quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

.frustrada tentativa de expressão de algo aparentemente impublicável – na verdade inefável – num único e verborrágico parágrafo.


- E tu achas que adiantou de alguma cousa?

- Não sei. Quem sabe.

- E quem vai saber então?

Não adiantava prender a respiração ou tentar pensar em outra cousa. Não tinha volta, ou mesmo solução. Elogios alheios? Para quê? Não, eles não serviam naquele momento. Era tarde, rapaz. Tarde demais. Talvez se tu tivesses mentido, se tu tivesses tido a malícia. Ah, isso sim seria conveniente. Mas não! Foste o ser que sempre és: o sujeito ingênuo e amigável. Dantas de natureza que acha que o suplicio é uma forma de redenção. Artística? Pára com isso! Achas que alguém liga para isso, que alguém se importa? Devias ter ficado calado, ou mesmo ter ignorado. Ter falado a verdade, quem sabe. Não adianta ouvir essas melodias tristes, chorar baixinho e imaginar a luz por trás da porta, por baixo da porta – como diz Chico. Não, não adianta. Vai dormir, é cedo já. Vai, rapaz. Esquece a situação. Perdeste todas as chances, é verdade. Sabe quando a gente chega ao topo da montanha e, de repente, sabe que tem de descer e simplesmente cai? É isso. Foste o primeiro, e sabes que vais ser o último. Talvez seja uma questão de tempo. E tempo é o que desperdiçaste, talvez. Depende do ponto de vista – sendo esta uma questão física. E a questão física é o que mais conta, eu acho. Nutrir sentimentos e cartas e palavras. Ah, para quê? Não adianta. Do que serve o sermão do padre se a missa é feita para um ateu? Reza, então. Mas para quê, se sabes que a salvação não vem por um comentário ou por um sorriso? Pensa nos prazeres em carne alheia. Pensa, rapaz. Pensa. Serviu de alguma cousa? Serviu? As imagens e tudo mais. Grandissíssima merda. Merda. Sabes o que significa essa palavra nessa situação? Merda? É, merda. Acontece. Um elogio em hora inesperada e tudo já foi. Para quê? Esperar? Foste o primeiro, rapaz. A lista vai seguir, acostuma-te. Aceita-te como uma vaga lembrança, como uma memória que aos poucos perde a cor. Sabes que estamos em uma época na qual as imagens são restauradas e que outras ganham as cores que sequer imaginam que tenham, não? Sim. É isso. As tuas cores já foram. E não adianta modéstia, ou qualquer cousa. Já estás apagado. Todo o carinho de outrora virou a espuma da cerveja: espera um tempo que baixa, que logo fica o essencial. Tens um essencial, uma essência que vale a pena respeitar? Não, não tens. É melhor esperar tudo fechar e seguir num momento de lucidez – desses momentos guardados para uma oportunidade inesperada. Conversa com as pessoas certas e tu vais conseguir tudo o que queres. Sabes disso, é assim mesmo. Para que tu queres algo mais? Para que tu queres saber se foi ou não foi? Sofrer? Vitimar-te a ti mesmo numa novela que sabes que já tens um fim? Rapaz, acostuma-te. Fica contente com o pouco que tens e te aceita como uma vaga lembrança. És isso e aquilo? Ah, pouco importa. Bem sabes que as cousas mudam, e que de repente o que passaste é a chance de outro passar. Só que em intensidade maior, redobrada. A mentira vai vir, a desculpa vai vir e tudo mais vai vir. Sabes que é assim. Se foi uma vez, vão ser outras. Aceita. É assim: a ida das pessoas são regidas por vontades, e pessoas outras entram nessas linha por acaso. É tudo um acidente. Ninguém planeja se intrometer na vida alheia e mudar o rumo. E se o faz, é por incúria, por desconhecimento do caminho de quem está a andar. Vê: tu andavas tranquilamente, até que alguém passou e te mudou a rota. Adiantou? Claro que adiantou. Vais negar tudo agora, as alegrias e tudo mais? Ser ingênuo nesse momento não é bom – nem para as alegrias nem para as verdades subliminares que tangenciam uma batida ali e outra acolá. Vê: há ademanes que vão além da interpretação simplória e superficial. Há gestos que