segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

.sobre estar feliz.


Com as mãos presas, era difícil evitar a maldade. As pernas tremiam, a testa suava e os dedos hirtos pingavam sangue. Uma fiel imagem do desespero. Um fétido perfume no ar se confundia com muito medo e com um certo prazer sadomasoquista. O silêncio ora furava os ouvidos ora gritava rouco, lânguido. Um silêncio sacro cujo eco reverberava na pequena sala mal iluminada. Luz singela, intimista. Falta ar, e falta muita cousa além de uma parca e porca esperança. Só havia a certeza sobre a existência da ausência de Deus.

O riso tímido e escancaradamente sádico do algoz intimidava. Olhos semi-cerrados, movimentos lentos e precisos. Um tapa. Um murro. Um chute. E um palavrão para adocicar o momento do cuspe. Pegou outro palito de dentes da caixa marrom e olhou para a loura que a ilustrava. Fingiu malícia com a língua. Humor, enfim. Mas no fundo não estava satisfeito em ver as unhas avermelhadas. Aquilo era clichê, para falar a verdade. Chamou o subalterno e pediu para que puxasse os lábios do prisioneiro. Este logo arregalou os olhos, tentou balbuciar algo – mas foi calado com um belo golpe. Precisão militar, observariam alguns. Olhos chorosos. Nariz sangrando. Boca aberta e uma falta de dentes precoce. Riso incompleto. Uma graça ao avesso.

O algoz colocou o palito contra a luz e de soslaio olhou o prisioneiro. Aproximou-se lentamente e, percebendo que as cordas prendiam bem o corpo a ser seviciado, pediu mais uma vez que o subalterno segurasse bem os lábios alheios. Enfiou o palito na gengiva. Riso rubro, gemido. Olhos molhados. O algoz fez um, dous, três furos. Sentia a raiz desse ou daquele dente ainda preso. Fazia movimentos profundamente circulares adrede devagar e, então, o palito quebrou. Notando inverossimilmente um resquício de coragem no prisioneiro, disse calmamente em tom autoritário:

– Anda, confessa-nos. Diz logo.

O prisioneiro, bêbado de dor, olhou para o sujeito de boina. Queria ser encarado. E num suspiro arriscou:

Ainda... Ainda não me é o momen/////

Um murro seco o fez cuspir sangue e a última sílaba, que cambaleou no ar antes de se escorar no canto da sala. Dali em diante o prisioneiro se fez analfabeto contra a confissão. Levou mais chutes, cuspes e ofensas verbais. Ganhou mais arames embaixo das unhas, perdeu dous dedos do pé esquerdo para o alicate, e passou a exibir tatuagens nos joelhos graças ao martelo.

Enquanto tentava respirar e não se deixar rodar pelo carrossel da dor, o sujeito de boina escolhia outro brinquedo para a sua satisfação física. Uma tesoura, talvez. Corajoso, o prisioneiro ousou sorrir e balbuciar:

Só eu sei o que queres. E isso me enche de alacridade.


domingo, 28 de dezembro de 2008

.talvez, se.


É muita falta de ar, um passar mal que anima o corpo. Talvez seja muito mau-humor, muita expectativa. A frustração ocorre só de imaginar, só de pensar no que pode dar errado.

Eu tenho um castelo, todo construído com esmero de artista decadente e com alguns versos roubados. É de areia, confesso, mas é ele assim porque não pode ser de outro jeito. Se fosse de papel ou de cetim, de poesia sincera ou de prosa ruidosa, de alegria ou de tristeza mal disfarçada; enfim, se fosse de outra cousa senão areia, tudo não me faria lá muito sentido. E no fundo não faz, pois num sopro ou num suspiro de tédio as cousas perdem esse tal sentido. Como diz o poeta à beira do Madeira: quem faz sentido é soldado. Eu até entendo, malgrado saber que o meu castelo de areia é como um castelo de cartas, e sempre há alguém querendo esta ou aquela carta. E nisso todo o meu castelo se desmonta, cai. Perco o jogo, enfim.

