quinta-feira, 14 de agosto de 2008

.uma questão de tempo.


Estávamos a uma velocidade acima do normal, acidentalmente desrespeitando os limites aceitáveis que as placas exigiam. Os cabelos manchavam o vento e os movimentos com as mãos imitavam ginastas prestes a cair – e que se levantavam num rápido movimento para o nada. A música alta atordoava os pensamentos: muitos metais, bateria cubana, vozes díspares, refrões duvidosos e tudo mais que a orquestra pouco ortodoxa – que escolhemos a esmo – podia proporcionar musicalmente naquele momento. Estávamos deveras rápidos, rindo sem um motivo específico, mas tendo a certeza de que aquilo não duraria para sempre. Nada dura para sempre, é bom lembrar.

A ponte seria um bom local para respirarmos o ar fétido que o rio poluído emanava. Paramos sem cerimônia, abrimos as portas e deixamos os risos acompanharem as partituras da orquestra. Tínhamos a cidade deserta e todas as horas possíveis da noute para embriagarmos com conversas fúteis e risos ensaiados e elucubrações chochas e ilações absurdas e teorias vazias e mais uma miríade de diversões que a gente compra lendo orelha de livro. Não pensávamos, de fato, nessas possibilidades. Cada qual ficou em seu acento descolorindo aos poucos a situação.

A música já não fazia mais tanto alarde, e a cabeça ricocheteava versos soltos, frases musicais descompassadas. O sol rompia o hímen da madrugada aos poucos, e todo o prazer que sentíamos há pouco sublimava. Olhei pelo retrovisor para ver o futuro. Era tarde demais, amigo. Tarde demais para rir de lembranças.

Nenhum comentário: