domingo, 27 de julho de 2008

.inspiração de um artista mequetrefe.


O caderno em branco denunciava a falta de criatividade, a inércia na mão esquerda – outrora tão hábil em ilustrar superstições e sentimentos tímidos. Há tempos vestia o terno, alinhava-se na cadeira, estralava os dedos, conferia os lápis, as tintas, e então fazia um ponto no meio da página alva. Ficava ali parado, esperando que uma entidade criativa baixasse, aguardando a inspiração suar as mãos de tanto exigir movimentos e rabiscos. Olhava pela janela e via o caos urbano, a poeira no riso das pessoas, os movimentos mecânicos e toda a sujeira social. Culpava-se por estar de terno e plena quinta-feira esperando timidamente a inspiração. Ah, mas era um palerma mesmo. Sabia que ela havia saído com outra mão, que estava se divertindo respeitosamente com outras páginas. E ele ali sentado, covarde, mudo, cansado de sentir muito por muito sentir. E realmente sentia, mas tal qual o poeta, fingia para si mesmo que não sentia. Enganava-se, e assim esperava o tempo passar. Ficou na mesma posição por um bom tempo. Olhos mortos dissecando a página em branco, mão hesitante. O pensamento vagava em algum ignoto deserto, e assobiava alguma melodia só para disfarçar a pouca graça do momento.

Ao meio-dia tirou parte do terno. Foi à cozinha e esquentou a comida congelada que comprara no dia anterior. Galinha, arroz, feijão, macarrão. Um suco sem açúcar. Água natural – com um gosto de terra que o fez lembrar das idas e vindas ao sítio da família. Desde que assumira sua misantropia as reuniões familiares por lá não contavam com o seu riso morno, com seus traços. Pensou nisso por um instante, e depois se reconfortou com uma colherada satisfatória. Tentou não saborear. Comeu mecanicamente se achando príncipe em pleno sábado.

Lavou a louça em silêncio. Com calma tirou parte do terno e se sentou numa cadeira desconfortável. Ficou abusando da inércia, da falta de ânimo. Mãos sobre as pernas, pés alinhados, coluna reta e cabeça pendendo para a direita. Não havia muito o que fazer naquele seu horário livre. Tinha ele duas horas para aproveitar da melhor maneira que pudesse. Poderia dormir, massagear o ego, confundir as lembranças, relembrar as brigas que perdeu, tirar os sapatos e sentir o frio da casa. Apenas ficou sentado na cadeira desconfortável. São apenas duas horas, deve ter pensado. E ali permaneceu sob a luz cinza que entrava pela janela.

Vestiu a parte do terno. Ajeitou a gravata e passou a mão nos cabelos penteados. Sentiu-se na moda por um instante. Respirou fundo e foi se sentar para começar de novo os desenhos. Apontou o lápis, conferiu as folhas em branco. Concentrou-se. Nada. Nenhum traço, nenhum pincel ousou se molhar para aguar as cores dos traços de nanquim. Por um momento ele achou que poderia desenhar o mundo, todos os traços condensados num só desenho. Achou que poderia tatuar mensagens subliminares em corpos femininos esbeltos e até frases sacras nas costas de freiras. Sentia que estava perdendo o tino, que estava se apagando aos poucos. Passou a tarde inteira sem conseguir macular as páginas.

Terminado o expediente, foi para o quarto, tirou o terno e ficou pelado em frente ao espelho. Viu a triste figura que se mostrava a si mesmo, que envergonhava a todos. Triste figura, deve ter pensado. Tomou banho vagarosamente, esfregando cada parte do corpo curvado, do corpo magro e sem graça. Saiu respingando pela casa sem se preocupar com possíveis reclamações. Morar só tem suas vantagens, deve ter pensado. Vestiu uma roupa qualquer, dessas que a gente veste por conveniência, só para ficar em casa de bobeira. Sentou na beira da cama e ficou inerte. Sem inspiração. Tentou dormir, mas não conseguia. Sentia que precisava expressar alguma dúvida, alguma suspeita. Rolou na cama por uma, duas horas. Voltou à sala de desenhos e tentou rabiscar qualquer cousa que fosse – e nem cobraria pelas horas extras de trabalho. Não conseguiu. De novo.

