segunda-feira, 10 de novembro de 2008

.sobre a arte de fotografar.


O calor era infernal, e o dia mal havia sido vomitado. Estávamos num ponto privilegiado, um mirante onde um gélido vento nos lambia o rosto e trançava os cabelos. Eu havia confundido o horário e cheguei atrasado. Perdi a festa na noute anterior – regada a drogas, bebidas e tudo que ilicitamente pode trazer uma efêmera alacridade. Eu via nos olhares um resto de loucura, um misto de cansaço e desprezo por mais um dia ensolarado. Eu deveria ter ido para registrar o ânimo alheio, a algazarra de terceiros que eram intérpretes anônimos. Com minha melhor máquina eu tentei fotografar algumas nuances, mas meu amigo W. não me permitiu. Sujeito forte e de inteligência aos trancos, ele foi logo descascando gentileza e dizendo que aquele não era o momento e que se eu ousasse fazer aquilo ele me acertaria a cara. Olhei de soslaio para o mau-humor dele – alegria pós-drogas – e cliquei algumas saias esvoaçantes, cabelos dançando e trapos de gente se costurando aos beijos. Uns tantos se abraçavam por incúria e outros por medo de cair. Atrasado como sempre eu perdi todos os créditos dos filmes e nem vi a atuação dos grandes nomes daquela película experimental. Mas eu estava ali com minha melhor máquina e meu olhar pouco profissional. Sapatos, mãos, olhos semi-cerrados e aquele ar de nostalgia contemporânea – uma saudade besta, dessas que a gente sente sem saber nem o porquê e só o faz por alguma conveniência estética. Eu havia levado apenas um filme, mas eram muitas poses – mais do que suficientes para aquele tipo de ambiente quase inerte. Sem prestar atenção eu decidi trocar a lente para alcançar melhor os pontos de fuga que faiscavam das bocas e que reluziam em beijos suados, grudentos. E nisso o meu amigo de infância W. acertou-me a cara como havia prometido. Caí sem graça como manda o figurino. Os poucos menos ébrios ou distantes se apressaram em me acudir. Arregalei os olhos e vi W., um dos meus melhores amigos, em câmera lenta me xingar e me apontar o dedo em riste, ameaçador. Ignorei o momento, claro. Entrei em meu carro ano 98 e saí apressado da paisagem. Eu precisava de menos vento, de menos calmaria.

Liguei para a casa de W. A mãe dele foi quem atendeu. Pedi a ela que saísse um instante fora da casa dela, pois seu filho estava com problemas na rua. Fiz todo um diagnóstico assustador, sinceramente maldoso. Ao sair e ficar olhando para os lados com os olhos marejados – e isso eu confesso orgulhoso –, ela mal teve tempo de desviar da frente do meu carro antigo. A cabeça dela trincou o meu pára-brisa e deixou uma mancha singela de sangue. Saí calmamente e tirei uma, duas, três fotos. Procurei o melhor ângulo, uma posição que expressasse o momento e a angústia da minha natureza morta. Sentei na calçada e me forcei a imaginar a reação de W. ao receber aquelas fotos sem cores.