segunda-feira, 11 de agosto de 2008

.apenas um delírio.


O piano soava ao fundo, batia no fundo dos pensamentos. Era inevitável, não era tão impossível, pertinente talvez e muito provável que não fosse nada. A lâmina lambendo a carne, suavemente. O sangue salpicando preguiçosamente a roupa, o chão, as paredes, o universo e todas as estrelas mortas que se perpetuam todo dia ao anoitecer. Não podia mais se importar. Talvez tenha sido o filme, as músicas, as tragédias anunciadas aos poucos nos jornais. A visão entre as pessoas, um pouco além. A não distinção entre sonhos e delírios, o gosto disfarçado pelo sofrimento alheio. O piano soava e parecia aumentar ainda mais. Uma melodia qualquer, sinistra. Melodia, melodia. Limpava o nariz com o dedão e se fazia palhaça de circo, personagem tristonho com o riso no rosto. Ria de si mesma e da situação pouco improvável. Não, aquilo não tinha graça alguma. Os braços retorcidos, a roupa rasgada e a violência gratuita guiada por um impulso desconhecido. A televisão seria a testemunha, a única que falava na sala, no ambiente vazio, sujo, imundo, porcamente higienizado para uma possível viagem. As melodias, as melodias. O movimento hesitante, a faca cortando o momento de dúvida e toda a certeza de que estava num problema sério. Não precisava fazer tanto barulho por um corte tão levemente profundo na garganta. Um corte nos pulsos. Sangue por todos os lados, uma piscina escarlate. Um filme. As informações ricocheteando pela sala, reverberando com a voz dos atores. Um fósforo apenas inteiro para queimar uma precisa floresta única. As bordas sujas, as imagens desconhecidas, as idas e vindas. O conhecimento de que era preciso apenas um fósforo para queimar uma floresta inteira. Quando menos esperava, a mão alheia já estava cobrindo suas digitais.

Após chupar a fumaça e guardar a loucura nos pulmões, olhou pela persiana sem a real intenção de fazê-lo. Inventou uma desculpa qualquer e desceu apressada as escadas do prédio.

Um comentário:

Isa disse...

piano... sempre ele...

com sangue?

boa mistura