domingo, 2 de agosto de 2009

.sobre a festa e o lembrete onírico.

Cancelou os compromissos para poder cortar as arestas que cutucavam a lembrança. Queria descansar saudades, acomodar imagens necessariamente coloridas – de um bronzeado lascivo. Estava com o semblante sujo, enegrecido por uma fuligem outrora suave, mas agora um tanto um quanto cancerígena. Ele queria esquecer os boatos alheios, os conselhos maliciosos de outrem e os pensamentos que, algures, o colocava num reino de poucos súditos. aspasEsquece issoaspas foi o que tatuou a Bic no pulso esquerdo. Iria lavar pouco as mãos, e tampouco iria suar. O nervosismo de um ósculo sequer o denunciaria, e por isso fez questão de mostrar a todos o lembrete rabiscado no pulso.

Sentia-se preso numa camisa de força, atado e pronto para ser seviciado por algum demente sexualmente alterado pelo uso contínuo de entorpecentes vendidos por uma semi-analfabeta magricela que atende pelo nome de Bailarina e cuja fisionomia cadavérica contrasta com a riqueza de detalhes do seu corpo moribundo: pernas cheias de ferida, dentes enegrecidos e trincados, os olhos fundos e amarelados, o cabelo rizomático e as mãos secas. Um lapso apenas.

Mas estava certo de que não iria se arriscar a obliterar peripécias imaginárias com outros corpos. Não, isso seria de um desrespeito descomunal. Depois de todos aqueles debuxos de planos e de tantas alacridades pontilhadas a mãos trêmulas de prazer! Não, não podia, devia ou sequer queria fazer isso. Que digam o contrário os que imaginam além da realidade, que pintem a libido num vestido verde os mais surrealistas ou mesmo que fotografem em carne viva qualquer sinal de dúvida. A melodia escrita em pautas encardidas era outra. A festa estava em outro estágio, num clima pouco ensaiado. Não valia tanto a pena estar ali para ver uma ou outra figura irritantemente álacre, não compensava perder sono por essa ou aquela conversa vazia. Não valia tanto a pena sublinhar definições alheias sobre o que supostamente cada um aparanta ser. aspasAssine em baixo quem quiseraspas, disse em tom baixo para não ser ouvido. Nem ele queria se ouvir.

Levantou várias vezes da cadeira no intuito de controlar alguma vontade, malgrado saber que a vontade não era o óbvio aconselhável para instantes - uns diriam chances - como aquele. Sentia doer os olhos. A pouca luz o fazia ficar cabisbaixo, e ele queria mais era enlouquecer. Ele almejava não sentir as metades que o rodeavam. Havia, claro, completudes dignas de uma conversa mais lapidada, mas ali não era o espaço. Não, senhor.

De súbito, enquanto todos se embriagavam e contavam vantagens, ele tirou do bolso o berrante ímpar que comprou num sebo no centro da cidade e começou a manchar o ambiente. Era aquela um instrumento muito peculiar, e isso todo mundo percebeu ao primeiro sopro. Um novo céu se formara, e uma luz soturna começou a confortar os pensamentos mais íntimos dos presentes. O imbróglio inicial estava sendo aos poucos mitigado, e a sensação inefável de antes ganhava tons, intensidades e uma harmonia pouco usual.

Podia ele ouvir o choro alheio, aquele ranço que surgia a cada fungada mais profunda e que, necessariamente, vinha acompanhada de uma careta. Na verdade alguém negou a ele o subterfúgio alvo que constantemente era alvo de complicações respiratórias. Pouco importa. A questão era atingir as notas mais azuis possíveis. Queria ele sinestesicamente provocar a raiva de uns e a admiração de poucos. Infeliz poeta dos sons que era, sabia ele que no fundo não iria conseguir tamanha proeza.

Mesmo assim ele tocou e tocou e manchou todo o ambiente. O corpo seco se sentia mais leve ainda, e logo ele pode visualizar demônios e afins numa épica orgia. Os tons de algo sagrado se misturavam aos muitos deboches que ele deixava perpassar em risos e soslaios. Não entendia, enfim, como era possível aquele disparate. A cabeça fumava, os dedos amarelados tangenciavam loucuras e tudo ao mesmo tempo num agora que ele não podia prever nada.

Aconselhado por uns poucos cientes no recinto, deixou de lado o instrumento musical e se deitou próximo da piscina. Aquele dia passaria despercebido, como a poesia chinfrim que escorria de versos alheios. Como sempre, ele não fazia questão de muita cousa. A frase no pulso esquerdo, então, passou a ter mais do que nunca um sentido onírico. E por isso ficou ele com medo de fechar os olhos.

2 comentários:

fochesatto disse...

ah, o saudosista diz, ah!
ah, veja o que faz!
o marrom da cabeça...
inventa somletrafomeamor.

Salamandra Malandra disse...

aim agora q tenho net vou transformar toda essa puuttaria numa gde viadagem com dois vs de veado porra. a proposito, proposito se escreve com z zuleica, de cinderela