O castelo meu, porém, é de areia, e em cada grão eu deposito um grão de desconfiança – e isso é por mim, pois há tempos tive de re-erguer essa minha construção. E se ele for derrubado por completo dessa vez, talvez demore para que eu volte e entender os meandros de uma nova construção. Eu tento ser um bom inquilino, ser um arquiteto e um engenheiro cuidadoso. Mas sabe quando fingem apagar as luzes e você sabe que os olhos estão abertos e sujeitos a novas palavras? Então, é isso que me angustia... Como saber que as lentes vão proteger os olhos alheios dos ladrões e de tudo mais que pode iniciar um desmoronamento? O mundo feérico que eu imagino sequer vai para o papel, pois meus dedos tortos não conseguem seguir os emes das mãos pequenas que um dia me abriram a porta do castelo. E talvez essas mesmas mãos estejam escrevendo cartas para ausentes que irão se hospedar – sem o meu consentimento, é claro – no mesmo castelo que um dia amansei os sonhos mais afoitos.

Eu moro na beira de uma praia distante. Não sei se avisei disso. A cena é meio estranha: um castelo na beira de uma praia. Mas este é o desafio, não? O vento sopra constantemente contra – na verdade a favor do castelo, e contra mim –, e isso vai desgastando as paredes e a cor já opaca, difusa. Eu falo que o castelo é meu, mas no fundo percebo que sou apenas um vigia. Mais cedo ou mais tarde eu terei de deixar tal forte. É inevitável, pois as raízes não são tão profundas assim. E por mais que eu me enterre, por mais que eu queria me trancafiar no calabouço e jogar a chave fora, nada é suficiente. Eu até tenho me gabado para alguns mendigos e para tantos outros trompetistas de ter o castelo, mas sei que com um passo em falso eu já o terei perdido. Quem me deixa morar nele não tem noção de quão bem eu me sinto percorrendo os seus corredores e os vãos vazios e passando por suas portas. Não, definitivamente não tem. Eu até quero estar enganado, mas o real dono talvez tenha esquecido de apagar as luzes na hora da despedida, e não percebeu que eu não havia fechado os olhos. Claro, talvez eu esteja vendo cousas, exagerando. Eu já costurei um pouco de ciúme em minhas retinas, mas foi por incúria. Se diluí sentimentos ruins em mim, foi porque alguém algures não soube me explicar a receita. Eu tive uma bula, mas a letra era demasiado pequena. Eu sou meio cego – outra cousa que esqueci de mencionar –, e me iludo com pequenas alegrias, pequenos risos. Mas a graça fica só para mim, pois quem me mostra os dentes sequer faz questão de sempre explicitar prazer. E acho graça disso. Talvez seja porque há tempos parei de rir. Mas continuo a querer acreditar que é possível que eu tenha um quarto-e-sala nesse castelo – ou mesmo uma edícula. Morar nele já me seria uma alegria incomensurável – e isso é uma cousa que não mencionei ainda. Claro, eu digo que possuo o castelo e que moro nele, mas nada disso é de fato verdade. Eu não tenho certeza. Aliás, nunca tenho certeza de muitas cousas.

A água salgada vem lamber as paredes do meu castelo quase todo dia, e as portas rangem e tudo mais vai se estragando aos poucos. É uma destruição lenta, e de um mal que não sei da origem. Afinal, quem sopra os ventos que monta as ondas? Quem salga a água que me mata a sede do avesso? Quem separa os grãos que com tanto carinho eu juntei?

E esse céu carregado me assusta, pois vai chover. Mais cedo ou mais tarde. E nisso, todo o meu castelo vira lama, vira uma lembrança – que pode ser boa ou ruim, e para isso depende apenas de como eu enxergar a desgraça de um desmoronamento. Talvez estar na lama ajude a pensar numa forma mais sólida de construir um castelo. Mas são nessas horas que um talvez tem o mesmo peso que um se, e de nada adianta ter certezas rasas. E todo mundo possui lá o seu castelo para construir, para re-erguer ou para cuidar. Implodir as favelas ao redor, contratar seguranças e nutrir esperanças lhanas. E aqui, com as chaves do castelo na mão, alimento a verve contra o qüiproquó que todo esse imbróglio sentimental me causa. O sufoco, a falta de ar. Espero apenas superar os clichês, o óbvio. No fundo, quero apenas entender o porquê de um se às vezes ser tão cruel quanto um talvez.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

domingo, 21 de dezembro de 2008

.marca d’água.


