quinta-feira, 14 de maio de 2009

.do noticiário.


Não resistiu à pressão, e mesmo que quisesse, seria demais para o já combalido baú de frivolidades sentimentais que carregava no peito. O olhar estava tonto e largo, os passos cabisbaixos chutavam pedras, diamantes e algumas pétalas incautas. Estava meio perdido na inteireza do seu medíocre ser – sendo esta mediocridade até relativa, pois havia pessoas que gostavam de gastar encômios para as suas destrezas pouco alardeadas. No fundo isso pouco importa. A dialética das cousas não faz sentido na rigidez do cotidiano calcado a saudades e sensações. A metafísica contida sob as unhas não esclarecia o suficiente aquilo que tirava o ar, que vinha em imagens coloridas em pleno sonho preto e branco. Aliás, os sonhos sempre vinham sem cor, e só depois dos malabares e de todo um olor de chocolate é que passaram a ficar coloridos, aquarelados. A água usada para enfraquecer a tristeza deixou vívida a impressão de que aquela geometria psicologicamente risonha – e carnalmente onírica – é a mais perfeita natureza a ser fotografada e desenhada em alvos papéis.

Talvez por incúria, deixa sempre sumir um pouco da verve artística nas letras serifadas dos jornais-diários-com-notícias-de-ontem. Talvez seja só para atestar o afã de encontrar tamanha beleza – ou com certeza é apenas uma idéia apenas idéia uma apenas passageira idéia de como é possível sentir à distância. É saudade, uns dizem e cantam. É isso ou aquilo, arriscam outros. E pode ser exatamente isso: uma sentença, um ponto de exclamação na memória que grita as melhores lembranças dos últimos tempos ou mesmo – e que irônico! – as melhores notícias. É algo egoísta, ordinário ao extremo – cousa para afagar ego, afogar o passado e se gabar para amigos imaginários. Mas é lhano e urgente, e há garantia lírica nessas belezas apuradas calmamente em manhãs agradáveis, em noutes serenas.

Fechemos a edição hoje – e tão-somente hoje – por conveniência, por capricho. Amanhã é um novo dia para se noticiar o que uns dizem e cantam e arriscam. Amanhã é sempre um bom dia para ver ao longe o arco descrito pelo barco que evita atracar no cais. E sempre vai ser um bom dia para pintar em paredes as reminiscências de despedidas indesejadas – mas necessárias para a própria saudade.

Tudo isso deságua no mar traçado a nanquim, e se confunde na pororoca da memória. É uma ressaca tardia que diariamente alfineta os tímpanos, cutuca o peito e avisa de longe: aspasCuidado, a manchete é em caixa alta, e é preciso conjugar bem este substantivo chamado saudade!aspas.