quarta-feira, 27 de agosto de 2008

.um camelô divino.

Estou vendendo a petente do meu coração
E também doando meus direitos sentimentais
Quem se arrisca a se endividar?
Quem quer ficar rico com minhas angústias?
Quem se habilita a me ajudar?
Tenho cinco filhos

O mercado da luxúria é tão tumultuado
Sugiro minhas importadas sensações
São da Bolívia, do Paraguai e afins latinos
Qualidade duvidosa, eu confesso
Mas lhanos em sua canalhice barata

Vejam a placa
Estou vendendo a patente do meu coração
E também doando meus direitos sentimentais
Não riam, pois não há graça
Dêem-me um samba para distrair apenas
Tudo custa muito pouco
É um e noventa e nove
Quase caridade

Tenho uma variz ulcerada acima do tornozelo
E cinco dentes postiços
Quem quiser pode levar o que ofereço

Deus lhe pague, meu filho


*Originalmente publicado no dia 13 de março de dous 1000 e seis

domingo, 24 de agosto de 2008

.questão de tempo.


Não foi por maldade, mas tive de arrancar os dedos das mãos dele. Eu queria ter para sempre as impressões que ele tinha do meu corpo, da minha geometria irregular e moldada a insuficiências sentimentais. Esperei o momento certo, a hora exata. Arranquei dele os dedos, e guardei todos numa caixa prateada. Esperei que apodrecessem para abrir a caixa e sentir o perfume natural daquele que foi o homem que mais me satisfez. Sentia-me excitada com tal aroma, com ele sublimado entrando de novo em mim – e de alguma forma me satisfazendo outra vez. Eu abria a caixa religiosamente duas vezes todos dos dias. Ia eu trabalhar com ele ainda fresco em mim, alimentando memórias e me completando alucinadamente. Era uma espécie de vício, confesso. Eu ficava mais desperta, mais amável com as pessoas. E de noute, quando já desbotada pelo cotidiano, eu abria a caixa e me masturbava com ele preenchendo o quarto. Eu desligava a luz e deixava só o fiapo claro por baixo da porta que vinha da sala como testemunha do meu prazer. Uma música qualquer de fundo para abafar meus sustos, meus espasmos. E assim eu vivia até a pele sumir, até o cheiro desvanecer e virar um resquício de lembrança, um resto de memória.

Quando esvaziei a caixa prateada, senti um aperto no peito, uma falta de ar. Eu ia ao encontro do cotidiano cabisbaixa, decepcionada com a efemeridade dos seres humanos. Fiquei umas duas semanas chorando pelos cantos e regurgitando prazeres oníricos. Até comungar da idéia de me enamorar outra vez.


quinta-feira, 21 de agosto de 2008

.malacara.


– Preciso encontrar Malacara. Mas em que deserto frio será que está? Em qual galpão terá se metido? Será que anda a zanzar por pradaria outras? É bem provável, eu acho. Malacara sabe quem eu sou, sabe como sou e como serei daqui a uns anos. Malacara me entende, eu acho. Mas foi embora. Simplesmente foi embora. E eu não sei o porquê. Talvez até saiba e não queria aceitar. Na verdade é isso, e eu só não quero comentar aqui o motivo. O fato é que foi embora. E eu aqui sem o meu lugar, sem estar por simplesmente estar. Se hoje trago esta ferrugem nos olhos e um pouco de fuligem no peito e todos os sentimentos venais é porque eu acreditei muito em Malacara. Toda esta parca coragem eu consegui ao lado de Malacara. Eu, que cultivei por pouco tempo e modestamente uma barba rala para convencer um sem-número de pessoas, alguns músculos para as eventuais brigas e para convencer que não sou tão frágil assim, as mesmas palavras que para mim foram ensinadas; tudo foi por causa de Malacara. Hoje em dia o que é mais estranho para mim é o fato de Malacara ter ido embora sem avisos prévios, sem explicações plausíveis, sem despedidas ou mesmo um aceno cheio de mensagens subliminares. Malacara foi meu motivo de noutes em claro, de substâncias ilícitas e de todo um sem-fim de cousas adversas. A minha ablução sentimental foi obliterada, confesso. E por culpa de Malacara. E será que posso usar termo tão pesado, tão violento e agressivo para uma situação como esta? Não sei. Peitinhos assaz e bundinhas assim, trilhas outras e essa saudade assim cinza e sinistra – que me manca o peito e faz capengar a coragem de entrar em erupção. A raiva faz isso, mas Malacara havia me roubado essa vontade, esse direito. Toda vez que olho pela janela e vejo o mesmo céu refletido no espelho, sinto-me num labirinto de imagens. Vê, um céu emoldurado no espelho, e outro maior ainda seguro pela janela, sendo que um está contido no outro, e o outro é aquele mesmo. É como me sentia quando Malacara estava aqui. Eu-espelho no céu-janela de Malacara. E por ser efêmero em saudades, acho melhor acreditar em pressentimentos.

