terça-feira, 21 de abril de 2009

.do tédio sobre a diversão e a arte.


A música estava alta e era uma qualquer. Um qualquer sucesso qualquer enfim. Não importava muito, para falar a verdade – mesmo que estivesse mentindo em seu âmago podre e se importasse muito com aquele som. Conhecia-se muito bem, e isso o magoava de um tanto... Foi apenas o amigo chegar para o sorriso se desmanchar em um tiro. Esqueceu-se da banda e dos amigos quase pouco afáveis que o acompanhavam naquela noute desigual. Sem a metade! E talvez por isso tenha pegado furtivamente o pequeno embrulho transparente que continha o tal antídoto contra a monotonia. No fundo não sentia falta, pois já estava ébrio, tonto. Sambava palavras com maestria e rimava conceitos com uma métrica alexandrina impecável. Cumprimentava os conhecidos e até ameaçava risos outros. E foi exatamente numa dessas ameaças que viu o sujeito chegar risonho, com as intenções dignas de uma boca-de-fumo – mas essa era limpinha, sem pretos de bigode ralo ou brancos encardidos de cabelos ensebados. A casa era popular, cheia de fina gente, pessoas inteligentes, músicos competentes e tantos entes que mal era possível mensurar. Dessa vez não era um moquifo empoeirado que cheirava a urina. Não, era uma casa de respeito – que por mais respeito que tivesse, sempre era possível se subverter os risos e olhares.

Depois de pegar o embrulho, dirigiu-se ao banheiro. Não ficava mais nervoso como antigamente. Era monge cujo hábito se delineava pelas pontas dos cartões e até pelas chaves pouco imponentes. Era um sujeito experiente em burlar os bons modos, em misturar as idéias e em lubrificar com pó a fala já tonta pelo álcool em excesso consumido. Foi cousa rápida, lance de gênio, futebol arte. Inalou duas vezes para garantir que usasse muito do que não contribuiu com um centavo sequer. Preocupação com o financiamento do tráfico ou com a suposta contribuição para a perpetuação da violência? Quem quiser o bem alheio que vá para a igreja, certo? Ele não queria só comida, queria diversão e arte, mas sabia que a diversão incluía a arte do gênero tóxico. aspasPor que não?aspas, perguntaria Thompson. Afinal, porque não.

Mal saiu do cubículo da privada branca – que, mesmo sendo numa casa de respeito, estava entupida de mijo e vômito –, já viu o amigo vindo com um largo sorriso. A lembrança de ter passado o embrulho é vaga, pois assim que ouviu a porta se fechar, caiu no chão sujo. Chão este feito de pequenos azulejos marrons retangulares que, dispostos um ao lado do outro, fazia pequenos cânions onde se acumulava mijo e água – água que caia das mãos que se molhavam de mijo e que, procurando limpeza, deixavam-se molhar por água limpa para depois sacudirem-se e deixar o chão salpicado por água limpa cuja união com os solados sujos dos fregueses fazia com que o chão ficasse coberto de uma lama preta e imunda e cujo cheiro era de puro mijo. E foi ali que caiu de cara, de rosto e barba e baba. Arregalou os olhos e viu um ou outro sujeito estranho se virando para olhá-lo – sujeitos estes que não soltaram os respectivos paus, e que, assim, deixavam o mijo escorrer para perto do rosto dele. Rapidamente se arrependeu por ter pensado na possibilidade de ter contribuído para o tráfico ou para o aumento da violência. Queria mais era que tudo se explodisse e que a sua cabeça fosse a primeira, pois o tédio era demasiado aterrador naquele instante. Mas tão-somente naquele instante.


quarta-feira, 15 de abril de 2009

.da angústia.

Girar e girar e girar e ficar tonto e regurgitar as idéias mais esconsas e os pensamentos mais pueris e todos os demônios que nos lambes as vontades e sufocam os pecados diante de uma aparente salvação. Não há porquês suficientes que justifiquem qualquer tipo de sentimentalismo exacerbado, qualquer rebuscamento artístico ou satisfação profissional. Sejamos educados a girar e sermos redemoinhos e nos trançarmos uns aos outros numa costura vagabunda para sermos, enfim, o lenço vermelho que atiça o touro. Façamos parte deste espetáculo sangrento e gozemos e deixemos os pés em carne viva de tanto dançar em homenagem a deuses indiferentes. Girar e girar e girar e ficar tontos o suficiente para cambalear pelos anos que se seguem ininterruptos, e quando por fim tudo findar, brindemos com beijos e abraços e sorrisos tudo que por incúria e egoísmo deixamos de fazer. Acrescentemos a isso o rancor de termos feito escolhas erradas diante de opções pouco atraentes. E quando estivermos satisfeitos, inventemos melodias bonitas – mas realmente bonitas, dessas que nos apertam o peito e nos afagam nos momentos em que, como disse o outro, a alegria recolhe a mão para não nos alcançar – para confortar aqueles mesmos deuses indiferentes. Eles perceberão que foram inventados, e como tais, não passam de mentiras com uma bela maquiagem: óleo sobre tela e poucas orelhas cortadas.

