segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

.do dilúvio.


*.férias para as palavras. ex-passo vazio delas por bom um tempo. enfim.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

.16mm – ou uma imagem roubada de uma película de cores oníricas.

A porta se abriu de novo, lentamente. A casa se desfazia na memória, desmanchava aos poucos. Ficou parado de frente para o mar, e preguiçosamente respirava a brisa. Pendurava lembranças numa parece alva, e contava as tábuas que forravam o quarto. Os olhos estavam semicerrados, um riso involuntário se insinuava e nas mãos inertes se embolavam as linhas que outrora foram traçadas a esmo. Ouvia de leve os ruídos, as escadas caindo, as estantes despencando, os livros sendo arrastados e todo o arsenal de memórias sendo consumido. Um pandemônio nostálgico, um circo de saudades. Tudo muito sem graça, claro. Tudo muito dramático. Virou-se sem muito ânimo, e viu um inofensivo incêndio na sala de estar. A fuligem enegrecia o peito, mas a falta de ar não o incomodava. Voltou mais uma vez o olhar cansado ao mar, à brisa. Fechou os olhos por uns segundos, e sentiu medo de toda a eternidade vivida em poucos meses, em algumas semanas, em dias, horas, palavras, beijos. Uma eternidade deveras bonita, dessas que ilustram as cores mais comuns aos gênios. Um tempo eterno que havia começado numa manhã rouca, depois de uma noute barulhenta. Isso foi há tempos, e naquele instante o medo logo se transformou em algo lancinante, num sentimento que o fazia querer subir mais uma vez a escada para poder beijar a fonte lasciva. Queria inda mais uma vez ver de perto o riso, marcar a silhueta com os dedos ou mesmo observar a construção de sonhos nos quais ele era coadjuvante. Queria tudo ao mesmo tempo agora mesmo tudo ao tempo mesmo agora ao mesmo tempo. Virou o corpo para mais uma olhadela, e viu que, de repente, a destruição havia parado. Uma palavra, uma conversa talvez. A desconstrução simplesmente parou. Pendeu a cabeça para o lado como quem custa a crer no milagre em plena igreja, e até se sentiu culpado por desacreditar em tamanha alegria. O sermão seria outro! Afinal, quem poderia garantir que, por incúria ou demasiado otimismo ele se permitisse perambular por quartos, salas e quintais e, sem mais nem menos, tudo pudesse mais uma vez ruir? Era arriscado, e ele sabia muito bem. Mas a construção ao avesso parou! E ele então foi ao encontro da silhueta, dos risos e de tudo mais que tanto o encantava enquanto estava distante! E se sentiu tão bem! No andar superior, concluiu rabiscos, criou elogios e insinuou palavras no corpo cujo idioma aprendera em manhãs dominicais e em ocasiões outras tão belas quanto singelas. Um ou outro pedaço de concreto caía inda da construção, mas nem se deu conta. Perdeu os olhos, queimou os navios. A mesma história dos desvarios. E não fazia diferença, enfim. A égide de outros tempos estava de volta. Podia sentir o desembaraçar na palma das mãos. A calma e prazerosa terapia alternativa, a mesma vontade de gaguejar palavras em língua estrangeira. Uma viagem, um desenho novo e todo o debuxo de uma história que pode ser animada quadro a quadro – mas que também pode ganhar dimensões mais, cores e texturas outras, palavras e imagens diferentes. Talvez seja muita cedo para projetar tal película. Além do mais, a casa precisa ser reerguida, as paredes precisam ser pintadas e o azulejo precisa ser manchado uma vez mais para sangrar demônios e chistes. O orçamento foi feito com uma margem de erro aceitável – se é que existe tal margem, uma vez que todo o caudaloso rio de sentimentos foi assoreado. Não há como negar: ele está raso, mas também não há como negar a força da correnteza. Apenas se deixa levar, pois não se afoga mais, mas quem não sabe nadar também não sobrevive.


Corta!


Voltemos ao diálogo. As elucubrações filosóficas a gente grava amanhã. Você fala agora, nem que seja num simples comentário. Eu espero as palavras.


sábado, 10 de outubro de 2009

.do que não mais vou libar.


*Valêncio Xavier. E Miran.






















**As palavras pediram férias. Assim será. Até.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

.do nada.


Para não conseguir mais falar, sentir ou duvidar. Simplificar tudo. Um mero exercício para o ego. Afinal, não vale a pena ter grandes idéias. Elas não se concretizam. Coincidentemente elas não se concretizam.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

.do passeio.


E no meio da tormenta, encontrou um pedaço de terra para ancorar. Desafogou os olhos, murchou as tristezas e com cuidado tomou o ar necessário para iniciar a travessia. Abandonou os pesos, as alegrias e todas as palavras vazias. Deixou de lado também algumas vaidades, e licitou a si mesmo a coragem que tanto almejou ter. Era tarde quando partiu, e mais tarde ainda quando chegou. Do nada ao nada, numa valsa intranquila sobre o tapete azul. Versou tangos, rabiscou o ar. Estava pronto, enfim, para desaguar em si.


Mas queria mesmo é fazê-lo [em] lá. E em silêncio.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

.sobre um hipotético fim.


Talvez eu nutra sim algum magro otimismo, aquela tal esperança de tudo se ajeitar. Mas no fundo sei que não é mais possível. Algo desbotou a cor e também desafroxou o nó que nos sufocava em noutes incomuns e em manhãs ensolaradas. Não saberia eu explicar o que houve, pois foi algo repentino. Eu me sinto como que com um tiro minuciosmente preparado para mim, mas com uma imensa vontade de espirrar. Eu posso ter um derrame, mas também posso perder a loucura, os devaneios e tudo mais. Tento segurar a respiração, ficar adrede sem ar... Cuspo o choro quando vejo uma foto tua, e instigo a minha criatividade para pensar em quatro, nove, mil cousas ao mesmo tempo. Infância, imagens, cidades, distâncias e viagens outras. Os olhos se afogam, e isso é inevitável. A questão, explico, é ter de me acostumar, ter de reacostumar. Mas isso eu acho que consigo, e o farei para o teu bem. Não imagino te ver triste, e nem desejo. Sabes da minha fraqueza, do meu sentimentalismo desmedido, exagerado. Se vou nesse instante é porque juntos perdemos a noção da hora, tal qual o casal da canção. Meus navios, todos queimados. Desvarios, os mais incansáveis possíveis. Foi tudo muito bonito, acredite. Não guarde mágoas de mim ou de situações sublimadas por beijos e afagos muitos. Não espalhe nossos segredos, não repita nossas pequenas pornografias. Até repita, não poderia eu te privar dos prazeres. Afinal, existe ética pós-relacionamento? A gente vai sentir isso na prática, não? Desculpa se vou tarde ou se pareço pouco apressado. Há todo um caminho a seguir, placas pedindo para serem ignoradas, destinos a serem corrompidos. Fecho os olhos na hora do até mais, tento ser breve. Sei que vou sentir muito, e que vais sentir também. Sintamos, pois somos os melhores poetas de nossos dias juntos. Somos quem melhor pode esboçar o tamanho da nossa tristeza.

Será esse o nosso fim do mundo, o nosso big bang ao contrário. Condensemos nossas massas, e sigamos esperando por iminentes e inevitáveis supernovas. E se opto não pelo tiro, mas pela sanidade mórbida, não é por simples exercício do meu ego. Optar por um possível derrame não me é fácil, mas é providencial para não prolongar um vício deveras perigoso. Gostar de ti, entenda, é caso de polícia.





aspasEste bilhete aqui escrito faz parte de um meme proposto por Daniele Vieira e que me chegou por Insolente. A proposta é que os indicados façam uma missiva como se rompesse com alguém. A idéia foi inspirada na exposição Cuide de Você, da francesa Sophie Calle, que convidou 104 mulheres para interpretarem um e-mail de seu ex-namorado que gostaria de romper o relacionamento de ambos.aspas

Regras do meme:
I.: Escrever uma carta como se você estivesse rompendo com o seu (sua) namorado(a);
II.: Escrever estas regras e uma breve explicação do que é o meme (como a que fiz acima);
III.: Indicar cinco pessoas.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

.sobre estações idiossincrásicas.


Vou aos poucos arrancar as folhas da copa outrora frondosa. Vou murchar minhas esperanças, secar os horizontes. Exibirei com timidez o meu outono mais sincero, a minha primavera ao contrário, o avesso do meu verão. Se não rio mais não é culpa de alguém ou de uma situação deveras alheia ao meu entendimento raso, mas por não ter mais a graça em mim. Talvez não rir de mim mesmo seja a pior das mazelas. Não que isso signifique muito, pois no fundo sei que pouca diferença vai fazer ser ou não a pior das mazelas. É apenas uma questão idiossincrásica que reverbera pouco na acústica dos meus sentimentos. Egoísta que sou, desses que mesquinham olhares e roubam alheios sorrisos bonitos muito, não sei lidar com situações de extrema pobreza - seja de esperança, pespectivas ou de qualquer natureza. A pobreza me encanta por excitar a criatividade, mas ao mesmo tempo me castra de discernimentos peculiares.

Eu não sei lidar com a distância também. Acho que nunca soube, ou me enganava que sabia. Cartas e ademanes descompassados não são suficientes. Não, não são. Aprendi isso há pouco tempo, quando por incúria eu adrede imaculei as páginas brancas de um bem-querer cheio de malícia. Não foi possível ter todo o respeito, malgrado o carinho não chegar a ser pornográfico. Não, nunca foi. Temas e sons ecoando num espaço-tempo desafiador. As memórias bonitas, as lembranças num mosaico cujas cores embaçam a vista. Eu não estou preparado para lidar com a distância ou com a extrema pobreza sentimental. Fazer o pior tudo ao mesmo tempo agora pior ao mesmo tempo e fazer tudo agora o pior mesmo ao pior tudo o pior ao mesmo tempo agora tudo pior ao mesmo tempo e fazer tudo agora o pior mesmo ao pior. Eu sou o pior, acredito. Só posso ser o pior, a linha torta da simetria. Simetria! A carta, o calendário do ano passado ou mesmo a feérica tristeza.

Mas adianto que não é fingir ser o sofredor, o que precisa de atenções e necessidades especiais. Sou um excepcional do pessimismo, um doente da desesperança e crente na minha fé do acaso ruim. Sou também um vai e vem desgraçado, o desinventar da alegria. Talvez se soubesse me relacionar melhor com a distância eu pudesse ver as entrelinhas e ler as cores em garrafais letras. Mas sei que o talvez e o se são cadeados da certeza: destroem obras, corrompem elucubrações oníricas e distorcem os mais suaves sentimentos. São aditivos de uma criatividade torta, e mesmo sendo eu gauche - pelo menos assim acredito ser -, tal qual o poeta, não consigo lidar com isso tudo, com esse emaranhado de universos. É um preço deveras alto para um conselho tão inesperado, mas não há do que reclamar, pois a crença é minha.

Em meu outono forçado, não irei mensurar a falta. Sim, a falta. O buraco no qual eu me consumo, no qual eu me caio. O momento de silêncio, de desvincular os planos e de descolar as pétalas outrora rabiscadas com pressa, desespero. A manhã ofegante e tão aguardada, os dizeres sussurrados com esmero. Não, não pode ser. Trata-se apenas de um trailer caseiro, as imagens na penumbra não virarão fotos clássicas, e aquele abraço lancinante não renderá elogios ou canções. A ausência, apenas. É uma questão de crença, afinal. E desacreditado sou estou desacreditado e sou. Não irei verbalizar meus temores, minhas dúvidas e outras questões de ordem secundária. Entender como movem as pás de um moinho: essa é a questão! São monstros, dragões, e em meu exangue Rocinante desafio - em meu outono descolorido - as mais sinceras esperanças que escondo de mim mesmo. Canto em falsete versos que antes me eram quistos, aforismos que em tempos outros eram essenciais ao bom entendimento.

