terça-feira, 16 de setembro de 2008

.o funcionário.


As estruturas do primeiro andar ruíram, eu podia sentir. Eu estava no décimo primeiro quando o início da queda se mostrou em som e poeira de concreto. Ela trazia estampada no olhar a frase ‘hoje não’, e eu dizia que seria apenas um detalhe em nossa história. O escritório de tantas entrevistas, tantas conversas e tantas histórias incompletas: sujeitos que passam e que se vão sem deixar raízes em mim. E ela sentada em minha frente com algum tipo de sentimento que era diferente do que comumente exibia nos risos e abraços e afagos. Os cachos sobre os ombros despidos, a tez levemente dourada e lábios com uma língua estrangeira, almofadas que proferiam palavras ainda sem idioma, mas que meu senso desnorteado conseguia entender – ou pelo menos parecia entender. O vestido amarelo estampado, o decote providencial e as mãos bonitas que um dia eu tentei desenhar no verso de uma fotografia. Eu analisava tudo minuciosamente, cada costura, cada detalhe, cada matiz, cada mancha ou sarda. E em câmera lenta o primeiro e o segundo andar caíam, desabavam, viravam poeira e levavam consigo tudo a um ermo qualquer. Ela nem sequer se mexia, apenas suspirava e esperava que eu contasse a verdade, que eu suplicasse perdão. Aos diabos!, pensava eu desaforado ao desviar do olhar inquisidor dela, e tentava me concentrar em algo além da destruição do edifício.

A secretária havia deixado o escritório há horas, pois sabia da possível implosão do edifício. Adiantou recados, papéis e toda a agenda do dia. Cancelei todos os compromissos para recebê-la, mesmo sabendo que poderia ser perigoso para ela. Ela chegou atrasada, sem avisos ou apresentações. Apenas entrou e se deixou levar pelos tênis que um dia sambaram comigo em ladeiras e que deixaram impressões de lama em minha casa após uma chuva inesperada. Foi como no primeiro encontro, no primeiro caminhar de mãos dadas. Aos diabos, eu pensava já sem tanta força ao sentir o quarto andar cair – percebendo que eu mal notara a queda do terceiro. O quinto e o sexto também logo virariam pó, e mesmo com os tremores cada vez mais próximos, eu pressentia que ela não se abalaria. Irredutível em sua frieza, em seu mesquinho autismo sentimental – pelo menos naquele momento, e pelo menos para mim.

O prédio estava vazio há dias, há tempos, há anos. Talvez fosse eu o único funcionário que ainda esboçava esforço ou que, ao menos, tentava encontrar motivação. No fundo eu sabia que merecia aquele emprego, e achava bom ter de me levantar todo dia – mesmo que mecanicamente, com cacoetes de uma rotina – surpresa! – imprevisível. Era difícil eu receber clientes, confesso. A agenda estava sempre cheia de horários e obrigações e compromissos, mas sempre de última hora eles eram sumariamente cancelados. No começo eu me irritava com a falta de consideração, com o descaso com o profissional que gastou os melhores anos de uma vida se enchendo de um conhecimento pouco prático e cuja importância se limitava a contar vantagens em mesa de bar. E nem este exercício de afagar o ego eu tinha tempo, pois a agenda não me permitia sair com meus amigos – a essa altura da vida, todos imaginários. A minha vida havia se tornado um catálogo de desilusões, e os preços eram obrigações servis a um patrão que nunca aparecia nas reuniões da empresa. O salário nunca atrasava, é bom salientar. E malgrado eu ser o mais e único funcionário empenhado na empresa, eu nunca ouvia um agradecimento ou encômio pelo serviço em dia.

Eu embrulhado num terno da moda, e ela num vestido humildemente costurado, forçosamente ilustrado com estampas baratas. O corpo dela ajustado no tecido, pele e cor, pano e suor, libido e bons modos. Fechei um olho forçando a memória, e como quem está sob o sol do meio-dia, logo fechei o outro para poder escurecer a vista e assim enxergar, de fato, o que eu procurava em minha ilha de edição. Éramos um casal incomum, ambos imersos me nossas vicissitudes de fim de semana, em nossas conquistas não registradas. Éramos poemas em linha reta, orgulhosos de nossa existência desapercebida, tímida ao extremo. O nono e o décimo andar há tempos se elevavam aos céus em uma nuvem cinza, tóxica. Eu já sentia o chão me sumir dos pés, e meu andar estaria suspenso numa dança difícil de acompanhar o ritmo. Ela permanecia imóvel, impaciente já, mas ainda sem demonstrações explícitas de irritação. Eu já sabia do novo amigo dela, de suas novas conquistas – realmente cousas admiráveis –, mas eu não podia abandonar meus compromissos para contar a única verdade – que tatuei nas costas minhas justamente para eu não ler e decifrar as entrelinhas. Abri a janela e me pendurei nela antes que o chão sumisse. Estendi a mão a ela em silêncio a fim de evitar mal entendidos. Fui solenemente ignorado.

Aos diabos, disse eu baixinho antes de fitar de soslaio toda aquela lascívia cair de uma altura incomensurável para meus olhos tão acostumados a cair. E bem sei que apenas finjo quando não entendo algo.

Fiquei o restante do dia na janela assobiando. Eu previa minha demissão. Por isso me dei ao luxo de sair no meio da tarde para caminhar e me deixar absorto em singelas observações.

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