quinta-feira, 30 de setembro de 2010


.sim, porque o gozo, o prazer e tudo mais um pouco não fazem parte dessa fornicação chamada vida.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

.um conto cuiabano.



Vi Deus fumando base na Miguel Sutil. Visivelmente virado, com os olhos fundos e com as pontas dos dedos amareladas, queimadas até. O polegar direito simulava mecanicamente o movimento do isqueiro, item essencial para o famigerado vôo de helicóptero. Ele queimava, estava em febre na lei do óleo e era possível ver o Diabo tatuando escrituras apócrifas nas suas costas. A barba há dias sem ser feita e cheia de perdigotos e de um ou outro grão de arroz que comera apressadamente. Deus estava invernado em pleno calor de Cuiabá, numa parte qualquer da Miguel Sutil. O sol ao meio dia apontando rumos que até eu duvido que existam de fato.

A roupa estava aos fiapos, suja, mijada. De longe era possível sentir o fedor de bosta. Os pés estavam nus, sujando passos nas suas outrora respeitadas linhas tortas. Desaprendera a escrever, a ler e a discernir o que era real e o que era fruto de sua verve divina. Vigiava sempre, claro. Isso é de praxe, como muita gente sabe. Vigiar, vigiar e vigiar. Quando menos se espera o sono vem, a loucura passa e é hora de sair novamente em busca da Bailarina. Quatro da tarde, nove da noute, cinco da manhã. Não importa, pois a Bailarina sempre tem algo – nem que seja uma cabeça miada. Mas quando se está instigado, qualquer para é suficiente para uma redentora paulada ao meio dia.

Quando vi Deus fumando base na Miguel Sutil, imaginei cousas horríveis. aspasAo Diabo!aspas, devia ter dito Ele ao desistir das gratificações que fiéis – e Deus, como bem sabem os adesivos de carro, é fiel – dão sem pestanejar a caubóis que pregam a palavra em showmícios televisionados. Ele desistiu de uma vida pacata de adoração e culpas aceitáveis – Foi Deus quem quis assim, como dizem por aí – para se perder nos meandros da lata.

A epistemologia do caos é simples até. Uma cerveja que se bebe vagarosamente. Seca-se bem o interior, amassa-se o centro do corpo dela e com o anel fazem-se os furos da perdição. Os diamantes da desgraça são cuidadosamente depositados sobre as cinzas do apocalipse, que por sua vez devem ser postas sobre os pequenos buracos. Nesse momento Deus peida, e muitas vezes, é bom que se saiba, até se caga todo. Só de imaginar o cheiro Ele já se treme. Com o isqueiro de um e cinqüenta Ele pilota o helicóptero, e tão logo se incendeia em fumaça. Depois é tarde. E Deus, quem será?

Gagueira incontida, tremores descompassados, suor e muito suor unido a um olhar perdido, solto numa esquina escura ao meio-dia. Passei justamente, confesso, nesse momento. Como filho Dele, pedi a segunda. Afinal, tudo o que eu quiser o cara lá de cima vai me dar. Mas Deus me negou a segunda. No alto de sua divina hierarquia, Ele apenas segurou a fumaça que estava dentro da lata. Vigiou o outro lado da rua, sacudiu a barba e conferiu o restante da parada. Senti que eu não era bem-vindo naquele instante, que eu deveria ter deixado de escutar todas aquelas súplicas, e que também deveria eu ter deixado de lado esperanças e o sentimentalismo maldito que corrói e estraga a alma.

Deus continuou a sua saga, noute a dentro e dia afora. Um coral de vozes, sirenes e cores. Uma orquestra sem cordas e com o maestro de um movimento só. Como Deus mesmo lera um dia na contracapa de um disco indie: a vida é tão fácil para quem não a vive. Ele estava vivendo a Dele, a vida que pediu a si mesmo. De um surrealismo barato, de uma poesia desnecessária e de uma taquicardia deprimente. De isso tudo e de nada mais. O calor a derreter o cérebro ainda mais, a corromper os arquivos da memória, a destituir a auto-estima em prol de uma loucura vencida, com efeitos colaterais para além-mar.