Acredito que os se e os talvez são os piores algozes que existem. Eles destróem relacionamentos, amputam sonhos. Os se podem tornar obras incompletas, macular de dúvida a mais certa das cousas, o mais sincero olhar ou a mais pungente lágrima. Os talvez também: quebram pernas, dedos, braços. Eles torcem esperanças e pisam no jardim outrora florido. Convenhamos: otimismo demais, mesmo que incúria, só pode resultar nisso mesmo. Um tapa! Um murro! Um cuspe! O escarro, a pedra, o afago e o beijo. A falta de ar, o riso amarelo, a apatia. O mundo se torna um soluço e as palavras se afogam a cada tentativa de se fazer entender. E então voltamos aos aforismos, à distância descosturada, à conversa derradeira com os olhos marejados de uma sinceridade já conhecida. Uma dependência estranha, uma falta de palavras necessária - a dramatização está nisso, acredito - mas ao mesmo tempo inoportuna, pois era aquele o momento para se dizer impressões, tristezas e para compartilhar uma viagem egocêntrica, marcas e impressões que um dia foram mais bonitas. Não que hoje não exibam beleza, mas as cores não têm a mesma urgência. A miopia ajuda, talvez.

Depois descobre-se que havia muito o que dividir, mas faltava algo. O que resta agora é o conformismo forçado, uma vontade de dizer não. E adiantaria? Quem sabe gritar no abismo do inconsciente e esperar por respostas. Mas é certo que quando chicotearem o cavalo em praça pública, o aconselhável é pedir que não estranhem a minha demência, minha lisérgica reação exagerada. Eu sou propositalmente assim, sem ritmo.

domingo, 2 de agosto de 2009

.sobre a festa e o lembrete onírico.

Cancelou os compromissos para poder cortar as arestas que cutucavam a lembrança. Queria descansar saudades, acomodar imagens necessariamente coloridas – de um bronzeado lascivo. Estava com o semblante sujo, enegrecido por uma fuligem outrora suave, mas agora um tanto um quanto cancerígena. Ele queria esquecer os boatos alheios, os conselhos maliciosos de outrem e os pensamentos que, algures, o colocava num reino de poucos súditos. aspasEsquece issoaspas foi o que tatuou a Bic no pulso esquerdo. Iria lavar pouco as mãos, e tampouco iria suar. O nervosismo de um ósculo sequer o denunciaria, e por isso fez questão de mostrar a todos o lembrete rabiscado no pulso.

Sentia-se preso numa camisa de força, atado e pronto para ser seviciado por algum demente sexualmente alterado pelo uso contínuo de entorpecentes vendidos por uma semi-analfabeta magricela que atende pelo nome de Bailarina e cuja fisionomia cadavérica contrasta com a riqueza de detalhes do seu corpo moribundo: pernas cheias de ferida, dentes enegrecidos e trincados, os olhos fundos e amarelados, o cabelo rizomático e as mãos secas. Um lapso apenas.

Mas estava certo de que não iria se arriscar a obliterar peripécias imaginárias com outros corpos. Não, isso seria de um desrespeito descomunal. Depois de todos aqueles debuxos de planos e de tantas alacridades pontilhadas a mãos trêmulas de prazer! Não, não podia, devia ou sequer queria fazer isso. Que digam o contrário os que imaginam além da realidade, que pintem a libido num vestido verde os mais surrealistas ou mesmo que fotografem em carne viva qualquer sinal de dúvida. A melodia escrita em pautas encardidas era outra. A festa estava em outro estágio, num clima pouco ensaiado. Não valia tanto a pena estar ali para ver uma ou outra figura irritantemente álacre, não compensava perder sono por essa ou aquela conversa vazia. Não valia tanto a pena sublinhar definições alheias sobre o que supostamente cada um aparanta ser. aspasAssine em baixo quem quiseraspas, disse em tom baixo para não ser ouvido. Nem ele queria se ouvir.

Levantou várias vezes da cadeira no intuito de controlar alguma vontade, malgrado saber que a vontade não era o óbvio aconselhável para instantes - uns diriam chances - como aquele. Sentia doer os olhos. A pouca luz o fazia ficar cabisbaixo, e ele queria mais era enlouquecer. Ele almejava não sentir as metades que o rodeavam. Havia, claro, completudes dignas de uma conversa mais lapidada, mas ali não era o espaço. Não, senhor.

De súbito, enquanto todos se embriagavam e contavam vantagens, ele tirou do bolso o berrante ímpar que comprou num sebo no centro da cidade e começou a manchar o ambiente. Era aquela um instrumento muito peculiar, e isso todo mundo percebeu ao primeiro sopro. Um novo céu se formara, e uma luz soturna começou a confortar os pensamentos mais íntimos dos presentes. O imbróglio inicial estava sendo aos poucos mitigado, e a sensação inefável de antes ganhava tons, intensidades e uma harmonia pouco usual.

Podia ele ouvir o choro alheio, aquele ranço que surgia a cada fungada mais profunda e que, necessariamente, vinha acompanhada de uma careta. Na verdade alguém negou a ele o subterfúgio alvo que constantemente era alvo de complicações respiratórias. Pouco importa. A questão era atingir as notas mais azuis possíveis. Queria ele sinestesicamente provocar a raiva de uns e a admiração de poucos. Infeliz poeta dos sons que era, sabia ele que no fundo não iria conseguir tamanha proeza.

Mesmo assim ele tocou e tocou e manchou todo o ambiente. O corpo seco se sentia mais leve ainda, e logo ele pode visualizar demônios e afins numa épica orgia. Os tons de algo sagrado se misturavam aos muitos deboches que ele deixava perpassar em risos e soslaios. Não entendia, enfim, como era possível aquele disparate. A cabeça fumava, os dedos amarelados tangenciavam loucuras e tudo ao mesmo tempo num agora que ele não podia prever nada.

Aconselhado por uns poucos cientes no recinto, deixou de lado o instrumento musical e se deitou próximo da piscina. Aquele dia passaria despercebido, como a poesia chinfrim que escorria de versos alheios. Como sempre, ele não fazia questão de muita cousa. A frase no pulso esquerdo, então, passou a ter mais do que nunca um sentido onírico. E por isso ficou ele com medo de fechar os olhos.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

.do casal.


Foi por acaso que nos conhecemos, um encontro casual. Ocaso das possibilidades impensadas. Eu estava murcho, já embebido de água alheia e apodrecendo aos poucos. Eu não me prestava condolências e tampouco nutria respeito a mim mesmo. Eu ignorava os tecidos outros que já belisquei em tempos hoje remotos devido a uma edição memorial precisa. Eu não me importava com os esmaltes que me apertavam, não percebia os trocadilhos e muito menos me interessava por novas experiências. Eu andava na corda bamba, eu era o equilibrista ébrio que sambava na linha: um malandro demasiado romântico, um cafajeste deveras sincero. Eu estava num limbo diferente, suspenso numa senda onírica que me bronzeava de um sol imaginário. Eu era e deixava de ser a todo momento, por puro prazer.