É, talvez seja mesmo implicância minha, teimosia de uma mulher que acha já sofreu o suficiente para uma só vida. Pelo menos eu acho que sofri, e tenho consciência que tal sofrimento pode ser apenas a cereja sobre a dor alheia. Não sei ao certo se terei direito a outra vida, mas se pudesse voltar no tempo com certeza eu evitaria as ofensas vazias, as palavras cretinas e as impressões mais superficiais. Acho que não soube eu precisar a medida dos meus sentimentos. Não soube calcular o tamanho da iminente tristeza, das melodias melancólicas que me cantariam o coração.

Eu sei que não era preciso aquilo, aquela cena de cinema . Fiz-me mar bravio para um barco tão pequeno, canoa furada, embarcação sem rumo. Acho que tudo chegou ao fim pela falta de palavras mais ousadas, pela falta de tortura à meia-luz. Estive longe por muito tempo, confesso, mas há dias eu pretendia voltar para acertar a nossa vida, colocar os tremas nos is e circunflexar as sílabas mais agudas. Seríamos ditongo, e evitaríamos juntos todos os hiatos possíveis.

O problema foi a saudade em demasia, o sentimento efêmero que massageava as lembranças suaves. Fui burra, confesso. Terminar assim um relacionamento tão promissor, tão bem visto aos olhos dos outros. E eu sou um outro, claro. Acredito muito em Rimbaud, e talvez seja esse um problema: acreditar em poeta. Este tipo de crença já caiu em desuso, soa como esoterismo. Mas eu insisto em crer em versos.

De quando em vez reviro umas fotos, umas missivas amassadas e regurgito essa ou outra lembrança. Fecho os olhos com afinco como quem se esforça para esquecer algo ou para buscar na poeira da memória algo importante. Vejo por alguns segundos as cenas que editei e que ainda exibem algum brilho, alguma cor que deixei escapar da paleta de sensações. Os quadros são rápidos, mas suficientes para me entortar o peito, torcer a amargura da colcha de sentimentos – deixando entre os retalhos apenas uma certeza da qual não gostaria eu de ter.

Queria eu poder não ter ofendido tanto e ter a chance de uma amizade fraterna, de poder contar as minhas alegrias canalhas e minhas conquistas ruças. Às vezes acho que o orgulho que cada um traz em si é o que estraga as relações. No meu caso, soma-se a isso a sinceridade. Sou medíocre, e por assim ser assumo e não escondo a mediocridade dos outros em elogios e olhares disfarçados. A sorrelfa do politicamente correto não combina com o meu jeans surrado e com minha camisa de vereador que ganhei na eleição passada. Talvez por isso a minha relação com ele tenha sido tão conturbada, apesar de bonita.

Agora entendo algumas situações e algumas palavras ditas em horas inapropriadas. Entendo também a minha covardia, a minha ignorância. Como já afirmei, não soube eu calcular a medida da iminente tristeza, e tão-somente aqui, na beira desse precipício, entendo as cousas que passaram em branco. Vendo esta missiva e essa foto desbotada e adrede torta, entendo muita cousa. Mas é assim mesmo, eu acho. Tenho de me acostumar com as derrotas que troquei por vitórias compradas. O riso, por mais de plástico que seja, não morre tão facilmente.

No fundo, o que me dói mais é saber que hoje ele encontrou cores em outra tela. A minha maior tristeza é saber que nosso álbum de lembranças hoje é apenas um monte de imagens aquareladas. E fico triste ao perceber que sou apenas foto em marca d’água no álbum sem capa das saudades dele.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

.frustrada tentativa de expressão de algo aparentemente impublicável – na verdade inefável – num único e verborrágico parágrafo.


- E tu achas que adiantou de alguma cousa?

- Não sei. Quem sabe.

- E quem vai saber então?