Por um momento, achei que Deus estivesse cansado daquilo. Solfejando súplicas e ladainhas venais, era possível ao longe ver a roupa puída, o dorso magro. E Ele exibia sem pudor a face que um dia foi quase imortalizada por um Irigaray já sem tatuagens. O filho Dele havia passado com ajuda, com remédios e com versículos e canções de louvor. Em vão, é bom adiantar. Deus estava decidido a se experimentar num dilúvio de desesperanças, num eterno e grande tombo. E cambaleando Ele subia e descia avenidas e ruelas, certo de que alguém oraria por Ele e para Ele. Um orgulho febril e quase diabólico O afligia, e sem querer o resto do mundo era olvido por quem o criara.

O Criador era a sua própria besta em dias de fartura. E Ele se contentava num ato de auto-comiseração regado a generosas baforadas do que mal o Diabo ousa experimentar nas horas de folga. Amém.


sexta-feira, 2 de abril de 2010

.arte contemporânea – ou um conceito deleuzeano para frivolidades sociais.


Talvez por descuido, ou por mera alegria mal disfarçada. Aconteceu. Cortou as vísceras, os pulsos e um pouco a garganta. A cabeça pendia para o lado esquerdo, quase como quem tem dúvida ou como quem, de novo por descuido, demonstra dúvida. Os sons não eram muito compreensíveis – ainda mais de tanto aspirar algo que todo mundo acredita ser cocaína. Sentia-se cheio de cerveja, com cevada até os olhos, e os joelhos úmidos pela espuma dispensável. O gosto amargo, amargo e amargo. Beijo algum, só um ou outro cumprimento mais lascivo que apenas se concretizava em pensamento. Estava um pouco de saco cheio das palavras sem sentido, daqueles poemas ditos por incúria e sem a devida intenção poética. Arte pela arte... Aquilo não era arte, poesia ou tesão. Era tudo ao contrário, um vice-versa descontrolado. Não havia como suportar aquilo, mesmo com os olhos estatelados e com a boca levemente torta pelo amaro gosto que descia a garganta de quando em vez. Sentia-se um lixo, a escória da humanidade, um artista incompreendido por nada fazer. E de fato, se pensasse bem, o era. Estava ali por descuido, por uma comemoração desmedida e sem sentido. Quem faz sentido é soldado, poeta? Então és um milica desgraçado, supõe-se.

A festa estava descompassada. Alguns dançavam, outros conversavam bobagens fingindo uma erudição aquosa, sem gosto, anódina mesmo. E a cabeça continuava torta, como cachorro que tenta entender um som diferente. As mãos fingiam acordes, e os pés sambavam num tempo diferente – contratempos de um entendimento sem forças. Estava visivelmente em outra estação, prestes a desembolsar controvérsias. De repente, o gosto amargo de um iminente vômito. Não fez questão de segurar ou correr ao banheiro. Vomitou nos pés de todos que estavam próximos. E enquanto lhe escorria pelo nariz os restos de um jantar às pressas, via de relance o asco alheio, a pouca amizade em compreender a desgraça que lhe ocorria. Passou a mão no vômito que ilustrava o chão quadriculado e limpou-a na camisa branca. Ameaçou um riso adrede sem graça, mas no fundo insuportável por sua sinceridade desmedida. Pessoas se irritaram, claro, e foram embora. O dono da casa trouxe um balde e um pano, limpou com raiva – queria esfregar ali a cara de quem fez aquela arte imunda. Ninguém veio acudir ou mesmo consolar quem vomitou. O cheiro irritava o nariz. O “artista”, porém, não se importava nem um pouco. Pediu mais uma cerveja e foi ao banheiro se inserir uma vez mais na loucura da qual todos compartilhavam – seres pensantes! Voltou com uma aparência nova, anos a menos e com um sorriso menos cínico. Ficou em pé balançando e tentando entender do que todos riam.