passam pelas portas – por sobre as portas – e que a gente não sabe lidar. O riso sem graça, as despedida, a comemoração, a alegria, o deserto e todos os dizeres do mundo. Sabes que se trata de metáfora, não? Entenda quem tiver a capacidade. É orgulho agora para quê? De que adianta? Por isso e apenas isso, aceita-te. Uma conversa é suficiente para a conquista. Sabes disso. E não adianta esconder a decepção. Vais ter de enfrentar diariamente num bom dia ou num boa noute. E vais te sentir mais alegre? Vais te sentir mais contente? Vais te sentir mais completo? É nessas horas que as palavras da outra pessoa – a que tentava te ensinar a ser alguém mais corajoso –, é nessas horas que as palavras dela fariam sentido. Fariam, se tu não fosses tão covarde. Aceita. É tarde. Chora, pode chorar. Pensa, pode pensar. Conforma-te. Perdeste e isso é a inevitável leveza do ser. A insustentável dor que os poetas fingem sentir. Não adianta fingir mais que os outros ou tentar interpretar a dor alheia. Essa dor é só tua, e sabes disso. Sabes que há com quem compartilhar e com quem contar. Sabes contar? Pois é, saiba que não vais poder contar com ninguém nessa hora. És tu e só tu. Vais torcer contra? Claro que não, longe disso. A alegria alheia melhor que a própria. Altruísmo como combustível. Mas no fundo isso adianta alguma cousa? Não. Sabes que não. As intenções foram feitas. E isso não muda a miséria. E a tua miséria é igual a tantas outras – isso se não for manufaturada. Comprada em uma grande rede de supermercados. A indignação, a raiva, a frustração, a decepção, a inverdade. Isso tudo machuca e constrói muralhas. A China vai ter de reconstruir a muralha dela, pois hoje me fecho como em dedos, e o parto de mão vai ser o mais dolorido. Foi uma decepção, uma mentira assaz planejada que deixa qualquer um atordoado. Para rir do outro? O que te faz ser único. A alteridade das pessoas é uma farsa. Sabes que são todos atores, que são autores de uma hipóstase assaz falsa. Sabes disso, e ainda assim te importas com as respostas, com as conseqüências. Imagina se não conhecesses o caminho de tal labirinto... Seria melhor? Estarias rindo mais ou menos? Chorando menos? Toma teu remédio, aceita a tua angústia chinfrim e te cala. Não és digno de choro nesse momento. Tantas cousas para nada. Para nada. Nada. Não se trata de isso ou aquilo, mas de expectativas que foram supridas por uma conversa ao fundo, escondida. Sabes disso, rapaz. Levanta a cabeça, escreve as cousas, desenha as dores, ilustra as alegrias de forma sutil e deixa tudo a entender. Sabes que vai ser melhor. Num parágrafo único, numa só verborragia sem tamanho e sem sentimentos. Tenta ser imparcial, um jornalista do coração que sente muito por humanizar demais a reportagem própria da vida.

- E de que serviu?

- Nada.

- Nada?

- Nada. Apenas isso e aquilo lá.

Ou seja, meu filho, trata de te acostumar com a vida. A realidade é mais descolorida que os seriados que assistes. Rir da comédia alheia é uma cousa, mas quando fazes o papel de palhaço num picadeiro inesperado... Ah, isso é demais. Uma falta de ar, uma angústia no peito, a falta de sono e a alegria desvanecendo. Quem mais deseja isso hoje em dia? Desculpa-me, Augusto dos Anjos, mas eu sou mais filho do carbono que tu foste. E se contestas, vem sentir o que sinto. Um parágrafo único aposto que não explica o que sinto. Eu poderia resumir tudo numa estrofe, num verso. Mas para quê? A burrice alheia incomoda às vezes, e a não compreensão da nossa dor é demasiado chata. Sabes que sentes muito e que outros pouco se importam. Combinações escusas e tudo mais. É, rapaz. Vai dormir, pois os sonhos ainda não são pagos. Quando começarem a cobrar por cada devaneio, por cada ilusão, aí sim tu deves te preocupar, pois sonhas demais. E sonhar demais, confesso, faz extremamente mal a todo ser humano.


Um comentário:

renata disse...

sem palavras :/