quinta-feira, 11 de setembro de 2008

.princípio da carniça.


A conversa ia já cansada, tropeçando em ideologias outras e clichês lingüísticos. A discussão seria inevitável. Os goles preguiçosos, o olhar cambaleante, o raciocínio superficial e fugaz. Tudo muito aquém de uma aposta literária. O assunto era outro, mas ele ficou transtornado – e isso é aqui afirmado tão-somente após uma minuciosa interpretação de ademanes e suspiros. A perturbação era gritante, dava sede e mais sede, e toda a cerveja do mundo não seria suficiente para alagar a garganta amarga do sujeito e seu jeito piegas de se expressar.

Conteve a fúria mordendo o beiço inferior, fez sinal com uma mão para trazerem mais uma cerveja enquanto com a outra enchia o copo com espuma. Num rebojo de idéias e sentimentos eivados por uma decepção, danou-se a praguejar profecias. Depois de uma pausa, falou em tom sério:

– Tu sabes que tudo pode ser explicado pelo princípio da carniça, não? A mulher fica com o cara rico assim como as mulheres primitivas ficavam com o cara que cheirava a carniça, pois o fedor indicava que ele sabia onde tinha comida, mesmo que podre. É o mesmo que acontece com os cachorros, que procuram ter esse cheiro para que as cadelas se aproximem. As mulheres hoje em dia ficam com caras que aspasfedemaspas a dinheiro, sabia? É machista? É, mas é o que acho. Elas pensam em estabilidade, em poucas preocupações. Às vezes acho que, no meio das dificuldades, se eu tivesse nascido mulher as cousas seriam mais fáceis. Na verdade eu queria ter nascido Gimenez. Como ela, basta saber o momento certo para abrir as pernas – ao cara certo, é bom lembrar – e conseguir engravidar. E aí dinheiro vai ser souvenir, artigo que se consegue em quitanda, entende?

Bebeu mais um gole com capricho. Ameaçou continuar a conversa, mas o desinteresse de quem o ouvia era evidente. Ficou chateado por ver sua jóia platônica passar mais uma vez de mãos dadas com outra pessoa. Viu-se como um Chinaski demasiado desiludido. E ao ver o início de riso na extremidade da boca de quem o acompanhava naquele instante de sofrimento previsível, arrancou a exígua consciência, arrotou o escasso bom-senso que ainda guardava em si e enfiou o dedo na garganta para vomitar agruras que o perturbavam há tempos. Voou no pescoço do amigo. Acertou murros no rosto, no peito, nos óculos.

Após ser puxado por desconhecidos, observou o sangue nas mãos, as lentes quebradas, o chão e a cerveja derramada. Suspirou com um quê de constrangimento e tentou encarar os olhares de terceiros. Sentia-se cheiroso demais para aquele momento de testosterona à flor da pele.

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