Aos poucos a alegria foi se transformando em desilusão, e todos se cansavam das mesmas piadas, da mesma história. Impotentes diante da mesmice, os que não foram embora por causa do vômito começaram a demonstrar uma falsa esperança, um otimismo vencido. Não havia mais o que fazer ali, não havia muito o que esperar. Estavam todos em estações diferentes, em sintonias estranhas e com fisionomias pouco fotogênicas. Bocas tortas, caretas, narizes escorrendo – vivam as águas deste nosso planeta azul! – e toda uma gama de situações corpóreas desnecessárias e ridículas. Pensou em passar a mão na bunda dela, em afagar os seios dela e, claro, em beijá-la. Mas ao mesmo tempo em que desejava isso, sentia o nariz escorrer e escorrer. E lascivamente lambia o líquido aquoso e amargo, e fazia a careta mais compreensível do momento – assim como todos faziam. Cansado de balançar entre figuras e de tentar entender dos versos e das teorias e de todo o arsenal filosófico e artísticos dos convidados, deixou-se escorar numa pilastra. Ficou ali por alguns minutos. De repente, todos no quarto, e num outro instante, todos fora – devidamente com as mãos nos narizes e com o vocabulário de assuntos renovado. Sentia-se uma vez mais a escória da humanidade, o micróbio que consumiria o intestino de todos os presentes naquele recinto. Por isso ficou por uns instantes numa mesa-ensaio analisando o seu tamanho enquanto artista, enquanto verme. O copo de cerveja ao centro e uma pequenez mesquinha do Outro, do grande outro. Ficou por uns tempos sem se mexer, apenas ouvindo os murmúrios, os risos e a pedante conversa dos transeuntes mundanos daquela festa de putas mal pagas.

Deixou a cerveja esquentar para beber com urgência. Não agüentava mais aqueles instantes de loucura comedida. Foi ao banheiro de novo, mas dessa vez não houve renovação. A raiva reinava em sua mente florida de idéias artísticas. Um tiro certeiro, daqueles estilo dragão-de-Komodo. Passou na cozinha e furtivamente pegou um saca-rolha e um garfo. Era o suficiente. Era esperar que todos fossem ao quarto novamente, e, enquanto isso, com uma cerveja nova na mão esquerda acariciava a si mesmo com a outra – sem vergonha, sem pudores jornalísticos ou preceitos evangélicos. Um ou outro convidado estranhou aquilo, mas entendiam que artista costuma se fazer por doudo, por tarado ou algo do gênero. Ao primeiro sinal de que iriam adentrar o espaço para novos encontros intelectuais via canudo, preparou-se. Era o momento da ação-mor, da instalação mais significante que todos ali veriam.

A primeira a sair foi a mulher do anfitrião, e ela então foi, infere-se por obviedade, a primeira a ser golpeada. Sem gritos, pois a garganta trancada – sinal de um pó bom, muito bom – impedia qualquer reação sonora. Com o garfo furou fundo o seio esquerdo dela, e com o saca rola furou um dos seus olhos castanhos. Foi tudo muito rápido. Ao que saiu um convidado qualquer – e naquele instante todos eram quaisquer convidados –, enfiou o garfo na garganta do infeliz. Dessa vez houve gritos, pois o desgraçado esperneou pelo chão tentando estancar o sangue que esguichava. Os demais saíram assustados, e ficaram mais ainda quando viram a artista – a mesma do vômito – arrancando o olho do rapaz com o saca-rolha. Antes que alguém lhe chutasse a cara e os dentes e as costelas e a virilha e todo o seu corpo tenso, riu pelo canto da boca, tomou da cerveja e exibiu o globo ocular do convidado infame. Por instinto ou por incúria, solfejou uma melodia demasiado álacre para aquela hora, e foi esse o motivo de todos odiarem aquela instalação contemporânera-pós-surrealista de tons medievais. Inconformada, deixou a cabeça pender para esquerda e fechou os olhos bem antes de levar o primeiro chute que a tatuaria um novo riso no rosto. A glória vem aos ousados, pensou. Aos ousados, enfim.




segunda-feira, 1 de março de 2010

.set list.

Estava em silêncio, comentando consigo mesma todos os impropérios que podia imaginar. Excitada com aquilo tudo, inegavelmente, ela estava. Era muita gente, muitos rostos novos, gente bonita, possíveis parceiros. Vestida com uma saia curta e uma blusa com um vistoso coração retalhado, o corpo parecia maior com aquela bota. Os seios muxibentos não fariam a menor diferença. Logo ela, tão intelectualizada e ligada à parte filosófica do movimento anarquista. Não, definitivamente não fariam a menor diferença. Ficou num canto com uma lata de cerveja na mão. Seria questão se minutos até que alguém a chamasse para uma conversa ou mesmo para algo mais tórrido, mais prático e menos deleuziano – ou qualquer cousa do gênero.

