quinta-feira, 29 de outubro de 2009

.16mm – ou uma imagem roubada de uma película de cores oníricas.

A porta se abriu de novo, lentamente. A casa se desfazia na memória, desmanchava aos poucos. Ficou parado de frente para o mar, e preguiçosamente respirava a brisa. Pendurava lembranças numa parece alva, e contava as tábuas que forravam o quarto. Os olhos estavam semicerrados, um riso involuntário se insinuava e nas mãos inertes se embolavam as linhas que outrora foram traçadas a esmo. Ouvia de leve os ruídos, as escadas caindo, as estantes despencando, os livros sendo arrastados e todo o arsenal de memórias sendo consumido. Um pandemônio nostálgico, um circo de saudades. Tudo muito sem graça, claro. Tudo muito dramático. Virou-se sem muito ânimo, e viu um inofensivo incêndio na sala de estar. A fuligem enegrecia o peito, mas a falta de ar não o incomodava. Voltou mais uma vez o olhar cansado ao mar, à brisa. Fechou os olhos por uns segundos, e sentiu medo de toda a eternidade vivida em poucos meses, em algumas semanas, em dias, horas, palavras, beijos. Uma eternidade deveras bonita, dessas que ilustram as cores mais comuns aos gênios. Um tempo eterno que havia começado numa manhã rouca, depois de uma noute barulhenta. Isso foi há tempos, e naquele instante o medo logo se transformou em algo lancinante, num sentimento que o fazia querer subir mais uma vez a escada para poder beijar a fonte lasciva. Queria inda mais uma vez ver de perto o riso, marcar a silhueta com os dedos ou mesmo observar a construção de sonhos nos quais ele era coadjuvante. Queria tudo ao mesmo tempo agora mesmo tudo ao tempo mesmo agora ao mesmo tempo. Virou o corpo para mais uma olhadela, e viu que, de repente, a destruição havia parado. Uma palavra, uma conversa talvez. A desconstrução simplesmente parou. Pendeu a cabeça para o lado como quem custa a crer no milagre em plena igreja, e até se sentiu culpado por desacreditar em tamanha alegria. O sermão seria outro! Afinal, quem poderia garantir que, por incúria ou demasiado otimismo ele se permitisse perambular por quartos, salas e quintais e, sem mais nem menos, tudo pudesse mais uma vez ruir? Era arriscado, e ele sabia muito bem. Mas a construção ao avesso parou! E ele então foi ao encontro da silhueta, dos risos e de tudo mais que tanto o encantava enquanto estava distante! E se sentiu tão bem! No andar superior, concluiu rabiscos, criou elogios e insinuou palavras no corpo cujo idioma aprendera em manhãs dominicais e em ocasiões outras tão belas quanto singelas. Um ou outro pedaço de concreto caía inda da construção, mas nem se deu conta. Perdeu os olhos, queimou os navios. A mesma história dos desvarios. E não fazia diferença, enfim. A égide de outros tempos estava de volta. Podia sentir o desembaraçar na palma das mãos. A calma e prazerosa terapia alternativa, a mesma vontade de gaguejar palavras em língua estrangeira. Uma viagem, um desenho novo e todo o debuxo de uma história que pode ser animada quadro a quadro – mas que também pode ganhar dimensões mais, cores e texturas outras, palavras e imagens diferentes. Talvez seja muita cedo para projetar tal película. Além do mais, a casa precisa ser reerguida, as paredes precisam ser pintadas e o azulejo precisa ser manchado uma vez mais para sangrar demônios e chistes. O orçamento foi feito com uma margem de erro aceitável – se é que existe tal margem, uma vez que todo o caudaloso rio de sentimentos foi assoreado. Não há como negar: ele está raso, mas também não há como negar a força da correnteza. Apenas se deixa levar, pois não se afoga mais, mas quem não sabe nadar também não sobrevive.


Corta!


Voltemos ao diálogo. As elucubrações filosóficas a gente grava amanhã. Você fala agora, nem que seja num simples comentário. Eu espero as palavras.


2 comentários:

Cabeça Dinossauro (Kambá) disse...

uepa... e ai, rolou os lances?.. essa imagem faz parte?
Tem mais?
?
.

milladilua disse...

Ler-te dá mais saudade...