Frustrado, voltou ao quarto. Sentou na beira da cama mais uma vez. Sentiu então um estalo na nuca. Ah, era a inspiração. Ela deve chegar em breve, deve ter pensado. E realmente chegou. Ah, então é essa a inspiração? Ele ficou tímido diante dela, não havia como não ficar. Conversou sobre isso e aquilo, sobre o que queria desenhar. Revelou segredos e deixou transparecer alguns sentimentos, mostrou figuras de sua imaginação e projetou na parede alguns de seus sonhos preto e branco. A inspiração ficou ouvindo tudo e conversando reciprocamente. E ele sem perceber as reais intenções dela. Uma indireta, e então ele voltou à sala de trabalho. Pegou a inspiração pela mão e fez dela um desenho bonito, prazeroso, ruidoso. Fez do deserto um oásis, do concreto um jardim e de um ósculo um universo em versos não declamados. Ficou satisfeito pela primeira vez.

Não precisou acordar na manhã seguinte para trabalhar, pois havia sido demitido. A inspiração havia ido, e ele ficou murcho de novo. Quebrou a ponta dos lápis, manchou as paredes com as tintas e fez origami com as páginas em branco. A sala de trabalho, o quarto, um caos. Prendia a respiração para segurar a angústia ou a saudade de algo ainda novo, pouco conhecido. Não adianta, deve ter pensado. E não adianta mesmo.

Ele sabia que desde o início não havia mais o que desenhar, e então desistiu da vida artística.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

.XXI - o pequeno príncipe.




E foi então que apareceu a raposa:

- Boa dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.

A raposa pareceu intrigada:

- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.





Mas a raposa voltou à sua idéia.

- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.


O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:

- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!


Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

Depois ela acrescentou:

- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.

Foi o principezinho rever as rosas:

- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.

E as rosas estavam desapontadas.

- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:

- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

*antoine de saint-exupéry

*Este trecho possui definições assaz pertinentes, convincentes e - por que não? - providenciais. Queria ter eu definido cativar de maneira tão bonita. Baudrillard com certeza leu este livro.

domingo, 20 de julho de 2008

.diálogo imaginário sobre uma possível situação cotidiana que facilmente poderia virar um curta-metragem experimental.


– E então?
– Hum?
– É possível?
– Não sei.
– Tuas respostas há tempos me são curtas.
– Não há o que responder.
– Não?
– Acho que nunca houve sequer o que perguntar.
– Achas mesmo isso?
– Com certeza.
– E então?
– Comecemos de novo...
– Não entendes o que eu quero dizer?
– Não.
– É tão difícil assim tentar compreender o que quero dizer?
– Não. O difícil é identificar o que queres dizer.
– Sabes que não sou bom com as palavras.
– Ninguém é bom com as palavras.
– Pensavas diferente quando nos conhecemos.
– Isso foi há muito tempo, convenhamos...
– Não mudamos tanto assim, eu acho.
– Achas mesmo?
– Acho.
– Então não percebeste o quão mal o tempo fez para nós.
– Isso lembra a música do mar que bate nas pedras.
– A nossa vida em comum é que é curta demais para ver o estrago.
– Entendo.
– Se entendes por que insistes?
– Achei que fosse recíproco.
– Esse é o teu problema: achas demais.
– Eu não tenho tantas certezas como tu tens, ma/////
– Mas nada! Aprende a decidir!
– ...
– ...

Um silêncio incomensurável tomou conta da cozinha. As xícaras dispostas sobre a mesa de vidro, o açúcar derramado, as colheres manchadas. O pequeno cesto de flores de plástico tentava colorir a cena, malgrado os tons cinzas anunciados já terem tomado conta das margens. O rio estava prestes a transbordar. Na verdade, ele estava prestes a secar.