– Não achas em vão acreditar em pressentimentos? Malacara foi embora, e isso já basta, não? Não achas melhor seguir a vida sem Malacara?

[O iminente artista pára e olha fixamente para as lembranças que fugazes passam diante dos seus olhos. Dá um suspiro.]

– Seguir sem Malacara? Vou ter de seguir, claro. Mas um cachorro como aquele não se encontra em qualquer lugar. Eu tento esquecer Malacara. Eu realmente tento não me prender às lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças. Mas é como escreveu Jung: aspasAquilo a que você resiste, persisteaspas. O senhor sabe disso. E por isso acho melhor terminar a entrevista agora. Quero ir para descansar.

[O quase jornalista desliga o gravador, confere as anotações. Guarda tudo numa bolsa e sai do carro sem se despedir. Enquanto isso o entrevistado se afoga nas lembranças que nutre por Malacara.]


– Oquei! Corta! Muito bom. Vamos repetir a cena para pegar tudo de outro ângulo, de dentro do carro. Mas só da parte final do diálogo, certo? Podem descansar um pouco.


*Foto: ISIS, priscilla.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

.uma confissão infeliz.


É sério. Eu só me lembro de ter ouvido o padre sair gritando aspasSai pra lá! Sai! Este pecado é horrível demais!aspas

O sol ia alto em seu grito luminoso. Um calor desgraçado. A mesa quadrada – carcomida e enferrujada e amassada e com a pintura gasta e com uma enorme propaganda de uma cerveja-outra – era o depositário de conversas amigáveis. Os dous malandros se cumprimentaram então. De olhos vermelhos, cheios e mágoa. Uma cerveja, dous copos.

– Calor, né?, bicho. Então, é sério, Z.. A cousa tava feia. Apavoro mermo, sabe? Eu fui pra missa pra encontrar a F., só pra isso. Aí cheguei tarde. Ontem eu tinha saído sem avisar nada pra ela. Tava até com bafo de cachaça. [Z. ri discretamente.] Mas fui mermo assim. Cheguei lá [Ele pára para beber um generoso gole de cerveja, dá uma fungada, faz careta e continua.]; cheguei lá e a missa já tinha acabado. Entrei mermo assim. Vai que ela ficou lá dentro me esperando, né? Aí entrei. [Ele se levanta sem aviso já com um sorriso no rosto.] Opa! E aí, W.?! Quanto tempo, rapá! Senta aí com a gente. Aqui: esse aqui é o Z.. Z., esse é o W., aquele que te falei do tamanho do pau. [Os três riem. Z. cumprimenta W. com a cabeça, sem se levantar ou estender a mão.]

– Só na cervejinha então?
Opa, senão ninguém agüenta o rojão, como diz o C.. Senta aí, W..
– Não, não. Valeu. Tem uns lances aí pra fazer. Falou, moçada.

[E foi W. descendo a ladeira preguiçosamente sob o sol impiedoso.]

