sexta-feira, 13 de junho de 2008

.trágico.


Exigiram-me senhas e documentos, e com truculência me encaminharam para os responsáveis. Cochichavam. Eu entendia apenas os finais das palavras, e assim fui montando um jogo de palavras nefasto e premonitório. O corredor era estreito, e parcamente iluminado por lâmpadas amareladas, uma luz de fundo de quintal, improvisada. Empurravam-me pelos ombros dizendo insultos em outras línguas. E riam. Sempre riam.

Eu estava no centro da cidade quando fui abordado por duas crianças solicitando informações. Elas vestiam camisas com o haikai de Orwell em vermelho sangue – cujas letras gritavam uma suposta paz, agrediam sutilmente as liberdades e forçavam a ignorância. Aquilo me surpreendeu. Crianças instigando o duplipensar por pura incúria, pensei. Elas pediam informações sobre como fugir. Não entendi, respondi. Como? aspasFugir. Nós queremos fugiraspas, repetiram. Fingi riso e disse que o ideal era elas enfrentarem seus problemas, conversarem com seus pais e viverem tranqüilamente como todo mundo. Fecharam os rostos. Estavam irritados.

Era uma época difícil, concordo. Escasso humor.

O menino falou algo que não decifrei, e a menina levantou a saia e mostrou o sexo pueril e imaculado. Foi quando senti um forte tapa na nuca e minhas mãos sendo puxadas para trás. Quase quebraram meus braços. Tentei argumentar, dizer qualquer cousa e até pedir explicações. Deram mais tapas em minha nuca e falaram para eu ficar quieto. Exigiram-me senhas e documentos, e com truculência me encaminharam para os responsáveis.

Com os olhos vendados eu sentia os murros no rosto como pequenos versos. Os chutes nos joelhos me traziam a sensação de estar em uma liteira de pregos, com as palmas das mãos erguidas ao céu pedindo misericórdia a um Deus que eu ignorava a existência. Era uma época difícil, concordo. Escasso humor.

O interrogatório foi curto. Quatro, cinco ou seis perguntas. Respostas nervosas. A cada gaguejada, um tapa. E riam. Sempre riam. Eu não enxergava meus algozes, e só o medo conspirava a meu favor. A desgraça. As vozes eram estranhas, em línguas estranhas e em timbres pouco usuais. Eu insistia que não sabia o que estava acontecendo, que não compreendia o porquê de eu estar ali. Sempre riam.

Com os sentimentos mais lancinantes no peito, fui aceitar a separação num bar qualquer. Fim de tarde, sol ainda alto para o horário. Roupas do último encontro. Calor. A praça estava lotada de andarilhos e pessoas que vendiam por poucos centavos o talento de pintar em azulejos, fazer origami com arames e brincos com sementes. Eu me divertia somando os preços das vitrines, e imaginava o quão idiota havia sido com ela. Quatro, cinco ou seis anos juntos.

Sexo pueril e imaculado.

A última cousa que me lembro era o riso das crianças. As camisas com os dizeres de Orwell ecoaram em minhas retinas ensangüentadas. A menina mostrou de novo o sexo sob a saia. Era uma época difícil, concordo. Escasso humor. E mesmo assim riam. Sempre riam.

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