segunda-feira, 1 de março de 2010

.set list.

Estava em silêncio, comentando consigo mesma todos os impropérios que podia imaginar. Excitada com aquilo tudo, inegavelmente, ela estava. Era muita gente, muitos rostos novos, gente bonita, possíveis parceiros. Vestida com uma saia curta e uma blusa com um vistoso coração retalhado, o corpo parecia maior com aquela bota. Os seios muxibentos não fariam a menor diferença. Logo ela, tão intelectualizada e ligada à parte filosófica do movimento anarquista. Não, definitivamente não fariam a menor diferença. Ficou num canto com uma lata de cerveja na mão. Seria questão se minutos até que alguém a chamasse para uma conversa ou mesmo para algo mais tórrido, mais prático e menos deleuziano – ou qualquer cousa do gênero.

Do outro lado da cidade, um vendedor de picolé estava voltando para casa. Foi assaltado. E espancado por querer se defender mostrando a bíblia que levava para baixo e para cima. Chegou em casa sem o devido dinheiro, com a cara amassada. A auto-estima cutucava as costelas de Jesus. A mãe pediu para que rezasse, pois era tudo muito natural na lógica divina. Uma lógica que parecia casar com outra que diz: viver é sofrer. Pouco importa.

No palco, a banda estava incompleta. Foram dous bateristas e um baixista que parecia querer vomitar a cada nota. Depois de algumas músicas irreconhecíveis aos ouvidos mais atentos, eles estavam com o riso mais constrangido, mais sem graça. Inevitável. Sempre olhando para os músicos convidados para dar instruções desnecessárias – pois eles errariam do mesmo jeito.

Enquanto isso, no canto da casa de shows, uma garota chocava uma lata de cerveja. Moribunda e com uma aparência estilo anos 1980. Ela parecia ter saído de uma revista, de um vídeo-clipe ou de um sonho de local e data indeterminados. Na penúltima música ela se aproximou do palco, olhou com certo encanto um dos violeiros, limpou o rosto dos perdigotos do mesmo e, sorrateiramente, pegou o set list displicentemente jogado no palco. Achou que estava sendo subversiva ou algo assim. Pouco importa.

Quando molhou o rosto e se olhou no espelho, já havia perdido quanto tempo estava tomando aquela cerveja e nada de ninguém chegar para uma conversa filosófica. Tateou os seios exíguos, deu tapa leve no rosto. Desandou a chorar – ali mesmo, na porta do banheiro. Tirou o set list da bolsa e leu os títulos das músicas que nunca havia ouvido. Foi empurrada por outras que queriam usar o banheiro. Fingiu dureza. Comprou outra cerveja e logo esqueceu das filosofias e de todas as ideologias – na verdade, espécies de peneiras. Prestou atenção e cantou os últimos versos do último refrão. Mas sabia que eles não fariam diferença para ela naquele momento de tamanho abismo, de tamanha descrença – uma ousada dodecafonia em Braille. Não, definitivamente não fariam a menor diferença.

A lógica divina não faz tanto sentido. Mas viver, definitivamente, é sofrer.




*Set list d'osviralata de um show-jam-session peculiar