Não adiantava prender a respiração ou tentar pensar em outra cousa. Não tinha volta, ou mesmo solução. Elogios alheios? Para quê? Não, eles não serviam naquele momento. Era tarde, rapaz. Tarde demais. Talvez se tu tivesses mentido, se tu tivesses tido a malícia. Ah, isso sim seria conveniente. Mas não! Foste o ser que sempre és: o sujeito ingênuo e amigável. Dantas de natureza que acha que o suplicio é uma forma de redenção. Artística? Pára com isso! Achas que alguém liga para isso, que alguém se importa? Devias ter ficado calado, ou mesmo ter ignorado. Ter falado a verdade, quem sabe. Não adianta ouvir essas melodias tristes, chorar baixinho e imaginar a luz por trás da porta, por baixo da porta – como diz Chico. Não, não adianta. Vai dormir, é cedo já. Vai, rapaz. Esquece a situação. Perdeste todas as chances, é verdade. Sabe quando a gente chega ao topo da montanha e, de repente, sabe que tem de descer e simplesmente cai? É isso. Foste o primeiro, e sabes que vais ser o último. Talvez seja uma questão de tempo. E tempo é o que desperdiçaste, talvez. Depende do ponto de vista – sendo esta uma questão física. E a questão física é o que mais conta, eu acho. Nutrir sentimentos e cartas e palavras. Ah, para quê? Não adianta. Do que serve o sermão do padre se a missa é feita para um ateu? Reza, então. Mas para quê, se sabes que a salvação não vem por um comentário ou por um sorriso? Pensa nos prazeres em carne alheia. Pensa, rapaz. Pensa. Serviu de alguma cousa? Serviu? As imagens e tudo mais. Grandissíssima merda. Merda. Sabes o que significa essa palavra nessa situação? Merda? É, merda. Acontece. Um elogio em hora inesperada e tudo já foi. Para quê? Esperar? Foste o primeiro, rapaz. A lista vai seguir, acostuma-te. Aceita-te como uma vaga lembrança, como uma memória que aos poucos perde a cor. Sabes que estamos em uma época na qual as imagens são restauradas e que outras ganham as cores que sequer imaginam que tenham, não? Sim. É isso. As tuas cores já foram. E não adianta modéstia, ou qualquer cousa. Já estás apagado. Todo o carinho de outrora virou a espuma da cerveja: espera um tempo que baixa, que logo fica o essencial. Tens um essencial, uma essência que vale a pena respeitar? Não, não tens. É melhor esperar tudo fechar e seguir num momento de lucidez – desses momentos guardados para uma oportunidade inesperada. Conversa com as pessoas certas e tu vais conseguir tudo o que queres. Sabes disso, é assim mesmo. Para que tu queres algo mais? Para que tu queres saber se foi ou não foi? Sofrer? Vitimar-te a ti mesmo numa novela que sabes que já tens um fim? Rapaz, acostuma-te. Fica contente com o pouco que tens e te aceita como uma vaga lembrança. És isso e aquilo? Ah, pouco importa. Bem sabes que as cousas mudam, e que de repente o que passaste é a chance de outro passar. Só que em intensidade maior, redobrada. A mentira vai vir, a desculpa vai vir e tudo mais vai vir. Sabes que é assim. Se foi uma vez, vão ser outras. Aceita. É assim: a ida das pessoas são regidas por vontades, e pessoas outras entram nessas linha por acaso. É tudo um acidente. Ninguém planeja se intrometer na vida alheia e mudar o rumo. E se o faz, é por incúria, por desconhecimento do caminho de quem está a andar. Vê: tu andavas tranquilamente, até que alguém passou e te mudou a rota. Adiantou? Claro que adiantou. Vais negar tudo agora, as alegrias e tudo mais? Ser ingênuo nesse momento não é bom – nem para as alegrias nem para as verdades subliminares que tangenciam uma batida ali e outra acolá. Vê: há ademanes que vão além da interpretação simplória e superficial. Há gestos que passam pelas portas – por sobre as portas – e que a gente não sabe lidar. O riso sem graça, as despedida, a comemoração, a alegria, o deserto e todos os dizeres do mundo. Sabes que se trata de metáfora, não? Entenda quem tiver a capacidade. É orgulho agora para quê? De que adianta? Por isso e apenas isso, aceita-te. Uma conversa é suficiente para a conquista. Sabes disso. E não adianta esconder a decepção. Vais ter de enfrentar diariamente num bom dia ou num boa noute. E vais te sentir mais alegre? Vais te sentir mais contente? Vais te sentir mais completo? É nessas horas que as palavras da outra pessoa – a que tentava te ensinar a ser alguém mais corajoso –, é nessas horas que as palavras dela fariam sentido. Fariam, se tu não fosses tão covarde. Aceita. É tarde. Chora, pode chorar. Pensa, pode pensar. Conforma-te. Perdeste e isso é a inevitável leveza do ser. A insustentável dor que os poetas fingem sentir. Não adianta fingir mais que os outros ou tentar interpretar a dor alheia. Essa dor é só tua, e sabes disso. Sabes que há com quem compartilhar e com quem contar. Sabes contar? Pois é, saiba que não vais poder contar com ninguém nessa hora. És tu e só tu. Vais torcer contra? Claro que não, longe disso. A alegria alheia melhor que a própria. Altruísmo como combustível. Mas no fundo isso adianta alguma cousa? Não. Sabes que não. As intenções foram feitas. E isso não muda a miséria. E a tua miséria é igual a tantas outras – isso se não for manufaturada. Comprada em uma grande rede de supermercados. A indignação, a raiva, a frustração, a decepção, a inverdade. Isso tudo machuca e constrói muralhas. A China vai ter de reconstruir a muralha dela, pois hoje me fecho como em dedos, e o parto de mão vai ser o mais dolorido. Foi uma decepção, uma mentira assaz planejada que deixa qualquer um atordoado. Para rir do outro? O que te faz ser único. A alteridade das pessoas é uma farsa. Sabes que são todos atores, que são autores de uma hipóstase assaz falsa. Sabes disso, e ainda assim te importas com as respostas, com as conseqüências. Imagina se não conhecesses o caminho de tal labirinto... Seria melhor? Estarias rindo mais ou menos? Chorando menos? Toma teu remédio, aceita a tua angústia chinfrim e te cala. Não és digno de choro nesse momento. Tantas cousas para nada. Para nada. Nada. Não se trata de isso ou aquilo, mas de expectativas que foram supridas por uma conversa ao fundo, escondida. Sabes disso, rapaz. Levanta a cabeça, escreve as cousas, desenha as dores, ilustra as alegrias de forma sutil e deixa tudo a entender. Sabes que vai ser melhor. Num parágrafo único, numa só verborragia sem tamanho e sem sentimentos. Tenta ser imparcial, um jornalista do coração que sente muito por humanizar demais a reportagem própria da vida.