Ela chegou sem avisar com aquela sua juventude ofegante, aquelas curvas desafiadoras. Estávamos suspensos por nossas respirações débeis, e balançávamos de acordo com o sopro da sorte. A princípio ela não estranhou o meu corpo carcomido, as minhas pequenas dores e meus sulcos úmidos. Ela sequer reparou que eu estava desacreditado de mim mesmo, e me abriu os braços para, depois de um dia inteiro prendendo a respiração de blusas e sutiãs e calcinhas e tecidos outros tecidos que vestiam a libido de outros de libido casual libido. Ela chegou assim, e há sim um modo de explicar toda a situação fora do comum. Não podia eu acreditar que aquilo era para mim: um mundo girando em cores e sorrisos e movimentos e perfumes. Invernos cadentes separavam nossas idades indecifráveis. Eu era de uma geração ultrapassada e acreditava piamente nisso, mesmo sabendo que a diferença entre nós eram apenas algumas primaveras descoloridas.

Insisti e consegui um pouco da atenção dela. Enviei mensagens codificadas, textos apócrifos e pichações. Fingi em vão desacreditar que não era possível. E foi tão possível que hoje dividimos a mesma camisa, a mesma seda e suportamos a falta de ar. Ah, o desespero no meio da noute que me faz tossir e ficar sem fala! Enquanto estivermos presos na mesma corda que nos mantém suspensos sobre um abismo deliciosamente ignoto, tudo vai ser possível. Deixaremos nossas marcas em fotografias artificialmente coloridas e reveladas a esmo. Viajaremos para outras linhas, outros itinerários sonâmbulos. A nossa intenção hoje é viver num cativeiro singelo, num polaroid adrede desbotado – só para aquarelarmos nossas mútuas decepções. Iremos recortar nossas alegrias.

E quando estivermos folgados, cansados de nos prendermos a um ideal em comum, vai ser tarde demais para arrependimentos. Teremos aproveitado imagens e impressões lúdicas, canções em francês e declarações descabidas. Não vai mais importar se tivermos sido piegas. A gente pouco vai se importar. E então poderei de novo acreditar em mim.


terça-feira, 9 de junho de 2009

.do suposto convite.



.um dia as cousas se dividem e se transformam em dous caminhos distintos. nessa hora é preciso ter dúvida. sempre.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

.do noticiário.


Não resistiu à pressão, e mesmo que quisesse, seria demais para o já combalido baú de frivolidades sentimentais que carregava no peito. O olhar estava tonto e largo, os passos cabisbaixos chutavam pedras, diamantes e algumas pétalas incautas. Estava meio perdido na inteireza do seu medíocre ser – sendo esta mediocridade até relativa, pois havia pessoas que gostavam de gastar encômios para as suas destrezas pouco alardeadas. No fundo isso pouco importa. A dialética das cousas não faz sentido na rigidez do cotidiano calcado a saudades e sensações. A metafísica contida sob as unhas não esclarecia o suficiente aquilo que tirava o ar, que vinha em imagens coloridas em pleno sonho preto e branco. Aliás, os sonhos sempre vinham sem cor, e só depois dos malabares e de todo um olor de chocolate é que passaram a ficar coloridos, aquarelados. A água usada para enfraquecer a tristeza deixou vívida a impressão de que aquela geometria psicologicamente risonha – e carnalmente onírica – é a mais perfeita natureza a ser fotografada e desenhada em alvos papéis.

Talvez por incúria, deixa sempre sumir um pouco da verve artística nas letras serifadas dos jornais-diários-com-notícias-de-ontem. Talvez seja só para atestar o afã de encontrar tamanha beleza – ou com certeza é apenas uma idéia apenas idéia uma apenas passageira idéia de como é possível sentir à distância. É saudade, uns dizem e cantam. É isso ou aquilo, arriscam outros. E pode ser exatamente isso: uma sentença, um ponto de exclamação na memória que grita as melhores lembranças dos últimos tempos ou mesmo – e que irônico! – as melhores notícias. É algo egoísta, ordinário ao extremo – cousa para afagar ego, afogar o passado e se gabar para amigos imaginários. Mas é lhano e urgente, e há garantia lírica nessas belezas apuradas calmamente em manhãs agradáveis, em noutes serenas.

Fechemos a edição hoje – e tão-somente hoje – por conveniência, por capricho. Amanhã é um novo dia para se noticiar o que uns dizem e cantam e arriscam. Amanhã é sempre um bom dia para ver ao longe o arco descrito pelo barco que evita atracar no cais. E sempre vai ser um bom dia para pintar em paredes as reminiscências de despedidas indesejadas – mas necessárias para a própria saudade.

Tudo isso deságua no mar traçado a nanquim, e se confunde na pororoca da memória. É uma ressaca tardia que diariamente alfineta os tímpanos, cutuca o peito e avisa de longe: aspasCuidado, a manchete é em caixa alta, e é preciso conjugar bem este substantivo chamado saudade!aspas.

terça-feira, 21 de abril de 2009

.do tédio sobre a diversão e a arte.


A música estava alta e era uma qualquer. Um qualquer sucesso qualquer enfim. Não importava muito, para falar a verdade – mesmo que estivesse mentindo em seu âmago podre e se importasse muito com aquele som. Conhecia-se muito bem, e isso o magoava de um tanto... Foi apenas o amigo chegar para o sorriso se desmanchar em um tiro. Esqueceu-se da banda e dos amigos quase pouco afáveis que o acompanhavam naquela noute desigual. Sem a metade! E talvez por isso tenha pegado furtivamente o pequeno embrulho transparente que continha o tal antídoto contra a monotonia. No fundo não sentia falta, pois já estava ébrio, tonto. Sambava palavras com maestria e rimava conceitos com uma métrica alexandrina impecável. Cumprimentava os conhecidos e até ameaçava risos outros. E foi exatamente numa dessas ameaças que viu o sujeito chegar risonho, com as intenções dignas de uma boca-de-fumo – mas essa era limpinha, sem pretos de bigode ralo ou brancos encardidos de cabelos ensebados. A casa era popular, cheia de fina gente, pessoas inteligentes, músicos competentes e tantos entes que mal era possível mensurar. Dessa vez não era um moquifo empoeirado que cheirava a urina. Não, era uma casa de respeito – que por mais respeito que tivesse, sempre era possível se subverter os risos e olhares.