Às vezes é aconselhável até deixar as cores mais apagadas, afogar os matizes numa aquarela preguiçosa e inundar o nanquim com movimentos outros. Às vezes nunca é sempre que quase a todo momento há desafios insignificantes, desses aos quais a gente dedica um muxoxo e sai por aí com a mão no bolso. Todos os superlativos e todos os adjuntos adverbiais e quase todas as orações compostas: ignoremos tudo isso. É preferível ficar mudo a sair profetizando mentiras. Quase sempre é necessário olhar para esta vida mesquinha para nunca conseguir ler as entrelinhas que nos escrevem sem o nosso consentimento. Há muitas margens, muitas regras e reformas pouco ortográficas. A tontura, assim, não vale a pena. Não faz sentido girar e girar e girar para vomitar idéias e sentimentos e qualquer cousa que o valha.

Não, isso não pode funcionar sempre. Definitivamente não.



Esperemos enquanto nossos olhos lacrimejam cores demasiado salgadas.


segunda-feira, 6 de abril de 2009

.do carinho edipiano ao pai.

Lambeu com nervosismo erótico a cicatriz que ela tinha no céu da boca. A língua percorreu toda a saliência que, úmida e lisa, fazia cócegas na ponta daquele músculo solto, lascivo e que de maneira escusa esconde as palavras. Perdeu a compostura por um momento, até abriu rapidamente os olhos para ser se estava sendo encarada por outros olhos, mas não: era tudo silêncio e cílios abraçados. Um balé de línguas e saliva, dentes e lábios, pus e sangue. Abraçava cada vez forte o corpo alheio para sentir os ossos, os órgãos e tudo mais que pudesse expelir sangue de alguma forma. De quando em vez se separava da boca outra e lambia o pescoço, deixava a língua escorrer pelas costas até o fim da coluna, e depois subia lentamente. Era permitido babar, cuspir, cheirar. E cheirava, claro. Antes de iniciar a confusão erótica, havia tido um tórrido envolvimento com a parede. Era evidente. Boca trêmula, queixo ruminando silêncio e mesma língua sufocada entre os dentes pouco higienizados. O olhar desafiava qualquer um, e a voz adrede fina sussurrava qualquer obscenidade sacra no ouvido alheio. As mãos tocavam um piano imaginário, e as teclas pretas, em sua alva imaginação, eram sustenidos imprestáveis. Queria acordes maiores, gritantes, com tapas, uivos e urina. E sentia-se murchar por causa do excessivo consumo de cerveja e tonto e com os olhos marejados de vontades duplas. A parede é implacável, como todos sabem. E o gosto amargo que alegrava o coração se confundia com o gosto de cigarro da boca alheia. Alertava sempre que fumar é prejudicial, e fazia questão de se envolver com paredes confiáveis - aquelas que não são misturadas como os sofisticados cânceres que contém mais de 4.700 substâncias tóxicas que não permitem um nível seguro ao serem consumidas. Não, isso não. As paredes devidamente empacotadas em pequenos e coloridos sacos plásticos eram alvas, utopicamente puras e saudáveis. Tinha alguns deles para um período considerável – o suficiente para obliterar o desejo por tanto tempo reprimido socialmente. Um perfume sólido que se desmanchava no beijo, amargava na língua e amortecia o desejo de tirar a roupa do corpo alheio e buliná-lo em momentos inoportunos.

Os olhos já tontos, as mãos aleijadas pelo piano invisível e toda a lascívia escorrendo no mijo que umedecia as calças. Imprestável e insensível e inútil e com o cérebro escorrendo pelos ouvidos. Pus e sangue, suor e medo. Delírio seria pedir demais, pois o ambiente era tenso. Não queria mais saber da cicatriz no céu da boca, e sim rasgar a boca. Queria forçar um sorriso. O quarto escuro do motel vagabundo não deixava que visse o riso que tanto encantava outrora. Rasgar a boca, novas cicatrizes. Quem sabe beijar uma vez mais a tatuagem feita no braço nos tempos de uma juventude malfadada a ser velha, uma juventude já obsoleta em sua mesquinharia estética. Talvez repetir aquele rito remetesse às lembranças mais dolorosas como os possíveis porquês de a tinha da caneta sair com a água, e aquela esverdeada no braço outrora rijo e viril, ficar – mesmo depois de anos de banho de mar. Beijou mesmo assim o desenho desconfigurado pelas rugas, e mais uma vez recolheu a cabeça sobre o peito protetor. Fingiu imaginar alguma canção de ninar e com os olhos fechados deixou a mão escorrer sobre o pênis murcho. Queria vida! E mesmo depois de inadvertidamente apertá-lo e até mordiscá-lo, o falo permaneceu inerte. A vida, é bom ressaltar, não era possível – não mais naquele recinto que cheirava a sangue e que, com a luz morna de um fim de tarde, mais parecia algum cenário de filmes estrangeiros, desses que se passam em hotéis baratos na beira da estrada. A mesma estrada que escolhera para esfacelar parte da cabeça do próprio pai, achando que os motoristas que passavam não iriam ver a cena de pouco amor. Foi muita ingenuidade achar que não iriam reparar a roupa suja de sangue, que não olhariam desconfiados para os pedaços de pele que estavam sob as unhas. Foi muita burrice achar que arrastar o corpo dele não levantaria suspeita, mesmo sendo filha dele.