sexta-feira, 28 de novembro de 2008

.manhã de domingo.


Eu expresso calma, uma calma incomensuravelmente distante. A lembrança latejando uma saudade recente, uma novidade incomum com tanta cousa em comum. As sensações se confundem, misturam-se como tinta em água. Aquarelam-me, mancham-me. E maculado eu tento guardar cada pedaço, cada parte que de mim se desprende à medida que me distancio. Um, dous, três, sete dias depois. Não faz diferença. É caustrofóbica a saudade, ébria de um querer-estar, úmida de um querer-ser e demasiadamente suja de algo inefável. Talvez seja por isso que me arranquei os olhos momentaneamente: para somente ver tudo em lembranças, e aceitar o toque como condição para novos olhares.

Esqueçamos a loucura da noute anterior. Lembremos apenas dos malabares encantando o olhar. A falta de jeito e a paciência. Sim, esqueçamos a loucura da noute anterior e fiquemos com o barulho zunindo o ouvido e o começo de manhã aproximado. Um começo de manhã e nós bem próximos: um caminho que pedia os passos, atalhos que se escondiam. A minha melhor risada dos últimos tempos. A melhor forma de gastar minha timidez e de ser, em pensamento, sacana. Esboçar nos olhos alguma malandragem ou malícia descabida. A minha melhor risada nos últimos tempos. E tantas cousas em comum! Lugares comuns que não são enfadonhos, que não são clichês de filmes românticos. Uma noute à distância. Uma manhã abraçada, tatuagem feita com sede e afagos.

Ah, a falta de tempo, é claro. Lentamente eu me apressava para partir. Um último abraço, um último beijo e a impressão de que aquilo deveria ser em slow motion. Estávamos trocando em miúdos ao contrário. Nossa mudança talvez nunca seja concretizada – mesmo se a vontade ultrapasse as molduras desta saudade pungente. Deixar descer a ponte para descansar o corpo – e para plantar as primeiras lembranças de uma manhã de domingo. Falta-me ar nesta cidade vizinha. E por sentir ainda os lábios me formigarem os desejos – mesmo estando eles com um agridoce gosto, talvez por causa do cigarro matinal –, cego-me de novo para materializar em pensamento a manhã de domingo.

Por enquanto, só o gosto artificial de sabores já conhecidos. Os ignotos aromas e as ainda não ouvidas tessituras me encantam à distância. Eu exercito a lembrança correndo contra a saudade, nadando a favor de uma maré de dèjá vu. E me artificializo, também, para que da outra margem alguém acene pedindo socorro.


terça-feira, 18 de novembro de 2008

.prosopopéia.


– Dá-me tua próclise para eu ficar ênclise de ti.
– Não posso ainda.
– E por que não?
– Porque há uma mesóclise entre nós.
– Esquece isso.
– Como esquecer, se a parábola é clara e tuas metáforas não me cativam como outrora?

Apenas silêncio. Os corpos nus respirando mecanicamente. E o pensamento fulgurando sotaques algures.

– Vamos ficar assim então?
– Como poderia ser diferente se sou analfabeta de ti até hoje?
– Mas sabes me interpretar ainda, então eu ach-
– Não aches nada. Não existe mais prazer.
– Meu hipérbato pode resolver a tua semântica. Eu garanto.
– Não adianta, somos antíteses desde sempre e não percebemos.
– E não há como reverter essa nossa linguagem figurada?
– Só se desaprendermos o vernáculo e inventarmos outra gramática, outras regras.

Vestiram suas respectivas roupas com preguiça. E foram adrede sem mais dizer palavra alguma.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

.sobre a arte de fotografar.