Depois de pegar o embrulho, dirigiu-se ao banheiro. Não ficava mais nervoso como antigamente. Era monge cujo hábito se delineava pelas pontas dos cartões e até pelas chaves pouco imponentes. Era um sujeito experiente em burlar os bons modos, em misturar as idéias e em lubrificar com pó a fala já tonta pelo álcool em excesso consumido. Foi cousa rápida, lance de gênio, futebol arte. Inalou duas vezes para garantir que usasse muito do que não contribuiu com um centavo sequer. Preocupação com o financiamento do tráfico ou com a suposta contribuição para a perpetuação da violência? Quem quiser o bem alheio que vá para a igreja, certo? Ele não queria só comida, queria diversão e arte, mas sabia que a diversão incluía a arte do gênero tóxico. aspasPor que não?aspas, perguntaria Thompson. Afinal, porque não.

Mal saiu do cubículo da privada branca – que, mesmo sendo numa casa de respeito, estava entupida de mijo e vômito –, já viu o amigo vindo com um largo sorriso. A lembrança de ter passado o embrulho é vaga, pois assim que ouviu a porta se fechar, caiu no chão sujo. Chão este feito de pequenos azulejos marrons retangulares que, dispostos um ao lado do outro, fazia pequenos cânions onde se acumulava mijo e água – água que caia das mãos que se molhavam de mijo e que, procurando limpeza, deixavam-se molhar por água limpa para depois sacudirem-se e deixar o chão salpicado por água limpa cuja união com os solados sujos dos fregueses fazia com que o chão ficasse coberto de uma lama preta e imunda e cujo cheiro era de puro mijo. E foi ali que caiu de cara, de rosto e barba e baba. Arregalou os olhos e viu um ou outro sujeito estranho se virando para olhá-lo – sujeitos estes que não soltaram os respectivos paus, e que, assim, deixavam o mijo escorrer para perto do rosto dele. Rapidamente se arrependeu por ter pensado na possibilidade de ter contribuído para o tráfico ou para o aumento da violência. Queria mais era que tudo se explodisse e que a sua cabeça fosse a primeira, pois o tédio era demasiado aterrador naquele instante. Mas tão-somente naquele instante.


quarta-feira, 15 de abril de 2009

.da angústia.

Girar e girar e girar e ficar tonto e regurgitar as idéias mais esconsas e os pensamentos mais pueris e todos os demônios que nos lambes as vontades e sufocam os pecados diante de uma aparente salvação. Não há porquês suficientes que justifiquem qualquer tipo de sentimentalismo exacerbado, qualquer rebuscamento artístico ou satisfação profissional. Sejamos educados a girar e sermos redemoinhos e nos trançarmos uns aos outros numa costura vagabunda para sermos, enfim, o lenço vermelho que atiça o touro. Façamos parte deste espetáculo sangrento e gozemos e deixemos os pés em carne viva de tanto dançar em homenagem a deuses indiferentes. Girar e girar e girar e ficar tontos o suficiente para cambalear pelos anos que se seguem ininterruptos, e quando por fim tudo findar, brindemos com beijos e abraços e sorrisos tudo que por incúria e egoísmo deixamos de fazer. Acrescentemos a isso o rancor de termos feito escolhas erradas diante de opções pouco atraentes. E quando estivermos satisfeitos, inventemos melodias bonitas – mas realmente bonitas, dessas que nos apertam o peito e nos afagam nos momentos em que, como disse o outro, a alegria recolhe a mão para não nos alcançar – para confortar aqueles mesmos deuses indiferentes. Eles perceberão que foram inventados, e como tais, não passam de mentiras com uma bela maquiagem: óleo sobre tela e poucas orelhas cortadas.

Às vezes é aconselhável até deixar as cores mais apagadas, afogar os matizes numa aquarela preguiçosa e inundar o nanquim com movimentos outros. Às vezes nunca é sempre que quase a todo momento há desafios insignificantes, desses aos quais a gente dedica um muxoxo e sai por aí com a mão no bolso. Todos os superlativos e todos os adjuntos adverbiais e quase todas as orações compostas: ignoremos tudo isso. É preferível ficar mudo a sair profetizando mentiras. Quase sempre é necessário olhar para esta vida mesquinha para nunca conseguir ler as entrelinhas que nos escrevem sem o nosso consentimento. Há muitas margens, muitas regras e reformas pouco ortográficas. A tontura, assim, não vale a pena. Não faz sentido girar e girar e girar para vomitar idéias e sentimentos e qualquer cousa que o valha.

Não, isso não pode funcionar sempre. Definitivamente não.



Esperemos enquanto nossos olhos lacrimejam cores demasiado salgadas.


segunda-feira, 6 de abril de 2009

.do carinho edipiano ao pai.

