terça-feira, 5 de agosto de 2008

.um dantas.


Almejava apenas a felicidade, um simples desejo – venal e até compreensível hoje em dia, ainda mais se levarmos em conta os muitos afazeres e moscas carpideiras a nos louvar e cuspir. Ainda mais se levarmos em contas as mulheres-bicheiras a nos beijar e cobrir. Ele esperava a redenção e a felicidade. Não fazia mal a ninguém. Funcionário público dedicado, obediente e alheio aos valdevinos escusos com suas propostas cinematográficas. Emulação comedida, tímida – risível, convenhamos. Subir na vida era um detalhe que poderia ser dividido com afinco e perseverança com todos ao redor.

Evitava as brigas oferecendo a cara à tapa. Evitava xingamentos deixando ofender-se gratuitamente. Não via maldade e malícia nos olhares. Até se envergonhava quando por descuido ou cisco ou mesmo lascívia alguém para ele piscava. Segurava mãos femininas para ajudar e não para digitar segundas e quintas intenções. E quando o fazia – por ser de inevitável proporção o talante que o afligia – era sempre com as mais sinceras intenções. Os pensamentos mais soezes eram deixados sob alguma memória distante, sob algum desentendimento interno. Ele era a encarnação do poema em linha reta: não um semideus, mas um sujeito vil em sua ingenuidade gritante.

[...]

Não se casara por não encontrar quem suportasse tamanha bondade, tamanha pureza de espírito. Claro, de quando em vez exercitava uma ou outra esperteza, mas só para fazer do riso alheio um amuleto. Só para alimentar o humor dos que estavam próximos. Ah, como ele era um sujeito de bom coração! Decorava nomes, datas e nunca decepcionava ninguém. Ou pelo menos acreditava piamente que não o fazia. Queria sempre agradar, e não pensava se as pessoas queriam mesmo esse agrado. A primeira namorada o traiu. A segunda o deixou. A terceira não chegou.

Rezava diariamente engolindo como desgraça a cachaça sacra que de graça recebia dos amigos mais íntimos. Religião forjada, é claro. No fundo sabia o quão idiota era para a maioria das pessoas. Ficar bêbado para anestesiar o forjar, para obliterar a amarga doçura do seu ser. Humilde sujeito, simples de coração.

[...]

Num domingo, contudo, por pouco deixou-se levar por instintos outros. Alguém mandara um bilhete insinuante, provocador. Um estímulo ao exercício de sua calma, devem ter pensado. Um convite de última hora, uma hesitante aceitação. Bebidas e bebidas e riso. A pureza de seu coração palpitou na nota errada do samba, cadenciou no verso malandro inesperado. Jogou o copo numa das paredes do quintal e ficou assustado com os olhares. Ah, os olhares! Nossa, para que isso?, devem ter cochichado. A música parou, a conversa animada parou. A alegria deu um passo em falso e caiu. A mão tremeu, as palavras miaram e tudo se desanimou naquela seqüência de frames meticulosamente desenhada ao longo dos anos.

Saiu sem graça, sem se despedir. Sem muita pressa ou qualquer indício de coragem. Sentou-se na grama à espera de um sopro de alegria. Sentiu uma brisa, apenas. Um suspiro de reprovação.

O suficiente, porém, para alegrar – mais uma vez – o seu simples coração.




* Minúsculo tassalho do texto As cinco categorias de Ovalle – que na íntegra não será publicado neste espaço por egoísmo de quem aqui escreve

Nenhum comentário: