quinta-feira, 21 de agosto de 2008

.malacara.


– Preciso encontrar Malacara. Mas em que deserto frio será que está? Em qual galpão terá se metido? Será que anda a zanzar por pradaria outras? É bem provável, eu acho. Malacara sabe quem eu sou, sabe como sou e como serei daqui a uns anos. Malacara me entende, eu acho. Mas foi embora. Simplesmente foi embora. E eu não sei o porquê. Talvez até saiba e não queria aceitar. Na verdade é isso, e eu só não quero comentar aqui o motivo. O fato é que foi embora. E eu aqui sem o meu lugar, sem estar por simplesmente estar. Se hoje trago esta ferrugem nos olhos e um pouco de fuligem no peito e todos os sentimentos venais é porque eu acreditei muito em Malacara. Toda esta parca coragem eu consegui ao lado de Malacara. Eu, que cultivei por pouco tempo e modestamente uma barba rala para convencer um sem-número de pessoas, alguns músculos para as eventuais brigas e para convencer que não sou tão frágil assim, as mesmas palavras que para mim foram ensinadas; tudo foi por causa de Malacara. Hoje em dia o que é mais estranho para mim é o fato de Malacara ter ido embora sem avisos prévios, sem explicações plausíveis, sem despedidas ou mesmo um aceno cheio de mensagens subliminares. Malacara foi meu motivo de noutes em claro, de substâncias ilícitas e de todo um sem-fim de cousas adversas. A minha ablução sentimental foi obliterada, confesso. E por culpa de Malacara. E será que posso usar termo tão pesado, tão violento e agressivo para uma situação como esta? Não sei. Peitinhos assaz e bundinhas assim, trilhas outras e essa saudade assim cinza e sinistra – que me manca o peito e faz capengar a coragem de entrar em erupção. A raiva faz isso, mas Malacara havia me roubado essa vontade, esse direito. Toda vez que olho pela janela e vejo o mesmo céu refletido no espelho, sinto-me num labirinto de imagens. Vê, um céu emoldurado no espelho, e outro maior ainda seguro pela janela, sendo que um está contido no outro, e o outro é aquele mesmo. É como me sentia quando Malacara estava aqui. Eu-espelho no céu-janela de Malacara. E por ser efêmero em saudades, acho melhor acreditar em pressentimentos.

– Não achas em vão acreditar em pressentimentos? Malacara foi embora, e isso já basta, não? Não achas melhor seguir a vida sem Malacara?

[O iminente artista pára e olha fixamente para as lembranças que fugazes passam diante dos seus olhos. Dá um suspiro.]

– Seguir sem Malacara? Vou ter de seguir, claro. Mas um cachorro como aquele não se encontra em qualquer lugar. Eu tento esquecer Malacara. Eu realmente tento não me prender às lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças boas lembranças. Mas é como escreveu Jung: aspasAquilo a que você resiste, persisteaspas. O senhor sabe disso. E por isso acho melhor terminar a entrevista agora. Quero ir para descansar.

[O quase jornalista desliga o gravador, confere as anotações. Guarda tudo numa bolsa e sai do carro sem se despedir. Enquanto isso o entrevistado se afoga nas lembranças que nutre por Malacara.]


– Oquei! Corta! Muito bom. Vamos repetir a cena para pegar tudo de outro ângulo, de dentro do carro. Mas só da parte final do diálogo, certo? Podem descansar um pouco.


*Foto: ISIS, priscilla.

Um comentário:

Morteboa disse...

A vida sem (Mala)Cara não me parecem muito boa, mas há esperanças...a esperança. Vou deitar.