Lambeu com nervosismo erótico a cicatriz que ela tinha no céu da boca. A língua percorreu toda a saliência que, úmida e lisa, fazia cócegas na ponta daquele músculo solto, lascivo e que de maneira escusa esconde as palavras. Perdeu a compostura por um momento, até abriu rapidamente os olhos para ser se estava sendo encarada por outros olhos, mas não: era tudo silêncio e cílios abraçados. Um balé de línguas e saliva, dentes e lábios, pus e sangue. Abraçava cada vez forte o corpo alheio para sentir os ossos, os órgãos e tudo mais que pudesse expelir sangue de alguma forma. De quando em vez se separava da boca outra e lambia o pescoço, deixava a língua escorrer pelas costas até o fim da coluna, e depois subia lentamente. Era permitido babar, cuspir, cheirar. E cheirava, claro. Antes de iniciar a confusão erótica, havia tido um tórrido envolvimento com a parede. Era evidente. Boca trêmula, queixo ruminando silêncio e mesma língua sufocada entre os dentes pouco higienizados. O olhar desafiava qualquer um, e a voz adrede fina sussurrava qualquer obscenidade sacra no ouvido alheio. As mãos tocavam um piano imaginário, e as teclas pretas, em sua alva imaginação, eram sustenidos imprestáveis. Queria acordes maiores, gritantes, com tapas, uivos e urina. E sentia-se murchar por causa do excessivo consumo de cerveja e tonto e com os olhos marejados de vontades duplas. A parede é implacável, como todos sabem. E o gosto amargo que alegrava o coração se confundia com o gosto de cigarro da boca alheia. Alertava sempre que fumar é prejudicial, e fazia questão de se envolver com paredes confiáveis - aquelas que não são misturadas como os sofisticados cânceres que contém mais de 4.700 substâncias tóxicas que não permitem um nível seguro ao serem consumidas. Não, isso não. As paredes devidamente empacotadas em pequenos e coloridos sacos plásticos eram alvas, utopicamente puras e saudáveis. Tinha alguns deles para um período considerável – o suficiente para obliterar o desejo por tanto tempo reprimido socialmente. Um perfume sólido que se desmanchava no beijo, amargava na língua e amortecia o desejo de tirar a roupa do corpo alheio e buliná-lo em momentos inoportunos.

Os olhos já tontos, as mãos aleijadas pelo piano invisível e toda a lascívia escorrendo no mijo que umedecia as calças. Imprestável e insensível e inútil e com o cérebro escorrendo pelos ouvidos. Pus e sangue, suor e medo. Delírio seria pedir demais, pois o ambiente era tenso. Não queria mais saber da cicatriz no céu da boca, e sim rasgar a boca. Queria forçar um sorriso. O quarto escuro do motel vagabundo não deixava que visse o riso que tanto encantava outrora. Rasgar a boca, novas cicatrizes. Quem sabe beijar uma vez mais a tatuagem feita no braço nos tempos de uma juventude malfadada a ser velha, uma juventude já obsoleta em sua mesquinharia estética. Talvez repetir aquele rito remetesse às lembranças mais dolorosas como os possíveis porquês de a tinha da caneta sair com a água, e aquela esverdeada no braço outrora rijo e viril, ficar – mesmo depois de anos de banho de mar. Beijou mesmo assim o desenho desconfigurado pelas rugas, e mais uma vez recolheu a cabeça sobre o peito protetor. Fingiu imaginar alguma canção de ninar e com os olhos fechados deixou a mão escorrer sobre o pênis murcho. Queria vida! E mesmo depois de inadvertidamente apertá-lo e até mordiscá-lo, o falo permaneceu inerte. A vida, é bom ressaltar, não era possível – não mais naquele recinto que cheirava a sangue e que, com a luz morna de um fim de tarde, mais parecia algum cenário de filmes estrangeiros, desses que se passam em hotéis baratos na beira da estrada. A mesma estrada que escolhera para esfacelar parte da cabeça do próprio pai, achando que os motoristas que passavam não iriam ver a cena de pouco amor. Foi muita ingenuidade achar que não iriam reparar a roupa suja de sangue, que não olhariam desconfiados para os pedaços de pele que estavam sob as unhas. Foi muita burrice achar que arrastar o corpo dele não levantaria suspeita, mesmo sendo filha dele.


sexta-feira, 13 de março de 2009

.da saudade.


Cutucou com a ponta dos olhos a bochecha dela. Queria fazer um carinho míope, embaçado, sem maiores pretensões além de um simples afago. Com a mão direita ele fez lentamente todo o contorno do corpo dela. Desenhou na pela lisa uma flor, um dragão e um grão de areia. Sentiu calor e a necessidade de abraçar com força a libido que de olhos fechados sorria. O dia já se arreganhava lá fora, e a janela amarelada do quarto deixava passar só a impressão de que o tempo passara. Só a impressão, pois o tempo havia parado, caído adrede após se macular com a pressa, com a falta de ar. Era tarde demais. Aquele riso, aquele corpo embebido de um curto vestido, os olhos destacados e com delicadas grades de proteção; tudo nela cativara aquele forasteiro de última hora. Caixeiro-viajante de terras infinitas e distantes. Ermitão com modos e endereço quase fixos: algures.

Com o tempo cambaleando, ele quis somente ficar deitado ao lado dela. Contornou o rosto macio, delimitou a boca, cutucou um dos olhos e conseguiu um sorriso. A mão escorregou por toda aquela geografia sensual, por toda aquela geometria lasciva. Novos contornos, novos desenhos e novas sensações. Fechava os olhos só para, sem técnica alguma, adivinhar onde o pecado se escondia. Mãos e pernas e braços e costas e seios e boca e tudo.

Do outro lado da cidade, ela roía as unhas para encurtar os sonhos. E isto ele apenas supunha, pois nunca houve uma explicação. Na verdade, pensava ele destemido, ela o fazia quase por instinto, sem perceber. E roia e roía e roía e roía. Não adiantava dizer para parar: quando menos se esperava estavam lá as pontas dos dedos entre os dentes. Um canibalismo singelo, um movimento sincronizado. E o riso bonito quando ele a admoestava. E de quando em quando ela olhava os dedos com um certo apetite nos olhos. Ele imaginava um desenho ou uma foto em branco e preto – com o diafragma demasiado aberto, só para estourar as cores adrede inexistentes. Uma boa moldura para aquele momento era o suficiente, humildemente achava ele em seu amadorismo artístico.

Os cabelos dela eram de chocolate. E não é exagero dizer isso, pois eram mesmo. Cabelos de chocolate que manchavam travesseiro dele com um perfume adocicado – e que prolongava os sonhos e sensações. Ele não conseguia encontrar as palavras para expressar a alacridade que sentia ao se encher daquele olor e prender a respiração – só para tê-la um pouco mais em si. Uma descoberta no escuro, um querer-bem singelo, sincero. O perfume, a pele e o frio inexistente que só ela sentia – e que numa outra oportunidade já havia sido anunciado.

Ela, porém, viajou. Deixou um endereço, uns brinquedos e algumas lembranças encharcadas de vontades. De quando em vez ela passa um trote, manda uma carta com ameaças e o deixa preocupado. Ele desenha no ar o contorno do corpo, imagina o riso, desenha o grão de areia e abraça aquela deidade que o desmancha ao se apresentar de vestido. E mesmo com uma dor no peito, sabe que um dia vai estar onde ela provavelmente está: alhures.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

.as notas, o casamento e o tamanho do pênis.


