quarta-feira, 15 de abril de 2009

.da angústia.

Girar e girar e girar e ficar tonto e regurgitar as idéias mais esconsas e os pensamentos mais pueris e todos os demônios que nos lambes as vontades e sufocam os pecados diante de uma aparente salvação. Não há porquês suficientes que justifiquem qualquer tipo de sentimentalismo exacerbado, qualquer rebuscamento artístico ou satisfação profissional. Sejamos educados a girar e sermos redemoinhos e nos trançarmos uns aos outros numa costura vagabunda para sermos, enfim, o lenço vermelho que atiça o touro. Façamos parte deste espetáculo sangrento e gozemos e deixemos os pés em carne viva de tanto dançar em homenagem a deuses indiferentes. Girar e girar e girar e ficar tontos o suficiente para cambalear pelos anos que se seguem ininterruptos, e quando por fim tudo findar, brindemos com beijos e abraços e sorrisos tudo que por incúria e egoísmo deixamos de fazer. Acrescentemos a isso o rancor de termos feito escolhas erradas diante de opções pouco atraentes. E quando estivermos satisfeitos, inventemos melodias bonitas – mas realmente bonitas, dessas que nos apertam o peito e nos afagam nos momentos em que, como disse o outro, a alegria recolhe a mão para não nos alcançar – para confortar aqueles mesmos deuses indiferentes. Eles perceberão que foram inventados, e como tais, não passam de mentiras com uma bela maquiagem: óleo sobre tela e poucas orelhas cortadas.

Às vezes é aconselhável até deixar as cores mais apagadas, afogar os matizes numa aquarela preguiçosa e inundar o nanquim com movimentos outros. Às vezes nunca é sempre que quase a todo momento há desafios insignificantes, desses aos quais a gente dedica um muxoxo e sai por aí com a mão no bolso. Todos os superlativos e todos os adjuntos adverbiais e quase todas as orações compostas: ignoremos tudo isso. É preferível ficar mudo a sair profetizando mentiras. Quase sempre é necessário olhar para esta vida mesquinha para nunca conseguir ler as entrelinhas que nos escrevem sem o nosso consentimento. Há muitas margens, muitas regras e reformas pouco ortográficas. A tontura, assim, não vale a pena. Não faz sentido girar e girar e girar para vomitar idéias e sentimentos e qualquer cousa que o valha.

Não, isso não pode funcionar sempre. Definitivamente não.



Esperemos enquanto nossos olhos lacrimejam cores demasiado salgadas.


Um comentário:

fochesatto disse...

o importante - se é que me permite expor algum bright side of damn life - é que sua aquarela está ficando melhor.