sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

.desencanto.


Estava puto com tudo aquilo, com toda aquela situação. Ah, como estava puto! Se tivesse uma arma, mataria quem estivesse por perto: mãe, pai, filho, puta, padre, freira, cachorro, vigia, cangaceiro, intelectual burro, gordo, magro, drogado, careta, crente, ateu, doente, são e tudo mais que pudesse matar enquanto tivesse munição. E tudo porque ele comprou dela as lembranças de uma festa que não pôde ir. A alegria, os risos, as cenas engraçadas, as pequenas rusgas, os olhares, a bebedeira, a desgraça dos cumprimentos, a falsidade gratuita, os vestidos cafonas, as roupas caras, os sapatos limpos, os perfumes enjoativos, as músicas irritantes, as conversas sem rumo, a comida cara, a cerveja quase quente, a preocupação de voltar para casa, a lembrança do gasto, a sensação de que nada valeu a pena, a irritação de ver os outros felizes com pouca cousa, a satisfação de se sentir o maioral sabendo que não passa de um merda, os elogios atrasados, os entendimentos desnecessários, as memórias datadas, a inexplicável vontade de cagar e de ter um revólver para matar mãe, pai, filho, puta, padre, freira, cachorro, vigia, cangaceiro, intelectual burro, gordo, magro, drogado, careta, crente, ateu, doente, são e tudo mais que pudesse matar enquanto tivesse munição.

Pagou barato, claro. Logo se enfastiou com tanta cousa não vivida por ele. Imprimiu algumas cenas e as guardou num álbum escuro para às vezes – e só às vezes –, quase que furtivamente, deixar-se irritar com toda aquela baboseira social. Repetia triste consigo mesmo, quase sem força: aspasVai morrer pra lá!aspas


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