– Esse bicho ta de rolo com uma branquinha gata que teve filho esses tempos. E é feio, né não? [Os dous riem mecanicamente.] Então, como eu te falava. Entrei na igreja e não tinha mais ninguém. Uma ou outra velha rezando pra vela. Mas em silêncio, sabe? Como se santo lesse pensamento... [E toma mais um gole de cerveja. Z. força um riso, mas a fisionomia mais parece desgosto com o que acabara de ouvir.] Sentei num banco e descansei as pernas. Aí comecei a pescar. E tal, pescava, e nada da morena. Aí só ouço o padre gritando aspasSai pra lá! Sai! Esse pecado é horrível demais! Não confessa pra mim! Sai daqui! Sai!aspas Cara, foi uma cous–

Acordou assustado. O coração sambando no peito. A respiração na batida do surdo, mas pesada, doída. Desamassou a cara com força, furando os olhos dos sonhos. Apertou os olhos e hesitou pensar no óbvio.

Vestiu a camisa do fluminense e foi primeiro matar o padre. Depois mataria P..

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

.uma questão de tempo.


Estávamos a uma velocidade acima do normal, acidentalmente desrespeitando os limites aceitáveis que as placas exigiam. Os cabelos manchavam o vento e os movimentos com as mãos imitavam ginastas prestes a cair – e que se levantavam num rápido movimento para o nada. A música alta atordoava os pensamentos: muitos metais, bateria cubana, vozes díspares, refrões duvidosos e tudo mais que a orquestra pouco ortodoxa – que escolhemos a esmo – podia proporcionar musicalmente naquele momento. Estávamos deveras rápidos, rindo sem um motivo específico, mas tendo a certeza de que aquilo não duraria para sempre. Nada dura para sempre, é bom lembrar.

A ponte seria um bom local para respirarmos o ar fétido que o rio poluído emanava. Paramos sem cerimônia, abrimos as portas e deixamos os risos acompanharem as partituras da orquestra. Tínhamos a cidade deserta e todas as horas possíveis da noute para embriagarmos com conversas fúteis e risos ensaiados e elucubrações chochas e ilações absurdas e teorias vazias e mais uma miríade de diversões que a gente compra lendo orelha de livro. Não pensávamos, de fato, nessas possibilidades. Cada qual ficou em seu acento descolorindo aos poucos a situação.

A música já não fazia mais tanto alarde, e a cabeça ricocheteava versos soltos, frases musicais descompassadas. O sol rompia o hímen da madrugada aos poucos, e todo o prazer que sentíamos há pouco sublimava. Olhei pelo retrovisor para ver o futuro. Era tarde demais, amigo. Tarde demais para rir de lembranças.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

.apenas um delírio.


O piano soava ao fundo, batia no fundo dos pensamentos. Era inevitável, não era tão impossível, pertinente talvez e muito provável que não fosse nada. A lâmina lambendo a carne, suavemente. O sangue salpicando preguiçosamente a roupa, o chão, as paredes, o universo e todas as estrelas mortas que se perpetuam todo dia ao anoitecer. Não podia mais se importar. Talvez tenha sido o filme, as músicas, as tragédias anunciadas aos poucos nos jornais. A visão entre as pessoas, um pouco além. A não distinção entre sonhos e delírios, o gosto disfarçado pelo sofrimento alheio. O piano soava e parecia aumentar ainda mais. Uma melodia qualquer, sinistra. Melodia, melodia. Limpava o nariz com o dedão e se fazia palhaça de circo, personagem tristonho com o riso no rosto. Ria de si mesma e da situação pouco improvável. Não, aquilo não tinha graça alguma. Os braços retorcidos, a roupa rasgada e a violência gratuita guiada por um impulso desconhecido. A televisão seria a testemunha, a única que falava na sala, no ambiente vazio, sujo, imundo, porcamente higienizado para uma possível viagem. As melodias, as melodias. O movimento hesitante, a faca cortando o momento de dúvida e toda a certeza de que estava num problema sério. Não precisava fazer tanto barulho por um corte tão levemente profundo na garganta. Um corte nos pulsos. Sangue por todos os lados, uma piscina escarlate. Um filme. As informações ricocheteando pela sala, reverberando com a voz dos atores. Um fósforo apenas inteiro para queimar uma precisa floresta única. As bordas sujas, as imagens desconhecidas, as idas e vindas. O conhecimento de que era preciso apenas um fósforo para queimar uma floresta inteira. Quando menos esperava, a mão alheia já estava cobrindo suas digitais.