Do outro lado da cidade, um vendedor de picolé estava voltando para casa. Foi assaltado. E espancado por querer se defender mostrando a bíblia que levava para baixo e para cima. Chegou em casa sem o devido dinheiro, com a cara amassada. A auto-estima cutucava as costelas de Jesus. A mãe pediu para que rezasse, pois era tudo muito natural na lógica divina. Uma lógica que parecia casar com outra que diz: viver é sofrer. Pouco importa.

No palco, a banda estava incompleta. Foram dous bateristas e um baixista que parecia querer vomitar a cada nota. Depois de algumas músicas irreconhecíveis aos ouvidos mais atentos, eles estavam com o riso mais constrangido, mais sem graça. Inevitável. Sempre olhando para os músicos convidados para dar instruções desnecessárias – pois eles errariam do mesmo jeito.

Enquanto isso, no canto da casa de shows, uma garota chocava uma lata de cerveja. Moribunda e com uma aparência estilo anos 1980. Ela parecia ter saído de uma revista, de um vídeo-clipe ou de um sonho de local e data indeterminados. Na penúltima música ela se aproximou do palco, olhou com certo encanto um dos violeiros, limpou o rosto dos perdigotos do mesmo e, sorrateiramente, pegou o set list displicentemente jogado no palco. Achou que estava sendo subversiva ou algo assim. Pouco importa.

Quando molhou o rosto e se olhou no espelho, já havia perdido quanto tempo estava tomando aquela cerveja e nada de ninguém chegar para uma conversa filosófica. Tateou os seios exíguos, deu tapa leve no rosto. Desandou a chorar – ali mesmo, na porta do banheiro. Tirou o set list da bolsa e leu os títulos das músicas que nunca havia ouvido. Foi empurrada por outras que queriam usar o banheiro. Fingiu dureza. Comprou outra cerveja e logo esqueceu das filosofias e de todas as ideologias – na verdade, espécies de peneiras. Prestou atenção e cantou os últimos versos do último refrão. Mas sabia que eles não fariam diferença para ela naquele momento de tamanho abismo, de tamanha descrença – uma ousada dodecafonia em Braille. Não, definitivamente não fariam a menor diferença.

A lógica divina não faz tanto sentido. Mas viver, definitivamente, é sofrer.




*Set list d'osviralata de um show-jam-session peculiar


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

.desencanto.


Estava puto com tudo aquilo, com toda aquela situação. Ah, como estava puto! Se tivesse uma arma, mataria quem estivesse por perto: mãe, pai, filho, puta, padre, freira, cachorro, vigia, cangaceiro, intelectual burro, gordo, magro, drogado, careta, crente, ateu, doente, são e tudo mais que pudesse matar enquanto tivesse munição. E tudo porque ele comprou dela as lembranças de uma festa que não pôde ir. A alegria, os risos, as cenas engraçadas, as pequenas rusgas, os olhares, a bebedeira, a desgraça dos cumprimentos, a falsidade gratuita, os vestidos cafonas, as roupas caras, os sapatos limpos, os perfumes enjoativos, as músicas irritantes, as conversas sem rumo, a comida cara, a cerveja quase quente, a preocupação de voltar para casa, a lembrança do gasto, a sensação de que nada valeu a pena, a irritação de ver os outros felizes com pouca cousa, a satisfação de se sentir o maioral sabendo que não passa de um merda, os elogios atrasados, os entendimentos desnecessários, as memórias datadas, a inexplicável vontade de cagar e de ter um revólver para matar mãe, pai, filho, puta, padre, freira, cachorro, vigia, cangaceiro, intelectual burro, gordo, magro, drogado, careta, crente, ateu, doente, são e tudo mais que pudesse matar enquanto tivesse munição.

