esperar uma intervenção divina contra a minha insolência.

Não quero receber missivas, ouvir vozes ou conversar educadamente. Coprolalia é muito mais divertido e sacana. Excitante, confesso. Quero trair a confiança das pessoas, decepcionar o mundo e Deus a quatro, prometer mentiras e jurar discórdias. Aqui, sentado em minha cadeira desconfortável, a única cousa que almejo é me sentir desprezível. Não faço questão de eternidade, de epitáfios desafiadores. A verdade é que cansei de repetir o mesmo lado do disco nas conversas diárias. Estou cansado de elaborar todo um discurso visual e oral para o gozo social alheio. A satisfação do outro não me deixa alegre. Não tenho pena de quem sofre, de quem não tem a cadeira desconfortável na qual estou sentado, não imagino as mazelas de quem sequer tem a televisão de controle remoto que eu controlo – e que me deixo controlar. Não, não sou um sujeito afeito à imagens de freiras lavando os pés dos descamisados.

Outro dia reclamaram que eu estava me excedendo, passando os limites estabelecidos pela ordem social invisível que rege todo esse coro de contentes. Vai ser feliz longe de mim! Meu pensamento flanêur me exorta a fluir em vicissitudes culturais, faz com que eu me derreta nos sincretismos entre evangélicos e pagãos, e ainda me deixa suficientemente álacre para desacreditar em tudo isso e em todos. Desde que aquelas imanes mãos me abandonaram num mês de julho qualquer, o sentido da vida errou a direção. E não confesso isso para soar piegas ou para excitar a pena – sim, excitar! – de quem me vê assim. Tampouco é para justificar. O fato é apenas um tijolo no muro.

Hoje eu quero apenas confirmar as teorias, acreditar na ciência, ouvir os comentários lúcidos dos repórteres mais bem pagos. Quero suprimir a minha existência a custa de pouca cousa, quase nada. Enfim, eu desisto na véspera de uma segunda-feira que é para a semana começar tão importante como os dias que não vivi. E se ainda vivo, é porque sempre desisto na hora errada.



*Imagem: detalhe de um presente

sexta-feira, 13 de junho de 2008

.trágico.


Exigiram-me senhas e documentos, e com truculência me encaminharam para os responsáveis. Cochichavam. Eu entendia apenas os finais das palavras, e assim fui montando um jogo de palavras nefasto e premonitório. O corredor era estreito, e parcamente iluminado por lâmpadas amareladas, uma luz de fundo de quintal, improvisada. Empurravam-me pelos ombros dizendo insultos em outras línguas. E riam. Sempre riam.

Eu estava no centro da cidade quando fui abordado por duas crianças solicitando informações. Elas vestiam camisas com o haikai de Orwell em vermelho sangue – cujas letras gritavam uma suposta paz, agrediam sutilmente as liberdades e forçavam a ignorância. Aquilo me surpreendeu. Crianças instigando o duplipensar por pura incúria, pensei. Elas pediam informações sobre como fugir. Não entendi, respondi. Como? aspasFugir. Nós queremos fugiraspas, repetiram. Fingi riso e disse que o ideal era elas enfrentarem seus problemas, conversarem com seus pais e viverem tranqüilamente como todo mundo. Fecharam os rostos. Estavam irritados.

Era uma época difícil, concordo. Escasso humor.

O menino falou algo que não decifrei, e a menina levantou a saia e mostrou o sexo pueril e imaculado. Foi quando senti um forte tapa na nuca e minhas mãos sendo puxadas para trás. Quase quebraram meus braços. Tentei argumentar, dizer qualquer cousa e até pedir explicações. Deram mais tapas em minha nuca e falaram para eu ficar quieto. Exigiram-me senhas e documentos, e com truculência me encaminharam para os responsáveis.

Com os olhos vendados eu sentia os murros no rosto como pequenos versos. Os chutes nos joelhos me traziam a sensação de estar em uma liteira de pregos, com as palmas das mãos erguidas ao céu pedindo misericórdia a um Deus que eu ignorava a existência. Era uma época difícil, concordo. Escasso humor.

O interrogatório foi curto. Quatro, cinco ou seis perguntas. Respostas nervosas. A cada gaguejada, um tapa. E riam. Sempre riam. Eu não enxergava meus algozes, e só o medo conspirava a meu favor. A desgraça. As vozes eram estranhas, em línguas estranhas e em timbres pouco usuais. Eu insistia que não sabia o que estava acontecendo, que não compreendia o porquê de eu estar ali. Sempre riam.

Com os sentimentos mais lancinantes no peito, fui aceitar a separação num bar qualquer. Fim de tarde, sol ainda alto para o horário. Roupas do último encontro. Calor. A praça estava lotada de andarilhos e pessoas que vendiam por poucos centavos o talento de pintar em azulejos, fazer origami com arames e brincos com sementes. Eu me divertia somando os preços das vitrines, e imaginava o quão idiota havia sido com ela. Quatro, cinco ou seis anos juntos.

Sexo pueril e imaculado.

A última cousa que me lembro era o riso das crianças. As camisas com os dizeres de Orwell ecoaram em minhas retinas ensangüentadas. A menina mostrou de novo o sexo sob a saia. Era uma época difícil, concordo. Escasso humor. E mesmo assim riam. Sempre riam.