terça-feira, 4 de novembro de 2008

.impressões de um falso ermitão.


Eu desisto mais por entender tal ato com um exercício de paciência. As cousas estavam quentes quando decidi ir atrás de ti, os acordes estavam soando altos e precisos. Foi uma decisão precipitada, talvez, mas necessária. Ainda mais depois de ler a missiva que deixaste próxima aos nossos discos preferidos. Deixei a agulha rabiscar uns instrumentais para ler o teu convite ao contrário. Depois de tanto tempo juntos e dividindo as amarguras de um dia-a-dia tão sem sal e sem entender o que fazer para temperar o nosso ordinário faz-de-conta; depois de tanto dividir copos diferentes para matar a mesma sede; depois de dividir pieguices e afinidades díspares; enfim, depois de um amontoado de cousas que só ganha relevância com o passar do tempo tu me deixas uma missiva com poucas explicações. Apontas números, indicas cirandas e sugeres melodias, mas com uma inútil maestria. Lados a, lados . Leio e releio tuas palavras grosseiramente manuscritas para um fim enquanto os discos se repetem nos mesmos arranhões que um dia reclamaste. Talvez, com essa viagem inusitada, estejas apenas adiantando a importância do que anteriormente citei e de outras que convém não explicitar assim tão desaforadamente. É uma opção tua, mas, a meu ver – e que traz, claro, um pouco de egoísmo –, pouco urgente no momento.

Olhei pela janela do avião e vi as montanhas cobertas de neve. Uma imagem bonita, calma. Imaginei todos os passageiros ensangüentados, demitidos de suas existências chinfrins. E eu, claro, desfigurado em algum ponto dos Andes. Mas foi uma visão passageira, pois a aeromoça bonita me chamou a atenção para sentar e apertar o cinto. Sufocar a cintura para viajar entre as nuvens, para ir a um lugar que me apressei em percorrer lentamente com os olhos em um mapa alheio. Pouco importa. A ansiedade de te estranhar em terras estrangeiras crescia a cada turbulência – e isso me roubava o sono, pois num dos aeroportos do país nosso natal eu fiquei quase doze horas esperando o vôo oficial. Sentar, empurrar bagagem, ouvir programas televisivos sobre esportes em plena madrugada, assistir o corre-corre das pessoas, a beleza dos invisíveis. Nada tirava o tédio, confesso. Dormir não me era possível. Sem música para preencher as lacunas. Apenas um livro ilustrado magistralmente, mas que eu tinha pena de ler por achar que em uma semana eu teria mais tempos livres como aquele. Uma semana no estrangeiro para te estranhar e te buscar não em palavras – como sugeriste na missiva –, mas em perfumes e flores e sabores e passeios e em tudo mais que fosse possível. Talvez ser subversivo em ti, apenas para tentar convencer a mim mesmo de algo. Tu já sabias o suficiente, e por isso ignoraria a minha estupidez, o meu idioma quebrado e exíguo.

Estranhei o aeroporto, as pessoas, o dinheiro, o tempo e as cores. Parecia uma película inédita para as minhas retinas míopes. E na verdade era exatamente isso! O passeio até o hotel barato que reservei – já treinando o meu espanhol esfarelado – já gritava os porquês de teres escolhido tal lugar para de mim se esconder. Era compreensível, malgrado eu saber no fundo que podias nem mesmo estar ali. Praças bonitas, ruas limpas e bem sinalizadas, pessoas agasalhadas e muitos rostos com traços europeus. Viver comigo num país modorrento como o nosso era castigo, era subestimar teus talentos – os mesmos que lapidamos em noutes embaladas a batidas improvisadas. Por isso a escolha desse país, não? É compreensível.

Eu me perdi já no primeiro passeio pela cidade. Apesar de entender o pequeno mapa que desenhei na palma da mão, o suor do estranhamento curvou ruas, mudou avenidas e algumas calçadas se confundiram com as linhas mal traçadas, com o eme que quase todos têm nas mãos. Acariciei com os olhos cada mulher que passava me encarando. E elas o faziam talvez por estar eu com a barba por fazer, ou por exibir traços esdrúxulos para aqueles padrões, ou por andar com os antebraços nus naquele vento frio. Não sei explicar, malgrado os afagos meus não serem necessariamente aceitos ou correspondidos. E só o confesso por saber que deves ter acariciado tantos outros que nem quero um dia saber. Sei bem dos teus cílios e de quão ruidosa pode ser uma piscadela tua.

Caminhar pela cidade nova era um desafio. Como te encontrar no meio de tanta gente? E como pedir informação a quem não me entende? E como imaginar um pôr-do-sol ao teu lado – por mais piegas que possa ser tal exercício de minha morna verve – se o dia só escurece às nove horas da noute? Por três dias eu te procurei na mesma linha de metrô – sempre a mesma por medo de casualmente me perder. E sempre, confesso, eu me encantava com os rostos, com as cores e com o movimento ao meu redor. Ter-te como desculpa para devaneios em uma língua outra era bom nos instantes em que eu simplesmente ignorava os avisos em vernáculo alheio. Eu ignorava encômios, xingamentos e ironias em espanhol e em outros idiomas que a minha interpretação não alcançava. Eu te desafiava mentalmente para saber quem iria jogar a toalha mais cedo. Perceber os olhares alheios quando eu falava algo. Repetir palavras simples. Encurtar idéias. Gesticular demasiadamente estranho. Eu fazia de tudo um pouco para poder navegar naquele rio de estranhamento. Mas eu era estranho! Queria saber se estavas assim também: a dar voltas no mesmo quarteirão por não decorar o nome das placas. Talvez estivesses em melhor situação e até convertendo – com um olho fechado e outro aberto – a moeda local. Eu era um estranho naquele mundo de miudezas importadas made num país latino-americano.

Num determinado dia, depois de me frustrar com a minha falta de recursos, fui para uma das praças com a intenção de ganhar dinheiro. Pantomima. Não consegui muita cousa, mas vi uma banda do exército, as bandeiras hasteadas e um mundaréu de gente caminhando e falando rápido. Caminhei e falei com terceiros um pouco do que aprendi contigo. E no final do dia, depois de todos os ônibus terem ido embora, consegui uma carona até uma estação e peguei o último metrô. Fui a um bairro boêmio. Bebi e bebi com a intenção de esquecer e ser esquecido. Vi artistas de rua, quase uma briga e muitas caras maquiadas. Bebi muito além do que eu normalmente me permito beber, e com a fala malemolente embarquei num táxi. Um passeio noturno pelo centro: travestis, caminhões de lixo, poucos carros e quase ninguém nas ruas. Cambaleei até a cama e procurei não me mexer: não queria espantar sonhos ou sensações agradáveis. Ronquei como um porco, e no excesso de sono eu embarquei de volta.

Desisti no meio do caminho, no alto do teleférico, próximo ao porto, em frente a placa com um sentido desagradável. Lembrei dos mendigos, dos prédios grandes e de todo um cotidiano rápido e em espanhol. Voltei com as retinas frias, manchadas de um colorido tão preto e branco que te desafiaria. Mas adrede me falta coragem para te encontrar. E talvez seja por isso que desisti. Voltei sem te trazer, e de mim deixei traços e uns debuxos mal coloridos – num vernáculo mal traduzido que me ultrapassa as fronteiras.

Um comentário:

Isa disse...

hei!
o chile com um gosto especial, hein?!

gostei! e por que não a trouxeste?

bocó!