O calor era infernal, e o dia mal havia sido vomitado. Estávamos num ponto privilegiado, um mirante onde um gélido vento nos lambia o rosto e trançava os cabelos. Eu havia confundido o horário e cheguei atrasado. Perdi a festa na noute anterior – regada a drogas, bebidas e tudo que ilicitamente pode trazer uma efêmera alacridade. Eu via nos olhares um resto de loucura, um misto de cansaço e desprezo por mais um dia ensolarado. Eu deveria ter ido para registrar o ânimo alheio, a algazarra de terceiros que eram intérpretes anônimos. Com minha melhor máquina eu tentei fotografar algumas nuances, mas meu amigo W. não me permitiu. Sujeito forte e de inteligência aos trancos, ele foi logo descascando gentileza e dizendo que aquele não era o momento e que se eu ousasse fazer aquilo ele me acertaria a cara. Olhei de soslaio para o mau-humor dele – alegria pós-drogas – e cliquei algumas saias esvoaçantes, cabelos dançando e trapos de gente se costurando aos beijos. Uns tantos se abraçavam por incúria e outros por medo de cair. Atrasado como sempre eu perdi todos os créditos dos filmes e nem vi a atuação dos grandes nomes daquela película experimental. Mas eu estava ali com minha melhor máquina e meu olhar pouco profissional. Sapatos, mãos, olhos semi-cerrados e aquele ar de nostalgia contemporânea – uma saudade besta, dessas que a gente sente sem saber nem o porquê e só o faz por alguma conveniência estética. Eu havia levado apenas um filme, mas eram muitas poses – mais do que suficientes para aquele tipo de ambiente quase inerte. Sem prestar atenção eu decidi trocar a lente para alcançar melhor os pontos de fuga que faiscavam das bocas e que reluziam em beijos suados, grudentos. E nisso o meu amigo de infância W. acertou-me a cara como havia prometido. Caí sem graça como manda o figurino. Os poucos menos ébrios ou distantes se apressaram em me acudir. Arregalei os olhos e vi W., um dos meus melhores amigos, em câmera lenta me xingar e me apontar o dedo em riste, ameaçador. Ignorei o momento, claro. Entrei em meu carro ano 98 e saí apressado da paisagem. Eu precisava de menos vento, de menos calmaria.

Liguei para a casa de W. A mãe dele foi quem atendeu. Pedi a ela que saísse um instante fora da casa dela, pois seu filho estava com problemas na rua. Fiz todo um diagnóstico assustador, sinceramente maldoso. Ao sair e ficar olhando para os lados com os olhos marejados – e isso eu confesso orgulhoso –, ela mal teve tempo de desviar da frente do meu carro antigo. A cabeça dela trincou o meu pára-brisa e deixou uma mancha singela de sangue. Saí calmamente e tirei uma, duas, três fotos. Procurei o melhor ângulo, uma posição que expressasse o momento e a angústia da minha natureza morta. Sentei na calçada e me forcei a imaginar a reação de W. ao receber aquelas fotos sem cores.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

.impressões de um falso ermitão.


Eu desisto mais por entender tal ato com um exercício de paciência. As cousas estavam quentes quando decidi ir atrás de ti, os acordes estavam soando altos e precisos. Foi uma decisão precipitada, talvez, mas necessária. Ainda mais depois de ler a missiva que deixaste próxima aos nossos discos preferidos. Deixei a agulha rabiscar uns instrumentais para ler o teu convite ao contrário. Depois de tanto tempo juntos e dividindo as amarguras de um dia-a-dia tão sem sal e sem entender o que fazer para temperar o nosso ordinário faz-de-conta; depois de tanto dividir copos diferentes para matar a mesma sede; depois de dividir pieguices e afinidades díspares; enfim, depois de um amontoado de cousas que só ganha relevância com o passar do tempo tu me deixas uma missiva com poucas explicações. Apontas números, indicas cirandas e sugeres melodias, mas com uma inútil maestria. Lados a, lados . Leio e releio tuas palavras grosseiramente manuscritas para um fim enquanto os discos se repetem nos mesmos arranhões que um dia reclamaste. Talvez, com essa viagem inusitada, estejas apenas adiantando a importância do que anteriormente citei e de outras que convém não explicitar assim tão desaforadamente. É uma opção tua, mas, a meu ver – e que traz, claro, um pouco de egoísmo –, pouco urgente no momento.

Olhei pela janela do avião e vi as montanhas cobertas de neve. Uma imagem bonita, calma. Imaginei todos os passageiros ensangüentados, demitidos de suas existências chinfrins. E eu, claro, desfigurado em algum ponto dos Andes. Mas foi uma visão passageira, pois a aeromoça bonita me chamou a atenção para sentar e apertar o cinto. Sufocar a cintura para viajar entre as nuvens, para ir a um lugar que me apressei em percorrer lentamente com os olhos em um mapa alheio. Pouco importa. A ansiedade de te estranhar em terras estrangeiras crescia a cada turbulência – e isso me roubava o sono, pois num dos aeroportos do país nosso natal eu fiquei quase doze horas esperando o vôo oficial. Sentar, empurrar bagagem, ouvir programas televisivos sobre esportes em plena madrugada, assistir o corre-corre das pessoas, a beleza dos invisíveis. Nada tirava o tédio, confesso. Dormir não me era possível. Sem música para preencher as lacunas. Apenas um livro ilustrado magistralmente, mas que eu tinha pena de ler por achar que em uma semana eu teria mais tempos livres como aquele. Uma semana no estrangeiro para te estranhar e te buscar não em palavras – como sugeriste na missiva –, mas em perfumes e flores e sabores e passeios e em tudo mais que fosse possível. Talvez ser subversivo em ti, apenas para tentar convencer a mim mesmo de algo. Tu já sabias o suficiente, e por isso ignoraria a minha estupidez, o meu idioma quebrado e exíguo.