Após chupar a fumaça e guardar a loucura nos pulmões, olhou pela persiana sem a real intenção de fazê-lo. Inventou uma desculpa qualquer e desceu apressada as escadas do prédio.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

.um dantas.


Almejava apenas a felicidade, um simples desejo – venal e até compreensível hoje em dia, ainda mais se levarmos em conta os muitos afazeres e moscas carpideiras a nos louvar e cuspir. Ainda mais se levarmos em contas as mulheres-bicheiras a nos beijar e cobrir. Ele esperava a redenção e a felicidade. Não fazia mal a ninguém. Funcionário público dedicado, obediente e alheio aos valdevinos escusos com suas propostas cinematográficas. Emulação comedida, tímida – risível, convenhamos. Subir na vida era um detalhe que poderia ser dividido com afinco e perseverança com todos ao redor.

Evitava as brigas oferecendo a cara à tapa. Evitava xingamentos deixando ofender-se gratuitamente. Não via maldade e malícia nos olhares. Até se envergonhava quando por descuido ou cisco ou mesmo lascívia alguém para ele piscava. Segurava mãos femininas para ajudar e não para digitar segundas e quintas intenções. E quando o fazia – por ser de inevitável proporção o talante que o afligia – era sempre com as mais sinceras intenções. Os pensamentos mais soezes eram deixados sob alguma memória distante, sob algum desentendimento interno. Ele era a encarnação do poema em linha reta: não um semideus, mas um sujeito vil em sua ingenuidade gritante.

[...]

Não se casara por não encontrar quem suportasse tamanha bondade, tamanha pureza de espírito. Claro, de quando em vez exercitava uma ou outra esperteza, mas só para fazer do riso alheio um amuleto. Só para alimentar o humor dos que estavam próximos. Ah, como ele era um sujeito de bom coração! Decorava nomes, datas e nunca decepcionava ninguém. Ou pelo menos acreditava piamente que não o fazia. Queria sempre agradar, e não pensava se as pessoas queriam mesmo esse agrado. A primeira namorada o traiu. A segunda o deixou. A terceira não chegou.

Rezava diariamente engolindo como desgraça a cachaça sacra que de graça recebia dos amigos mais íntimos. Religião forjada, é claro. No fundo sabia o quão idiota era para a maioria das pessoas. Ficar bêbado para anestesiar o forjar, para obliterar a amarga doçura do seu ser. Humilde sujeito, simples de coração.

[...]

Num domingo, contudo, por pouco deixou-se levar por instintos outros. Alguém mandara um bilhete insinuante, provocador. Um estímulo ao exercício de sua calma, devem ter pensado. Um convite de última hora, uma hesitante aceitação. Bebidas e bebidas e riso. A pureza de seu coração palpitou na nota errada do samba, cadenciou no verso malandro inesperado. Jogou o copo numa das paredes do quintal e ficou assustado com os olhares. Ah, os olhares! Nossa, para que isso?, devem ter cochichado. A música parou, a conversa animada parou. A alegria deu um passo em falso e caiu. A mão tremeu, as palavras miaram e tudo se desanimou naquela seqüência de frames meticulosamente desenhada ao longo dos anos.

Saiu sem graça, sem se despedir. Sem muita pressa ou qualquer indício de coragem. Sentou-se na grama à espera de um sopro de alegria. Sentiu uma brisa, apenas. Um suspiro de reprovação.

O suficiente, porém, para alegrar – mais uma vez – o seu simples coração.




* Minúsculo tassalho do texto As cinco categorias de Ovalle – que na íntegra não será publicado neste espaço por egoísmo de quem aqui escreve