quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

.haut goût.


A pose era artificial, claro. Não podia ser diferente – e ninguém ali queria que fosse. O riso era artificial, plástico. Um filme sem cortes. Plano seqüência sem ensaios, sem falas previamente escritas. Foi tudo muito rápido, intenso. Não podia ser diferente, enfim. Às vezes a gente se engana, é verdade. Talvez não fosse o caso, e nem era. Um riso de plástico, um gracejo desajeitado e o emaranhado sentimental cobrindo as pupilas. Talvez não estivessem suficientemente ébrios para dizerem um para o outro que julgavam necessário dizer. Talvez fossem apenas dous fubâmbulos que sofressem de demasiada vertigem. Medo de altura num picadeiro sem espectadores. O mais provável mesmo era o medo da queda. E dor era apenas o que poderiam sentir ao fim. E um gosto amargo, é bom lembrar. Talvez aquele riso fosse apenas vicário, e num lapso de romantismo cafona não se apercebeu o possível erro. Ela apenas pediu para ser apresentada ao futuro – ela sofre de miopia grave, é bom salientar –, mas não era possível tal façanha, pois já estavam fora do ritmo. Ela o alcançaria num olhar, é bem verdade, mas – cala a boca! – num piscar de olhos ele largaria a mão dela e deixaria que o labirinto a abraçasse.

Os dous se abraçaram com força, como se fosse o último abraço. Mas foi um abraço distante, sem jeito. O riso era de plástico, a pose ensaiada e tudo mais artificial. Nem um ósculo sequer como compensação da vicissitude repentina. Talvez fosse necessário mesmo contristar aquele romantismo cafona que ninguém se apercebeu. Tornar a díade em um par de separados, cada um para o seu lado e cada um com o seu gosto. Ah, o tal gosto! Gosto do fim, amargor de lágrimas. O gosto! Fosse necessário talvez pagar uma sessão de axinomancia para aplacar aquele acre pressentimento de uma acentuação mal colocada. Num momento de lucidez ela perguntou sobre quem segura os pingos dos is. E ali se fez urgente um feérico mundo, sem regras ortográficas ou sem dúvidas gramaticais. Criaram uma hipóstase e foram viver cada qual em seu labirinto, essa é a verdade. Antes, um corpo abraçado em si mesmo. Agora, dous numa pose bonita. A foto ideal para o close do fim.


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