Estavam em promoção, então ele aproveitou para comprar duas notas vulgares. Meio-dia. Notas dissonantes, é bem verdade. Queria fazer um samba sobre sentimentos e sobre todas as cousas espirituais que coubessem no dodecafonismo poético que o inundava. Queria imunizar rimas e se preparar para iminentes fins, pois sabia que no fundo os fins chegam sem avisar. São como improvisos, desafios de repentes sem sotaque e cujas harmonias variam muito. Há tempos tentava compreender como era possível isso e – para deleite de sua perplexidade tímida – no fim ele sempre se enganava. Suas ilações eram pouco confiáveis.

Acordou no dia da compra com um espírito novo, leve. Um bem-estar semelhante ao pós-vômito no auge da bebedeira. Talvez as muitas horas de sono fizeram realmente muito bem a ele. Sono não, um coma, é bem verdade mais uma vez. Mas um coma consciente, previsível e até – por que não? – necessário. O espírito estava leve. Saco plástico na ventania. E os seus olhos murchavam quando tentava enxergar o céu da boca de seu estômago criativo. Viravam dous cus com cílios delicados. Cus de cílios delicados que de quando em vez deixavam – por incúria, é claro – escorrer uma ou outra lágrima amarelada, mas sem o sentimentalismo necessário para convencer qualquer que fosse a pessoa que visse tal choro. Pus puro, suspeita-se.

O seu peito batia descompassado na pressa de usar as notas vulgares. Sentia a copa de uma árvore lhe subir pela garganta. Cócegas e um pouco de tosse. Ânsia de vômito e um pouco de lágrimas. Os passos eram cada vez mais rápidos, e o caminho de volta se trancava com os atalhos da vontade. O caule da tal árvore lhe saía pelo cu, supremo e com o sangue que lhe era de direito ao fazê-lo. Desajeitado o sujeito sambava de quando em vez para que alguma raiz se ajeitasse de uma maneira a não incomodá-lo tanto. Chegou em casa sem se importar com o olhar dos vizinhos – sempre tão incomodados com os afazeres alheios. Gritou a mulher – que estava cozinhando algum verbo intransitivo que não cabia na reforma familiar do casal – e exibiu com orgulho as notas adquiridas. Mas ela apenas pendeu a cabeça para um lado, tal qual um cachorro, e emudeceu. Era demais para ela. Os ombros já curvados na suportavam mais aquela vida como dona de um lar aos frangalhos, sem o requinte que suas unhas exigiam. E o marido, um músico frustrado com tendências megalomaníacas, sempre voltava da feira aos domingos com alguma cousa inútil. Talvez fosse fruto do fato de ele enxergar um quê de surrealismo nas verrugas que ela tinha nos cotovelos – pelo menos um elogio criativo, ela reconhecia –, ou talvez fosse apenas um tipo de demência moderada. Ele não rasgava dinheiro, porém não gastá-lo com alguma cousa útil, para ela, era a mesma cousa.

Ele engoliu tremas e vírgulas, e se desembestou a justificar tamanha inquietude musical. Cruzou as pernas para esconder a árvore que lhe saída do corpo, e sentindo a copa próxima da língua, não agüentou: vomitou o humilde e pontual café da manhã que ela preparou com aparente desleixo – na verdade ela apenas o fez mecanicamente, tamanha a rotina daquele predicado amoroso. Ele hesitou. Queria continuar tentando explicar tamanha demência, e rapidamente surgiram uns versos que ele tanto esperou. Ele sabia: na vida a gente espera, de quando em vez, que surjam versos que fazem com que a gente se encha de poesia – ou que pelo menos façam obliterar o gosto do gozo alheio em nosso rosto. Para ele era aquele o momento. Versos de rimas pobres, mas assaz bonitos e musicais. Quis cantar, mas o ritmo descompassava a métrica.

Enquanto ele se engasgava com a própria vontade, a mulher já tirava o avental encardido e decidia mentalmente o que faria para abandonar do pensamento as lembranças que acumulou ao longo dos tempos ao lado dele. Foram tão-somente algumas semanas de convívio mais intenso, ela sabia, mas que poderiam se alongar. E ela já sentia o suor dele só de lembrar. Houve momentos nos quais ela até fingia prazer, claro. Mas ela não queria lembrar que foi mesquinha e que certa vez o abandonou por alguns meses por incúria matrimonial. Piscou os olhos com força, e no caleidoscópio da tontura ela se sentiu um pouco mais mulher, mesmo sabendo que com aquela idade – somada às verrugas no cotovelo e às tatuagens delicadamente mal desenhadas – seria difícil encontrar um sujeito tão desafortunado como ele. Reconhecia a burrice dele, o jeito cafona de se vestir dele e a feiúra que a ele era determinante. Reconhecia isso tudo, mas não queria mais se deitar com um sujeito que tinha uma árvore saindo do cu.

Não esperou mais justificativas. Encheu o peito com a coragem que lhe cabia e decidiu partir. Deixou o avental na mesa de quatro lugares e não se preocupou em desligar o fogo de uma das quatro bocas. Cortou ela mesma o cabelo que lhe dava a aparência de evangélica. Deixou o banheiro sujo, estranhamente sujo. Vestiu-se inapropriadamente para qualquer dia qualquer da semana. Roupa amassada, com cheiro de mofo e que evidenciava um ou outro ano a mais, uma idade que ela deixou se acumular ao longo de um casamento pouco inspirado. Salto alto. Uma olhada inda para arrematar a sensualidade que acreditava estar transpirando. Queria assobios sinceros e elogios grosseiros. Iria caminhar a esmo, talvez assobiando melodias outras. Saiu de casa sem olhar para conferir se a árvore ainda saía do cu do marido. A morte podia mesmo os separar enfim. Entrou no boteco da esquina e comprou tão-somente um cigarro. Sentiu-se alegre só de perceber o estranhamento dos conhecidos. Mas ela queria mais, e tão-logo foi ao ponto de ônibus mais próximo. Para o primeiro estranho ou fumante que encontrasse ela decidida estava a oferecer algum motivo para olhares e palavras.