- E de que serviu?

- Nada.

- Nada?

- Nada. Apenas isso e aquilo lá.

Ou seja, meu filho, trata de te acostumar com a vida. A realidade é mais descolorida que os seriados que assistes. Rir da comédia alheia é uma cousa, mas quando fazes o papel de palhaço num picadeiro inesperado... Ah, isso é demais. Uma falta de ar, uma angústia no peito, a falta de sono e a alegria desvanecendo. Quem mais deseja isso hoje em dia? Desculpa-me, Augusto dos Anjos, mas eu sou mais filho do carbono que tu foste. E se contestas, vem sentir o que sinto. Um parágrafo único aposto que não explica o que sinto. Eu poderia resumir tudo numa estrofe, num verso. Mas para quê? A burrice alheia incomoda às vezes, e a não compreensão da nossa dor é demasiado chata. Sabes que sentes muito e que outros pouco se importam. Combinações escusas e tudo mais. É, rapaz. Vai dormir, pois os sonhos ainda não são pagos. Quando começarem a cobrar por cada devaneio, por cada ilusão, aí sim tu deves te preocupar, pois sonhas demais. E sonhar demais, confesso, faz extremamente mal a todo ser humano.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

.8uto antes da queda.

Tínhamos a nítida impressão que de aquilo não daria certo. Sabíamos que a vida estava por um sopro, segura apenas por um ébrio bailarino que trançava as pernas e tirava sem intenção a graça do palhaço. Estávamos na beira do abismo e nossas façanhas estavam todas ali, cada uma como cisco no olhar perdido dos corpos já quase ausentes. E antes de beijar o chão, o pensamento era unicamente de fazer algo realmente útil – independente da noção de utilidade de terceiros. Viver como se fosse o último dia a gente já havia feito outrora – e perdemos tempo demais procurando significações em cousas pequenas.

