domingo, 20 de julho de 2008

.diálogo imaginário sobre uma possível situação cotidiana que facilmente poderia virar um curta-metragem experimental.


– E então?
– Hum?
– É possível?
– Não sei.
– Tuas respostas há tempos me são curtas.
– Não há o que responder.
– Não?
– Acho que nunca houve sequer o que perguntar.
– Achas mesmo isso?
– Com certeza.
– E então?
– Comecemos de novo...
– Não entendes o que eu quero dizer?
– Não.
– É tão difícil assim tentar compreender o que quero dizer?
– Não. O difícil é identificar o que queres dizer.
– Sabes que não sou bom com as palavras.
– Ninguém é bom com as palavras.
– Pensavas diferente quando nos conhecemos.
– Isso foi há muito tempo, convenhamos...
– Não mudamos tanto assim, eu acho.
– Achas mesmo?
– Acho.
– Então não percebeste o quão mal o tempo fez para nós.
– Isso lembra a música do mar que bate nas pedras.
– A nossa vida em comum é que é curta demais para ver o estrago.
– Entendo.
– Se entendes por que insistes?
– Achei que fosse recíproco.
– Esse é o teu problema: achas demais.
– Eu não tenho tantas certezas como tu tens, ma/////
– Mas nada! Aprende a decidir!
– ...
– ...

Um silêncio incomensurável tomou conta da cozinha. As xícaras dispostas sobre a mesa de vidro, o açúcar derramado, as colheres manchadas. O pequeno cesto de flores de plástico tentava colorir a cena, malgrado os tons cinzas anunciados já terem tomado conta das margens. O rio estava prestes a transbordar. Na verdade, ele estava prestes a secar.

– E como vai ser agora?
– Não sei.
– Depois eu que tenho dúvidas demais...
– Não é assim que as cousas funcionam.
– Eu sei disso.
– Não parece.
– É que não suporto mais essa situação.
– E achas que eu suporto?
– Não, sei que não. Mas é que quando penso no começo de tudo...
– Tu e esse teu nostalgismo...
– Mas é que é inevitável!
Mas é que é inevitável!
– Não consigo entender o que mudou e nem quando mudou.
– Consegues ao menos enxergar o porquê?
– Não, nem isso. Para mim tudo podia ser ainda daquele jeito.
– Que jeito?
– Daquele, como no início. A gente era mais alegre.
– Talvez tenhamos nos perdido em conversas.
– Ou mesmo por não ter falado o que devíamos ter falado.
– Tu nunca falas o que deves ser dito.
– Sabes que não sou bom com as palavras.
– Mas já foste melhor com as imagens.
– Desaprendi muita cousa depois de tudo que passamos juntos.
– Desaprendeu por opção, pois nunca te forcei nada.
– Com certeza. Decepciono-me demais, eu acho.
– Concordo.
– Sabes que não consigo ser mais o que eu era, não?
– Imagino, mas não mensuro o estrago que te fiz.
– Não fizeste estrago, apenas abriste as feridas.
– Se fiz isso, é porque não te entendi o suficiente.
– Suponho que não tenhas tido o interesse de realmente me entender.
– Pouco importa, no fim. Iremos nos separar do mesmo jeito.
– Achas que um dia as cousas serão como antes?

As xícaras na mesma posição, estando apenas uma com a borda beijada pelo café. Café frio. As formigas, o açúcar, as mãos distantes, olhares distantes. Um micro-universo prestes a explodir, a condensar em si mesmo para renascer – ou pelo menos fingir isso.

– Nunca mais seremos os mesmos.

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