Estranhei o aeroporto, as pessoas, o dinheiro, o tempo e as cores. Parecia uma película inédita para as minhas retinas míopes. E na verdade era exatamente isso! O passeio até o hotel barato que reservei – já treinando o meu espanhol esfarelado – já gritava os porquês de teres escolhido tal lugar para de mim se esconder. Era compreensível, malgrado eu saber no fundo que podias nem mesmo estar ali. Praças bonitas, ruas limpas e bem sinalizadas, pessoas agasalhadas e muitos rostos com traços europeus. Viver comigo num país modorrento como o nosso era castigo, era subestimar teus talentos – os mesmos que lapidamos em noutes embaladas a batidas improvisadas. Por isso a escolha desse país, não? É compreensível.

Eu me perdi já no primeiro passeio pela cidade. Apesar de entender o pequeno mapa que desenhei na palma da mão, o suor do estranhamento curvou ruas, mudou avenidas e algumas calçadas se confundiram com as linhas mal traçadas, com o eme que quase todos têm nas mãos. Acariciei com os olhos cada mulher que passava me encarando. E elas o faziam talvez por estar eu com a barba por fazer, ou por exibir traços esdrúxulos para aqueles padrões, ou por andar com os antebraços nus naquele vento frio. Não sei explicar, malgrado os afagos meus não serem necessariamente aceitos ou correspondidos. E só o confesso por saber que deves ter acariciado tantos outros que nem quero um dia saber. Sei bem dos teus cílios e de quão ruidosa pode ser uma piscadela tua.

Caminhar pela cidade nova era um desafio. Como te encontrar no meio de tanta gente? E como pedir informação a quem não me entende? E como imaginar um pôr-do-sol ao teu lado – por mais piegas que possa ser tal exercício de minha morna verve – se o dia só escurece às nove horas da noute? Por três dias eu te procurei na mesma linha de metrô – sempre a mesma por medo de casualmente me perder. E sempre, confesso, eu me encantava com os rostos, com as cores e com o movimento ao meu redor. Ter-te como desculpa para devaneios em uma língua outra era bom nos instantes em que eu simplesmente ignorava os avisos em vernáculo alheio. Eu ignorava encômios, xingamentos e ironias em espanhol e em outros idiomas que a minha interpretação não alcançava. Eu te desafiava mentalmente para saber quem iria jogar a toalha mais cedo. Perceber os olhares alheios quando eu falava algo. Repetir palavras simples. Encurtar idéias. Gesticular demasiadamente estranho. Eu fazia de tudo um pouco para poder navegar naquele rio de estranhamento. Mas eu era estranho! Queria saber se estavas assim também: a dar voltas no mesmo quarteirão por não decorar o nome das placas. Talvez estivesses em melhor situação e até convertendo – com um olho fechado e outro aberto – a moeda local. Eu era um estranho naquele mundo de miudezas importadas made num país latino-americano.

Num determinado dia, depois de me frustrar com a minha falta de recursos, fui para uma das praças com a intenção de ganhar dinheiro. Pantomima. Não consegui muita cousa, mas vi uma banda do exército, as bandeiras hasteadas e um mundaréu de gente caminhando e falando rápido. Caminhei e falei com terceiros um pouco do que aprendi contigo. E no final do dia, depois de todos os ônibus terem ido embora, consegui uma carona até uma estação e peguei o último metrô. Fui a um bairro boêmio. Bebi e bebi com a intenção de esquecer e ser esquecido. Vi artistas de rua, quase uma briga e muitas caras maquiadas. Bebi muito além do que eu normalmente me permito beber, e com a fala malemolente embarquei num táxi. Um passeio noturno pelo centro: travestis, caminhões de lixo, poucos carros e quase ninguém nas ruas. Cambaleei até a cama e procurei não me mexer: não queria espantar sonhos ou sensações agradáveis. Ronquei como um porco, e no excesso de sono eu embarquei de volta.

Desisti no meio do caminho, no alto do teleférico, próximo ao porto, em frente a placa com um sentido desagradável. Lembrei dos mendigos, dos prédios grandes e de todo um cotidiano rápido e em espanhol. Voltei com as retinas frias, manchadas de um colorido tão preto e branco que te desafiaria. Mas adrede me falta coragem para te encontrar. E talvez seja por isso que desisti. Voltei sem te trazer, e de mim deixei traços e uns debuxos mal coloridos – num vernáculo mal traduzido que me ultrapassa as fronteiras.