Talvez fosse demais, ou apenas uma brincadeira do destino. Logo ele, um sujeito tão estranho e com hábitos auto-destrutivos que estavam tão fora de moda; logo ele chamou a atenção daquela mulher. Não podia acreditar em tal cacofonia do destino. Ele até tremeu só de imaginar os dous numa cama trançando as pernas e fazendo fogo a partir de movimentos repetitivos. Até chegou a acender o isqueiro com certo charme, pronto a ceder àqueles lábios e seios e pernas e libido e tudo mais que dizem ser correto apenas e só apenas o casamento. Queria mais é que a morte, enfim, o separasse do mundo! Antes de carburar o cigarro dela, porém, lembrou que ela poderia rir do tamanho do seu pênis. Ínfima masculinidade, diminutivo pouco carinhoso que os substantivos hormonais lhe deram de presente. De relance chegou a vê-la rindo maliciosamente tapando a boca, apontando para a graça da desgraça. Na mesma hora se virou e decidiu ir para casa caminhando. Não queria ele se sentir demasiadamente triste mais uma vez.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

.inda vai passar.


Quebrei-me em vários, em muitos de mim, em vizinhos ignotos que eu fazia questão de ignorar – pois cada um me vinha com uma lembrança diferente, com uma saudade mais descabida que a outra saudade descabida saudade –, mesmo sabendo que uma hora um ou outro iria bater em minha porta para solicitar uma ajuda qualquer ou qualquer ou ajuda ou outra desculpa qualquer para puxar assunto sobre o que tínhamos em comum, e o que nos era mútuo nos maculou de tal maneira que era impossível não sentir o aperto no peito, a falta de ar, o olhar perdido em alguma cena ou os dedos estalando sentimentos que podiam ser fermentados – e que não foram porque algum motivo que todos nós desconhecíamos muito bem desconhecíamos muito, e bem não estávamos justamente por isso, pois apenas passar para macular despretensiosamente nosso malfadado cotidiano era uma atitude egoísta –, ou pelo menos assim entendíamos, e ali, confesso eu – que sou vizinho de mim mesmo na mesma proporção que os outros de mim são para mim –, era difícil aceitar tamanha saudade, pois nos era uma lembrança demasiado pesada para ser carregada por toda uma vida de poucas alegrias e poucas conquistas, mesmo sabendo que tudo era uma questão de tempo – e pouco foi o tempo, aliás, porque apenas passar, como brancas nuvens, muitas pessoas passam, apenas passam, mas o passar em questão foi muito, mas muito diferente –, e eu bem entendia que não adiantava me esconder atrás do poste – como um vizinho-eu fez/fiz – ou se agachar ou gritar apontando o dedo ou mesmo subir no muro para encarar de perto o olhar ambíguo que um dia havia sido o mais fotogênico nos sonhos mais lascivos – mesmo estando este olhar adrede protegido pelas pálpebras, as cortinas que faziam surgir outras cenas outras na hora dos movimentos silenciosos e perigosos, principalmente ao amanhecer –, pois o mais fácil e mais sensato a se fazer era se embasbacar mais uma vez uma vez, exercitar um estranhamento já conhecido, re-visitar um museu cujas obras inéditas tinham um aspecto fortemente familiar – e por isso mesmo exibiam um calor único, um olor diferente e uma vivacidade opaca que gritava cores, mas de forma contida, cabisbaixa –, um quê de lugar-comum, de clichê lhano ou de obviedade conflituosa, um conflito interno que me consumia os matizes álacres e deixava – adrede, é bom lembrar – tão-somente alguns perdigotos de momentos e cores mais amenas, menos tão sinceras e fugazes, e mais parecidas com o batom discreto que fez do movimento uma tela em branco para assinar a sentença de um fim já anunciado, e então apenas passou num sincero e singelo movimento sincero. Talvez nem tão sincero assim, enfim.

Na verdade inda vai passar. Eu é que perdi desde já – talvez de propósito – o momento certo de abrir os olhos.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

.haut goût.


A pose era artificial, claro. Não podia ser diferente – e ninguém ali queria que fosse. O riso era artificial, plástico. Um filme sem cortes. Plano seqüência sem ensaios, sem falas previamente escritas. Foi tudo muito rápido, intenso. Não podia ser diferente, enfim. Às vezes a gente se engana, é verdade. Talvez não fosse o caso, e nem era. Um riso de plástico, um gracejo desajeitado e o emaranhado sentimental cobrindo as pupilas. Talvez não estivessem suficientemente ébrios para dizerem um para o outro que julgavam necessário dizer. Talvez fossem apenas dous fubâmbulos que sofressem de demasiada vertigem. Medo de altura num picadeiro sem espectadores. O mais provável mesmo era o medo da queda. E dor era apenas o que poderiam sentir ao fim. E um gosto amargo, é bom lembrar. Talvez aquele riso fosse apenas vicário, e num lapso de romantismo cafona não se apercebeu o possível erro. Ela apenas pediu para ser apresentada ao futuro – ela sofre de miopia grave, é bom salientar –, mas não era possível tal façanha, pois já estavam fora do ritmo. Ela o alcançaria num olhar, é bem verdade, mas – cala a boca! – num piscar de olhos ele largaria a mão dela e deixaria que o labirinto a abraçasse.

Os dous se abraçaram com força, como se fosse o último abraço. Mas foi um abraço distante, sem jeito. O riso era de plástico, a pose ensaiada e tudo mais artificial. Nem um ósculo sequer como compensação da vicissitude repentina. Talvez fosse necessário mesmo contristar aquele romantismo cafona que ninguém se apercebeu. Tornar a díade em um par de separados, cada um para o seu lado e cada um com o seu gosto. Ah, o tal gosto! Gosto do fim, amargor de lágrimas. O gosto! Fosse necessário talvez pagar uma sessão de axinomancia para aplacar aquele acre pressentimento de uma acentuação mal colocada. Num momento de lucidez ela perguntou sobre quem segura os pingos dos is. E ali se fez urgente um feérico mundo, sem regras ortográficas ou sem dúvidas gramaticais. Criaram uma hipóstase e foram viver cada qual em seu labirinto, essa é a verdade. Antes, um corpo abraçado em si mesmo. Agora, dous numa pose bonita. A foto ideal para o close do fim.