A nossa miopia não permitia querer nada além de um bloco de papel com muitas tintas e lápis e canetas. Claro, um toca discos e água na temperatura natural sempre faz bem. Perder-se em livros também. Sim, claro. Era isso: ganhar dinheiro suficiente para poder passar as tardes lendo numa rede, na beira de uma praia. Exercitar a imaginação com sendas outras: palavras alheias em capas bonitas, desenhos bonitos e toda a buniteza que cabe impressa em páginas brancas ou creme.

Nem todos ali, porém, queriam perder tempo imaginando riquezas. Percebia-se simplicidade. Apenas estar com alguém que muitas cousas tem em comum conosco já basta. Dividir picuinhas e mesquinharias, aprender a respeitar o umbigo alheio. Envelhecer tendo nas rugas o mapa de uma existência ímpar – e para isso é preciso um par, não? Não deixa de ser essa uma busca egoísta, mas benéfica em sua desgraça. Um par é como o contrário de um baobá no planeta do Príncipe: aspasse a gente custa a descobri-lo, nunca mais se livra dele. Atravanca todo o planeta. Perfura-o com suas raízes. E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba rachandoaspas. Naquele momento, alguns queriam apenas rachar profundamente.

Uns dizem que sim, outros já se contentariam em visitar mais países. Antes da queda era necessário estranhar outras línguas, outros lugares e se estranhar na volta. E depois disso talvez a queda soe num baque poliglota, num ruído surdo que ecoe nas existências mais próximas. Conhecer fronteiras invisíveis e gritar tatuagens num vernáculo que, no fundo, não faz a menor importância. Beber mais, cair mais e deixar pedaços em terras distantes – só para alimentar a vontade de voltar para um dia busca-los. E de preferência com o par, é claro.

Percebia-se que no canto estavam os que gostariam de, antes de simplesmente pular como era de costume, ir a apresentações de artistas valiosos, do estrangeiro. Ouvir e ver de perto alguns sons que compuseram e que ainda compõem o auditório cultural de cada um¹. Fechar os olhos e balançar a cabeça num ritmo conhecido, mas com a vivacidade e o empurra-empurra e o caos e os gritos e a euforia desmedida. Artistas glocais² também são bem-vindos, e até mais familiares em suas melodias mais facilmente memoráveis.

Talvez fossem poucos, mas alguns ali queriam apenas estudar e superar suas limitações – sejam elas artísticas, acadêmicas ou de qualquer outra natureza. Aprender termos e escrever algo de relevância. Um livro, quem sabe. Ilustrar um livro, outro livro e outros livros. E isso vai além do desejo de fazer algo útil. Não, era aquilo e um pouco mais. Os que precisavam de muletas para andar queriam dar passos sem apoio – nem que fosse por poucos momentos e para uma platéia de ausentes. Não importa quem iria aplaudir, pois nem todo palhaço cria piadas no picadeiro sob o riso alheio.

Outros mais humildes queriam dizer verdades a quem precisa ouvi-las. Nada de panfletarismo ou de otimismo exagerado. Só dizer o que precisa ser dito. Às vezes eles querem apenas dizer o que realmente sentem, não? Mas a coragem não deixa. E por isso eles caminham mudos para o abismo, sem discutir o porquê de estarem ali. E no fundo o sentido não importa, pois a subjetivação parte de cada um. Idealizar mundos é perda de tempo.

E eu no meio de tudo isso, de todas essas impressões. Antes da queda inevitável eu queria apenas experimentar um pouco de tudo isso que percebi nos outros. Desejar a partir das vitórias alheias é mais fácil. Uma inveja de querer para si o bem do outro. É cair bem consigo mesmo, sem se arrepender no final de tudo. É poder olhar para trás e não desejar voltar no tempo para fazer o que a incúria ou a covardia não permitiram. Pelo menos é o que espero, pois estar nesta fila sem saber quando vão nos empurrar já é demasiado penoso.


Notas

¹ Radiohead, Blind Guardian, Beirut, The Mars Volta...
² Chico Buarque, Ney Matogrosso, Arnaldo Antunes, Móveis Coloniais de Acaju...

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Façanhas de Insolente


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