domingo, 21 de dezembro de 2008

.marca d’água.


É, talvez seja mesmo implicância minha, teimosia de uma mulher que acha já sofreu o suficiente para uma só vida. Pelo menos eu acho que sofri, e tenho consciência que tal sofrimento pode ser apenas a cereja sobre a dor alheia. Não sei ao certo se terei direito a outra vida, mas se pudesse voltar no tempo com certeza eu evitaria as ofensas vazias, as palavras cretinas e as impressões mais superficiais. Acho que não soube eu precisar a medida dos meus sentimentos. Não soube calcular o tamanho da iminente tristeza, das melodias melancólicas que me cantariam o coração.

Eu sei que não era preciso aquilo, aquela cena de cinema . Fiz-me mar bravio para um barco tão pequeno, canoa furada, embarcação sem rumo. Acho que tudo chegou ao fim pela falta de palavras mais ousadas, pela falta de tortura à meia-luz. Estive longe por muito tempo, confesso, mas há dias eu pretendia voltar para acertar a nossa vida, colocar os tremas nos is e circunflexar as sílabas mais agudas. Seríamos ditongo, e evitaríamos juntos todos os hiatos possíveis.

O problema foi a saudade em demasia, o sentimento efêmero que massageava as lembranças suaves. Fui burra, confesso. Terminar assim um relacionamento tão promissor, tão bem visto aos olhos dos outros. E eu sou um outro, claro. Acredito muito em Rimbaud, e talvez seja esse um problema: acreditar em poeta. Este tipo de crença já caiu em desuso, soa como esoterismo. Mas eu insisto em crer em versos.

De quando em vez reviro umas fotos, umas missivas amassadas e regurgito essa ou outra lembrança. Fecho os olhos com afinco como quem se esforça para esquecer algo ou para buscar na poeira da memória algo importante. Vejo por alguns segundos as cenas que editei e que ainda exibem algum brilho, alguma cor que deixei escapar da paleta de sensações. Os quadros são rápidos, mas suficientes para me entortar o peito, torcer a amargura da colcha de sentimentos – deixando entre os retalhos apenas uma certeza da qual não gostaria eu de ter.

Queria eu poder não ter ofendido tanto e ter a chance de uma amizade fraterna, de poder contar as minhas alegrias canalhas e minhas conquistas ruças. Às vezes acho que o orgulho que cada um traz em si é o que estraga as relações. No meu caso, soma-se a isso a sinceridade. Sou medíocre, e por assim ser assumo e não escondo a mediocridade dos outros em elogios e olhares disfarçados. A sorrelfa do politicamente correto não combina com o meu jeans surrado e com minha camisa de vereador que ganhei na eleição passada. Talvez por isso a minha relação com ele tenha sido tão conturbada, apesar de bonita.

Agora entendo algumas situações e algumas palavras ditas em horas inapropriadas. Entendo também a minha covardia, a minha ignorância. Como já afirmei, não soube eu calcular a medida da iminente tristeza, e tão-somente aqui, na beira desse precipício, entendo as cousas que passaram em branco. Vendo esta missiva e essa foto desbotada e adrede torta, entendo muita cousa. Mas é assim mesmo, eu acho. Tenho de me acostumar com as derrotas que troquei por vitórias compradas. O riso, por mais de plástico que seja, não morre tão facilmente.

No fundo, o que me dói mais é saber que hoje ele encontrou cores em outra tela. A minha maior tristeza é saber que nosso álbum de lembranças hoje é apenas um monte de imagens aquareladas. E fico triste ao perceber que sou apenas foto em marca d’água no álbum sem capa das saudades dele.

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