segunda-feira, 6 de abril de 2009

.do carinho edipiano ao pai.

Lambeu com nervosismo erótico a cicatriz que ela tinha no céu da boca. A língua percorreu toda a saliência que, úmida e lisa, fazia cócegas na ponta daquele músculo solto, lascivo e que de maneira escusa esconde as palavras. Perdeu a compostura por um momento, até abriu rapidamente os olhos para ser se estava sendo encarada por outros olhos, mas não: era tudo silêncio e cílios abraçados. Um balé de línguas e saliva, dentes e lábios, pus e sangue. Abraçava cada vez forte o corpo alheio para sentir os ossos, os órgãos e tudo mais que pudesse expelir sangue de alguma forma. De quando em vez se separava da boca outra e lambia o pescoço, deixava a língua escorrer pelas costas até o fim da coluna, e depois subia lentamente. Era permitido babar, cuspir, cheirar. E cheirava, claro. Antes de iniciar a confusão erótica, havia tido um tórrido envolvimento com a parede. Era evidente. Boca trêmula, queixo ruminando silêncio e mesma língua sufocada entre os dentes pouco higienizados. O olhar desafiava qualquer um, e a voz adrede fina sussurrava qualquer obscenidade sacra no ouvido alheio. As mãos tocavam um piano imaginário, e as teclas pretas, em sua alva imaginação, eram sustenidos imprestáveis. Queria acordes maiores, gritantes, com tapas, uivos e urina. E sentia-se murchar por causa do excessivo consumo de cerveja e tonto e com os olhos marejados de vontades duplas. A parede é implacável, como todos sabem. E o gosto amargo que alegrava o coração se confundia com o gosto de cigarro da boca alheia. Alertava sempre que fumar é prejudicial, e fazia questão de se envolver com paredes confiáveis - aquelas que não são misturadas como os sofisticados cânceres que contém mais de 4.700 substâncias tóxicas que não permitem um nível seguro ao serem consumidas. Não, isso não. As paredes devidamente empacotadas em pequenos e coloridos sacos plásticos eram alvas, utopicamente puras e saudáveis. Tinha alguns deles para um período considerável – o suficiente para obliterar o desejo por tanto tempo reprimido socialmente. Um perfume sólido que se desmanchava no beijo, amargava na língua e amortecia o desejo de tirar a roupa do corpo alheio e buliná-lo em momentos inoportunos.

Os olhos já tontos, as mãos aleijadas pelo piano invisível e toda a lascívia escorrendo no mijo que umedecia as calças. Imprestável e insensível e inútil e com o cérebro escorrendo pelos ouvidos. Pus e sangue, suor e medo. Delírio seria pedir demais, pois o ambiente era tenso. Não queria mais saber da cicatriz no céu da boca, e sim rasgar a boca. Queria forçar um sorriso. O quarto escuro do motel vagabundo não deixava que visse o riso que tanto encantava outrora. Rasgar a boca, novas cicatrizes. Quem sabe beijar uma vez mais a tatuagem feita no braço nos tempos de uma juventude malfadada a ser velha, uma juventude já obsoleta em sua mesquinharia estética. Talvez repetir aquele rito remetesse às lembranças mais dolorosas como os possíveis porquês de a tinha da caneta sair com a água, e aquela esverdeada no braço outrora rijo e viril, ficar – mesmo depois de anos de banho de mar. Beijou mesmo assim o desenho desconfigurado pelas rugas, e mais uma vez recolheu a cabeça sobre o peito protetor. Fingiu imaginar alguma canção de ninar e com os olhos fechados deixou a mão escorrer sobre o pênis murcho. Queria vida! E mesmo depois de inadvertidamente apertá-lo e até mordiscá-lo, o falo permaneceu inerte. A vida, é bom ressaltar, não era possível – não mais naquele recinto que cheirava a sangue e que, com a luz morna de um fim de tarde, mais parecia algum cenário de filmes estrangeiros, desses que se passam em hotéis baratos na beira da estrada. A mesma estrada que escolhera para esfacelar parte da cabeça do próprio pai, achando que os motoristas que passavam não iriam ver a cena de pouco amor. Foi muita ingenuidade achar que não iriam reparar a roupa suja de sangue, que não olhariam desconfiados para os pedaços de pele que estavam sob as unhas. Foi muita burrice achar que arrastar o corpo dele não levantaria suspeita, mesmo sendo filha dele.


3 comentários:

Oxum disse...

Balé clássico de palavras, ao menos na unidade incrível. De resto, muito trangressor.

fochesatto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
fochesatto disse...

queria ter a cabeça dura como um bode para atirar-me nessas paredes!