sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

.as notas, o casamento e o tamanho do pênis.


Estavam em promoção, então ele aproveitou para comprar duas notas vulgares. Meio-dia. Notas dissonantes, é bem verdade. Queria fazer um samba sobre sentimentos e sobre todas as cousas espirituais que coubessem no dodecafonismo poético que o inundava. Queria imunizar rimas e se preparar para iminentes fins, pois sabia que no fundo os fins chegam sem avisar. São como improvisos, desafios de repentes sem sotaque e cujas harmonias variam muito. Há tempos tentava compreender como era possível isso e – para deleite de sua perplexidade tímida – no fim ele sempre se enganava. Suas ilações eram pouco confiáveis.

Acordou no dia da compra com um espírito novo, leve. Um bem-estar semelhante ao pós-vômito no auge da bebedeira. Talvez as muitas horas de sono fizeram realmente muito bem a ele. Sono não, um coma, é bem verdade mais uma vez. Mas um coma consciente, previsível e até – por que não? – necessário. O espírito estava leve. Saco plástico na ventania. E os seus olhos murchavam quando tentava enxergar o céu da boca de seu estômago criativo. Viravam dous cus com cílios delicados. Cus de cílios delicados que de quando em vez deixavam – por incúria, é claro – escorrer uma ou outra lágrima amarelada, mas sem o sentimentalismo necessário para convencer qualquer que fosse a pessoa que visse tal choro. Pus puro, suspeita-se.

O seu peito batia descompassado na pressa de usar as notas vulgares. Sentia a copa de uma árvore lhe subir pela garganta. Cócegas e um pouco de tosse. Ânsia de vômito e um pouco de lágrimas. Os passos eram cada vez mais rápidos, e o caminho de volta se trancava com os atalhos da vontade. O caule da tal árvore lhe saía pelo cu, supremo e com o sangue que lhe era de direito ao fazê-lo. Desajeitado o sujeito sambava de quando em vez para que alguma raiz se ajeitasse de uma maneira a não incomodá-lo tanto. Chegou em casa sem se importar com o olhar dos vizinhos – sempre tão incomodados com os afazeres alheios. Gritou a mulher – que estava cozinhando algum verbo intransitivo que não cabia na reforma familiar do casal – e exibiu com orgulho as notas adquiridas. Mas ela apenas pendeu a cabeça para um lado, tal qual um cachorro, e emudeceu. Era demais para ela. Os ombros já curvados na suportavam mais aquela vida como dona de um lar aos frangalhos, sem o requinte que suas unhas exigiam. E o marido, um músico frustrado com tendências megalomaníacas, sempre voltava da feira aos domingos com alguma cousa inútil. Talvez fosse fruto do fato de ele enxergar um quê de surrealismo nas verrugas que ela tinha nos cotovelos – pelo menos um elogio criativo, ela reconhecia –, ou talvez fosse apenas um tipo de demência moderada. Ele não rasgava dinheiro, porém não gastá-lo com alguma cousa útil, para ela, era a mesma cousa.

Ele engoliu tremas e vírgulas, e se desembestou a justificar tamanha inquietude musical. Cruzou as pernas para esconder a árvore que lhe saída do corpo, e sentindo a copa próxima da língua, não agüentou: vomitou o humilde e pontual café da manhã que ela preparou com aparente desleixo – na verdade ela apenas o fez mecanicamente, tamanha a rotina daquele predicado amoroso. Ele hesitou. Queria continuar tentando explicar tamanha demência, e rapidamente surgiram uns versos que ele tanto esperou. Ele sabia: na vida a gente espera, de quando em vez, que surjam versos que fazem com que a gente se encha de poesia – ou que pelo menos façam obliterar o gosto do gozo alheio em nosso rosto. Para ele era aquele o momento. Versos de rimas pobres, mas assaz bonitos e musicais. Quis cantar, mas o ritmo descompassava a métrica.

Enquanto ele se engasgava com a própria vontade, a mulher já tirava o avental encardido e decidia mentalmente o que faria para abandonar do pensamento as lembranças que acumulou ao longo dos tempos ao lado dele. Foram tão-somente algumas semanas de convívio mais intenso, ela sabia, mas que poderiam se alongar. E ela já sentia o suor dele só de lembrar. Houve momentos nos quais ela até fingia prazer, claro. Mas ela não queria lembrar que foi mesquinha e que certa vez o abandonou por alguns meses por incúria matrimonial. Piscou os olhos com força, e no caleidoscópio da tontura ela se sentiu um pouco mais mulher, mesmo sabendo que com aquela idade – somada às verrugas no cotovelo e às tatuagens delicadamente mal desenhadas – seria difícil encontrar um sujeito tão desafortunado como ele. Reconhecia a burrice dele, o jeito cafona de se vestir dele e a feiúra que a ele era determinante. Reconhecia isso tudo, mas não queria mais se deitar com um sujeito que tinha uma árvore saindo do cu.

Não esperou mais justificativas. Encheu o peito com a coragem que lhe cabia e decidiu partir. Deixou o avental na mesa de quatro lugares e não se preocupou em desligar o fogo de uma das quatro bocas. Cortou ela mesma o cabelo que lhe dava a aparência de evangélica. Deixou o banheiro sujo, estranhamente sujo. Vestiu-se inapropriadamente para qualquer dia qualquer da semana. Roupa amassada, com cheiro de mofo e que evidenciava um ou outro ano a mais, uma idade que ela deixou se acumular ao longo de um casamento pouco inspirado. Salto alto. Uma olhada inda para arrematar a sensualidade que acreditava estar transpirando. Queria assobios sinceros e elogios grosseiros. Iria caminhar a esmo, talvez assobiando melodias outras. Saiu de casa sem olhar para conferir se a árvore ainda saía do cu do marido. A morte podia mesmo os separar enfim. Entrou no boteco da esquina e comprou tão-somente um cigarro. Sentiu-se alegre só de perceber o estranhamento dos conhecidos. Mas ela queria mais, e tão-logo foi ao ponto de ônibus mais próximo. Para o primeiro estranho ou fumante que encontrasse ela decidida estava a oferecer algum motivo para olhares e palavras.

Talvez fosse demais, ou apenas uma brincadeira do destino. Logo ele, um sujeito tão estranho e com hábitos auto-destrutivos que estavam tão fora de moda; logo ele chamou a atenção daquela mulher. Não podia acreditar em tal cacofonia do destino. Ele até tremeu só de imaginar os dous numa cama trançando as pernas e fazendo fogo a partir de movimentos repetitivos. Até chegou a acender o isqueiro com certo charme, pronto a ceder àqueles lábios e seios e pernas e libido e tudo mais que dizem ser correto apenas e só apenas o casamento. Queria mais é que a morte, enfim, o separasse do mundo! Antes de carburar o cigarro dela, porém, lembrou que ela poderia rir do tamanho do seu pênis. Ínfima masculinidade, diminutivo pouco carinhoso que os substantivos hormonais lhe deram de presente. De relance chegou a vê-la rindo maliciosamente tapando a boca, apontando para a graça da desgraça. Na mesma hora se virou e decidiu ir para casa caminhando. Não queria ele se sentir demasiadamente triste mais uma vez.