Pagou barato, claro. Logo se enfastiou com tanta cousa não vivida por ele. Imprimiu algumas cenas e as guardou num álbum escuro para às vezes – e só às vezes –, quase que furtivamente, deixar-se irritar com toda aquela baboseira social. Repetia triste consigo mesmo, quase sem força: aspasVai morrer pra lá!aspas


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

.de um Gregor qualquer.


Não havia mais saída, tampouco rima ou solução. A métrica estava errada e a melodia chorosa era outra, definitivamente diferente do que outrora tocava o peito murcho do rapaz. Ah, quanto descuido! Sentado em sua rotina inevitável, chorando pequenas alegrias e com a mesquinhez desnecessária para com as tristezas mais lhanas e feéricas: esta era a triste figura, o seco molambo que curvado caminhava entre as conquistas alheias. Comumente se imaginava mordendo com raiva um garfo: os dentes trincando, os olhos lacrimejantes e o nariz a escorrer sangue. Um murro, uma briga perdida, uma humilhação gratuita por uma boa ação. O carnaval de outrora se tornou quarta-feira de cinzas, uma eterna quarta-feira de cinzas. Pulou demais, sambou demais. Tudo em silêncio, num sepulcral silêncio. Exilado de si mesmo, fugindo de saudades. Um sujeito estranho que sofria em câmera lenta, e que preguiçosamente se apressava em se explicar para tudo e por todos. Mal entendido era pecado, e se submeter a enganos a melhor penitência. Sofrimento por uma questão de classe.

O beco sem saída, destarte, apresentava-se como inevitável. Mas eis que questões outras suprimiam aos poucos a suposta falta. Cocaína, adereços, cachaças baratas, sambas incomuns e ilustrações mudas cujas cores destilavam a mais inofensiva lascívia. Todo aquele catálogo de tristezas – uma para cada dia da semana, e com direito a alguns brindes para momentos inoportunos: improvisos e afins – se mostrava inútil diante de tanto egoísmo alheio. Era apenas mais um, um a mais a apenas matar o tempo ao invés de viver. Um dom deixado de lado por contrato. Queria deixar de ser aquela nota de rodapé no livro alheio, aquela citação imprópria que intelectualmente sequer servia ao texto. As esperanças de antigamente, frustrantes e mal fodidas, todas elas estavam vencidas há tempos. Depois de tudo – ah, depois de tudo! – é que percebeu o quão inútil foi aquele descuido desmedido. Ali, parado em frente de si mesmo no beco – um istmo para suas decepções rizomáticas –, não havia muito o que fazer. Não, não havia. Inundado de imagens descoloridas, ficou sem ação por muito tempo. Literato de bula de remédio, seu enjambemant mais bonito aproximava doença e Deus. Mas sua fé de nada valia.

Uma valsa embalava seus pensamentos sutilmente agressivos. Três para lá, três para cá. Uma matemática desigual. Convencia a si mesmo que era o fim. O céu amarelado em tom desesperador fazia suas angústias parecerem aquarelas. Tanta saudade de nada e para nada. Coçava o ego e reconhecia a sua insignificância perene, sua passagem trivial por uns e por outros. Vasto em sua importância de botequim, ébrio querido dos mais íntimos desimportantes – amigos ocasionais. O verdadeiro Gregor de um dia-a-dia assaz ridículo. Beijos azedos, hálito podre, humor de cotovelo e dores afins: um diagnóstico sem precedentes no que diz respeito a cousa alguma. Um brinde à mediocridade! Um brinde!

Abatido, chocho, murcho... Queria apenas voltar aos dias de inocência, período em que não confundia educação com libido, esperteza com mau-caratismo. Era tarde, e sabia muito bem disso. Um caso a mais nas elucubrações perdidas de mesas de bar, um causo a mais nos confins de arquivos mortos. Salvou-se adrede em disquete para ser esquecido, e assim foi. Arrependimento algum pagava aquela sensação única. Queria apenas mofar, virar peça de museu pessoal, utensílio de afago ao ego de colecionador impotente – motivo para ejaculações precipitadas.

Uma rotina infame em prol da mediocridade. Sem quadros, irmãs, mães, pais, empregadas e patrões. Apenas uma janela e o céu cinza. Um bonito esboço do que poderia ser. Faltou esforço e sorte, apenas isso. E isso, de fato, era justamente o essencial.