sexta-feira, 13 de março de 2009

.da saudade.


Cutucou com a ponta dos olhos a bochecha dela. Queria fazer um carinho míope, embaçado, sem maiores pretensões além de um simples afago. Com a mão direita ele fez lentamente todo o contorno do corpo dela. Desenhou na pela lisa uma flor, um dragão e um grão de areia. Sentiu calor e a necessidade de abraçar com força a libido que de olhos fechados sorria. O dia já se arreganhava lá fora, e a janela amarelada do quarto deixava passar só a impressão de que o tempo passara. Só a impressão, pois o tempo havia parado, caído adrede após se macular com a pressa, com a falta de ar. Era tarde demais. Aquele riso, aquele corpo embebido de um curto vestido, os olhos destacados e com delicadas grades de proteção; tudo nela cativara aquele forasteiro de última hora. Caixeiro-viajante de terras infinitas e distantes. Ermitão com modos e endereço quase fixos: algures.

Com o tempo cambaleando, ele quis somente ficar deitado ao lado dela. Contornou o rosto macio, delimitou a boca, cutucou um dos olhos e conseguiu um sorriso. A mão escorregou por toda aquela geografia sensual, por toda aquela geometria lasciva. Novos contornos, novos desenhos e novas sensações. Fechava os olhos só para, sem técnica alguma, adivinhar onde o pecado se escondia. Mãos e pernas e braços e costas e seios e boca e tudo.

Do outro lado da cidade, ela roía as unhas para encurtar os sonhos. E isto ele apenas supunha, pois nunca houve uma explicação. Na verdade, pensava ele destemido, ela o fazia quase por instinto, sem perceber. E roia e roía e roía e roía. Não adiantava dizer para parar: quando menos se esperava estavam lá as pontas dos dedos entre os dentes. Um canibalismo singelo, um movimento sincronizado. E o riso bonito quando ele a admoestava. E de quando em quando ela olhava os dedos com um certo apetite nos olhos. Ele imaginava um desenho ou uma foto em branco e preto – com o diafragma demasiado aberto, só para estourar as cores adrede inexistentes. Uma boa moldura para aquele momento era o suficiente, humildemente achava ele em seu amadorismo artístico.

Os cabelos dela eram de chocolate. E não é exagero dizer isso, pois eram mesmo. Cabelos de chocolate que manchavam travesseiro dele com um perfume adocicado – e que prolongava os sonhos e sensações. Ele não conseguia encontrar as palavras para expressar a alacridade que sentia ao se encher daquele olor e prender a respiração – só para tê-la um pouco mais em si. Uma descoberta no escuro, um querer-bem singelo, sincero. O perfume, a pele e o frio inexistente que só ela sentia – e que numa outra oportunidade já havia sido anunciado.

Ela, porém, viajou. Deixou um endereço, uns brinquedos e algumas lembranças encharcadas de vontades. De quando em vez ela passa um trote, manda uma carta com ameaças e o deixa preocupado. Ele desenha no ar o contorno do corpo, imagina o riso, desenha o grão de areia e abraça aquela deidade que o desmancha ao se apresentar de vestido. E mesmo com uma dor no peito, sabe que um dia vai estar onde ela provavelmente está: alhures.

5 comentários:

fochesatto disse...

ele, nenhures.
bem feito.

i. bê. gomes disse...

.claro. concordo.

Panamby disse...

acho que tem uma pessoa que precisa mandar colaborações (desenhos ou textos) para uma revista chamada grifo.

abs.
talyta singer

Insolente disse...

Delicioso.

Oxum disse...

Cada palavra maravilhosa de se sorver.

Faz tempo que não passava por aqui. Favoritos já!

Cherim, meu querido.