– E como vai ser agora?
– Não sei.
– Depois eu que tenho dúvidas demais...
– Não é assim que as cousas funcionam.
– Eu sei disso.
– Não parece.
– É que não suporto mais essa situação.
– E achas que eu suporto?
– Não, sei que não. Mas é que quando penso no começo de tudo...
– Tu e esse teu nostalgismo...
– Mas é que é inevitável!
Mas é que é inevitável!
– Não consigo entender o que mudou e nem quando mudou.
– Consegues ao menos enxergar o porquê?
– Não, nem isso. Para mim tudo podia ser ainda daquele jeito.
– Que jeito?
– Daquele, como no início. A gente era mais alegre.
– Talvez tenhamos nos perdido em conversas.
– Ou mesmo por não ter falado o que devíamos ter falado.
– Tu nunca falas o que deves ser dito.
– Sabes que não sou bom com as palavras.
– Mas já foste melhor com as imagens.
– Desaprendi muita cousa depois de tudo que passamos juntos.
– Desaprendeu por opção, pois nunca te forcei nada.
– Com certeza. Decepciono-me demais, eu acho.
– Concordo.
– Sabes que não consigo ser mais o que eu era, não?
– Imagino, mas não mensuro o estrago que te fiz.
– Não fizeste estrago, apenas abriste as feridas.
– Se fiz isso, é porque não te entendi o suficiente.
– Suponho que não tenhas tido o interesse de realmente me entender.
– Pouco importa, no fim. Iremos nos separar do mesmo jeito.
– Achas que um dia as cousas serão como antes?

As xícaras na mesma posição, estando apenas uma com a borda beijada pelo café. Café frio. As formigas, o açúcar, as mãos distantes, olhares distantes. Um micro-universo prestes a explodir, a condensar em si mesmo para renascer – ou pelo menos fingir isso.

– Nunca mais seremos os mesmos.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

.mitologia rasa a partir de um cotidiano de alegrias díades.


Em plena sexta-feira, o cotidiano passava ao longe. Rotina, trabalho, rotina e obrigações. Tudo muito apagado no //////////////, um ponto de fuga que sequer precisa ser riscado. Tudo muito subliminar, essencialmente subliminar. O sinal de alerta, tal qual uma bomba que – de quando em vez – saía do compasso, era o único ruído a duelar com o vento que zunia forte. Hesitação, eu diria. Até medo de ///////// que se apresentara desde o começo. O sol descolorindo tudo, o calor como detalhe assimétrico na paisagem para turista ver. Uma manhã pouco comum. O fazer tudo sempre igual ganhou contorno de uma lembrança inolvidável. Talvez tenha faltado algo que desse corpo a essa /////////////////. Talvez tenham faltado matizes para que aquele cenário se aquarelasse numa iminente – mas já sentida – saudade.

Se ////////////// parar para pensar, pouco importa. Ninguém se importa. Talvez eu, talvez alguém mais. A certeza é que existe a dúvida – e a tal excitação da dúvida, claro. Mas uma saudade só não rima, não dá samba. Talvez tenham caído //////////////// demais em momentos distintos, e num contratempo perdeu-se o instante de fazer o mesmo pedido. Há a vontade, porém? Otimismo crasso que só rende melodias /////////////////, mas que não tem cacife para competir com a ////////////////. Olha, a realidade é essa! A manhã incomum é imprescindível, indiscutivelmente imprescindível, mas falta um pouco do denodo de outrora. Faltam blandícias como o único vezo aceitável. A mão e a boca parecem querer obliterar o alvedrio do toque e do ósculo, malgrado a mente e a quase-necessidade se imporem como /////////////.

