domingo, 24 de agosto de 2008

.questão de tempo.


Não foi por maldade, mas tive de arrancar os dedos das mãos dele. Eu queria ter para sempre as impressões que ele tinha do meu corpo, da minha geometria irregular e moldada a insuficiências sentimentais. Esperei o momento certo, a hora exata. Arranquei dele os dedos, e guardei todos numa caixa prateada. Esperei que apodrecessem para abrir a caixa e sentir o perfume natural daquele que foi o homem que mais me satisfez. Sentia-me excitada com tal aroma, com ele sublimado entrando de novo em mim – e de alguma forma me satisfazendo outra vez. Eu abria a caixa religiosamente duas vezes todos dos dias. Ia eu trabalhar com ele ainda fresco em mim, alimentando memórias e me completando alucinadamente. Era uma espécie de vício, confesso. Eu ficava mais desperta, mais amável com as pessoas. E de noute, quando já desbotada pelo cotidiano, eu abria a caixa e me masturbava com ele preenchendo o quarto. Eu desligava a luz e deixava só o fiapo claro por baixo da porta que vinha da sala como testemunha do meu prazer. Uma música qualquer de fundo para abafar meus sustos, meus espasmos. E assim eu vivia até a pele sumir, até o cheiro desvanecer e virar um resquício de lembrança, um resto de memória.

Quando esvaziei a caixa prateada, senti um aperto no peito, uma falta de ar. Eu ia ao encontro do cotidiano cabisbaixa, decepcionada com a efemeridade dos seres humanos. Fiquei umas duas semanas chorando pelos cantos e regurgitando prazeres oníricos. Até comungar da idéia de me enamorar outra vez.


Um comentário:

Sanvários disse...

Masturbação ana ou vaginal? Dizem que isso faz muita diferença....