Tudo se mostrando ao longe. A sensação do trabalho, do cansaço /////////////////, a tristeza mundana. Tudo sempre igual. E na noute anterior fora diferente – como foram as outras noutes –, uma espécie de surpresa. Queria talvez que fosse mais tempo, que fosse mais próximo. Noutes iguais, mas que fazem toda a diferença. Sabe, a vontade é que o vestido fosse enlaçado pelo paletó – tal qual diz a música, mas sem o tom de fim. Tom. Fim. Jobim. ///////// ////

É querer demais, confesso. Na verdade é o que acho. Ah, e tu achas? És hilário. E quem não é? Tamanha beleza, de cerúleos olhos fechados – dous céus em miniatura que enxergam para além da estrada. O riso. Ah, o riso. Aceitas? Eu o colocaria numa moldura só para afagar os //////////// meus. Meus pensamentos, todos nas linhas tortas das mãos, embaixo das pálpebras e sob os óculos; todos eles me levaram ao mesmo labirinto. Por ser Teseu demais, deixei-me tomar por um /////////////// absurdo, quase inconseqüente.

E agora me vejo aqui, sexta-feira, longe do dia-a-dia modorrento, insosso. Vejo-me perdido. Ligeiramente muito perdido // //////// esperanças de que Ariadne teça uma camisa deveras grande para eu poder me proteger do frio depois que eu desfiar as mais sinceras lembranças rumo à saída de tal labirinto.

No fundo sei que o Minotauro já se fez mito – porém não é taumaturgo. A respiração já sentiu a mesma falta de ar. A /////////////// já sabe do suplício, do iniludível ///////////////.

Agora é esperar pelo riso lascivo. Em plena e completa sexta-feira. Esperar e achar toda a graça do mundo nos momentos mais álacres. E em /////// silêncio.

terça-feira, 8 de julho de 2008

.um pouco de literatura diária.


Catastrófico. É pouco, quase nada. Ridículo, é mais conveniente. Providencial, até. Necessário. A mesma cousa. A mesma cousa. A mesma cousa. A mesma cousa. A mesma cousa. A mesma cousa. A mesma cousa. A mesma cousa. Sempre a mesma cousa. A mesma cousa. A mesma cousa. A mesma cousa. Sempre. A mesma cousa. A mesma cousa. É complicado. A admissão da vergonha não mitiga a cena, o ridículo. Ninguém tirou as notas das mãos tuas. Batias nas peles alheias sem a verve de outrora. Envergonhaste os amigos sem a intenção verdadeira. Vestiste-te de palhaço pubicamente. A máscara manchada de suor, a bebida na mão trêmula. Ator cínico. Envergonhaste a ti mesmo, negaste tua parca inteligência e a já abalada fé na vida. Conversaste com a deidade usando uma cascata de palavras sem-fim. Hífen, crase e risos. Lembrança fraca. Não, memória fraca. Sono. Não, agora não. E a vergonha obliterada pela falta de sonhos aos poucos se acendia na memória. O mundo não girava. Perdeste a chance de envolver a deidade num parágrafo kafkaniano. Ridículo é pouco. Dançando no salão. Sem te agüentar em pé. Uma pancada na cabeça anestesiada. A ressaca do bom senso veio bater forte na orla do dia seguinte, quando as velas já não respiravam a brisa: o barco iria afundar.

Depois a verdadeira história. Os detalhes omitidos. O porquê do não-riso. O encontro amarelado. A desconfiança do convite. Riso. Riso. Riso. Riso. As orelhas acesas, pertinentes. O pessimismo. A hora errada de ouvir a verdadeira história. Cabeça solta, morrendo sem ar nas páginas em branco. As idéias não batiam, não comungavam do mesmo Cristo. O mesmo Cristo há dous mil anos. Não entra nessas questões. Volta ao círculo obnubilante. É, podes voltar. Vê as palavras certas. Muda o caminho. É isso: muda o caminho. Vai ser estranho. Não é preciso te importar. Relaxa os pés. Ajeita a coluna. Revisa o relato. Não deixa subliminaridades em baixo das unhas – ouriçadas pela desconfiança. Pessimismo! É demais. Ainda mais depois do fiasco. Desconfia. Toma o remédio. Anda, escreve mais uma linha. Acaba com isso. Pára de ouvir música. É óbvio demais, eu diria. Tréplica malfeita. Horrível. Apaga logo, pois o tempo vai eternizar o momento infeliz. E a lembrança dos erros não esvanesce tão facilmente assim. Vais te arrepender, sabes disso.


A literatura da vida cotidiana não aceita trema.